Capítulo 06 — Contagem de Risco

1345 Words
Lobão O morro não avisa quando muda de humor. Ele só muda e quem não percebe a tempo vira notícia sussurrada em boca de beco. Eu já tinha aprendido a ler sinais pequenos: moto que passa duas vezes no mesmo horário, menino que some do posto cedo demais, rádio chiando com frase cortada, olhar de curiosidade onde devia ter medo. Naquela noite, tinha um cheiro específico no ar. Cheiro de rival farejando. Eu voltei pro salão da base com a cabeça fria e a paciência curta. A menina, Camilla estava no quarto, trancada e viva. E isso, por si só, já era suficiente pra virar assunto na boca errada. Aqui, informação não é fofoca. É munição. O rádio chiou no meu bolso. — Lobão… tem movimento estranho lá embaixo, na curva da escadaria. Dois caras perguntando de “uma mina que sumiu”. Falaram teu nome. Eu parei no meio do corredor. Só parei. Porque quando falam teu nome assim, não é pergunta. É provocação. — Quem tá perguntando? — minha voz saiu baixa. — Não são daqui. Tão com jeito de… gente do outro lado. Do outro lado. Rival. Facção. Inimigo com fome de brecha. Eu fechei os olhos por meio segundo, contando até três, como se eu estivesse contando balas dentro da cabeça. A cada “um”, eu colocava uma decisão no lugar certo. Camilla era seguro. Sim. Mas também era isca. E eu não ia deixar a isca pescar a mim. — Ninguém responde. Ninguém conversa. — ordenei. — Quero eles sendo seguidos de longe. Só olho. Quero saber pra onde vão e quem encontram. Sem barulho. — Entendido. Eu continuei andando, mas por dentro eu já estava fazendo a conta do risco, somando o que eu via com o que eu sentia. O morro vive de hierarquia: quem manda, quem obedece, quem tenta. Quando uma “peça presa” vira rumor, dois tipos de gente aparecem: os que querem usar e os que querem quebrar. E os dois são perigosos. Entrei na sala de operações e bati a mão na mesa uma vez. Não forte. Só o suficiente pra chamar presença. — Fecha a porta. Dois homens obedeceram. O barulho da porta encostando foi seco, e o salão ficou mais pesado. Ali dentro, eu não precisava de teatro. Precisava de verdade. — Quero saber quem falou. — eu disse, olhando pra cada um. — Quem foi a boca solta que deixou o nome da menina correr? Careca, o mais antigo, evitou meu olhar por um segundo. Só um segundo. Mas eu vi. — Ninguém falou, não, Lobão. — um dos mais novos tentou. — O povo vê movimentação, começa a inventar… Eu caminhei até ele devagar. — Inventar não vira nome. — eu respondi. — Inventar não vira “Camilla”. Inventar não vira “Lobão”. Isso alguém entregou. Ele engoliu seco. O orgulho dele tentou ficar de pé, mas o medo puxou pelo tornozelo. Eu virei pro Careca. — Fala. Careca respirou fundo, como se estivesse escolhendo entre lealdade e sobrevivência. E escolheu certo. — Teve um dos meninos… o Dudu. — ele disse, sem rodeio. — Falou demais na birosca. Achei que era besteira, mas… Eu senti um gelo calmo subir pela coluna. Não era raiva. Era certeza. — Chama o Dudu. Agora. Eles saíram rápido. Eu fiquei parado, olhando pro mapa rabiscado na parede: rotas de subida, pontos de vigia, becos que viram armadilha. Quando você manda, você não dorme. Você calcula. E eu estava calculando o preço da curiosidade. Dudu entrou dois minutos depois com cara de quem já sabia. Olho inquieto, mãos mexendo. O tipo que fala pra ser visto. — Lobão, eu… — Cala a boca. — eu cortei, simples. Ele calou. O silêncio engoliu a coragem dele. Eu cheguei perto, a um palmo do rosto. — Tu abriu a boca? — perguntei. Ele tentou mentir com o olhar. — Não, chefe. Eu só comentei… que tinha uma mina aqui, mas nada de nome… Meu punho não acertou o rosto dele. Eu não precisava de sangue pra fazer lição. Eu agarrei a camisa dele e empurrei contra a parede. O impacto fez o ar sair da boca dele num gemido curto. Os outros ficaram imóveis. Ninguém se mete quando eu ensino. — “Só comentei.” — eu repeti, baixo, como se a frase fosse uma piada r**m. — Tu acha que aqui é roda de amigos? Ele tremeu, mas ainda tentou se justificar: — Eu não pensei que ia— — Tu não pensa. — eu disse. — Tu fala. E fala mata. Eu soltei a camisa e ele escorregou um pouco, buscando equilíbrio. — Agora tu vai aprender do jeito certo. — eu continuei, a voz fria. — Tu vai descer pro posto mais baixo. Vai ficar lá três noites, sem rádio pessoal, sem celular, sem conversa. Só olho e silêncio. Qualquer coisa, tu reporta pro Careca. Entendeu? Ele assentiu rápido, humilhado. — E mais uma coisa. — eu acrescentei. — Se eu ouvir teu nome perto da boca errada de novo… tu não vai pro posto. Tu vai pro chão. Ele arregalou os olhos. Ali ele entendeu. Não “entendeu” de ouvir. Entendeu de sentir. Dudu saiu quase correndo. Eu virei pro resto. — A partir de agora, o quarto muda. — anunciei. — Não por causa dela. Por causa de vocês. Careca franziu a testa. — Vai tirar ela dali? — Vou mover pra um lugar que só três pessoas conhecem. — eu respondi. — E esses três vão ser escolhidos por mim. Um dos homens pigarreou, tentando ser útil. — E a comida? A água? — Tudo vai passar por mim ou pelo Careca. — eu disse. — Quem encostar no assunto sem ordem, cai. Eu vi o medo se espalhar. Medo é bom. Medo se mantém vivo. O problema é quando o medo vira revolta — e eu não deixava tempo pra isso. Quem manda de verdade corta o veneno antes de virar febre. O rádio chiou de novo. — Lobão… os dois caras tão subindo de volta. Agora são três. E tão com celular filmando o beco, tipo querendo “provar” coisa. Eu sorri de lado, sem humor. Rival não quer prova. Rival quer teatro. Quer me fazer parecer fraco, quer me fazer agir no impulso pra eu errar. Eu peguei o rádio com calma. — Ninguém encosta. — eu disse. — Só deixa eles passarem… e marca o caminho deles. Eu quero saber onde eles entram, com quem falam e quem tá pagando essa curiosidade. Pausa. — E se tentarem entrar? Minha voz desceu um degrau. — Aí vocês impedem. Sem barulho. Sem espetáculo. Eu quero eles saindo vivos… pra levarem recado sem eu precisar gritar. Desliguei. Olhei pro Careca. — Vem comigo. No corredor, a casa parecia mais pesada, o concreto atento, como se tivesse ouvido meu nome. Avancei, ignorando a porta do antigo quarto de Camilla. Não por falta de emoção, mas por rigor. Eu não podia me permitir visitas impulsivas a um cativeiro. Isso cria vulnerabilidade, gera narrativas, e se transforma em fraqueza nas mãos de um oponente. Eu desci por um caminho interno, estreito, onde a luz era baixa e o som não corria. Ali, eu guardava o que era importante de verdade. — Lobão… — Careca arriscou. — Tu acha que essa rival tá vindo por causa da menina mesmo? Eu parei e encarei ele. — Ninguém se mexe por pena. — respondi. — Se tão farejando, é porque acham que eu tenho algo que vale. E se acham… é porque alguém mostrou. A frase ficou no ar. Eu abri uma porta pequena camuflada e apontei o caminho. — A contagem de risco mudou. — eu disse, mais pra mim do que pra ele. — Agora eu não tô só protegendo uma peça. Eu tô caçando a mão que quer puxar ela de mim. E no morro, quem tenta puxar algo da minha mão… descobre que meus dedos não soltam. Eles quebram.
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