Camilla
Eu descobri que o medo tem gosto.
Ele não é só tremor e pensamento r**m. Ele é metálico, amargo, fica grudado no fundo da língua como se o corpo estivesse mastigando uma moeda enferrujada. E naquela noite, quando a porta abriu de um jeito diferente, rápido demais, seco demais, eu senti esse gosto antes mesmo de entender o que estava acontecendo.
Dois homens entraram. Não falaram “bom dia”, não avisaram nada. Um deles segurou meu braço, o outro veio por trás.
— Levanta. — foi tudo o que disseram.
Eu levantei com o coração batendo na garganta.
— Pra onde vocês vão me levar?
Nenhuma resposta. Só o puxão. Só o comando.
Meu instinto gritou pra eu resistir, mas outra parte de mim, a parte que aprende cedo a sobreviver, analisou o cenário: eles estavam com pressa. Pressa é distração. Pressa é chance.
Eu deixei meu corpo ir, mas deixei minha cabeça ficar afiada.
Fui levado pelo corredor. O ambiente lá fora era notavelmente mais frio, e à distância, eu percebia o ruído de vozes, um rádio chiando e portas batendo. Uma atividade incomum, como se o quartel-general estivesse sendo reestruturado. Eu desconhecia a causa, mas a sensação era de que estava diretamente ligado a mim. Isso gerou uma fúria intensa, que se transformou em pura força.
Eu desci e subi lances de escada, virei à direita e depois à esquerda. Comecei a contar os passos, não por precisão, mas pelo desespero de não sumir sem um mapa. Eu sempre conheci o morro, mas ali, estava sendo conduzida por suas entranhas como se fosse o corpo desconhecido de alguém.
Quando finalmente pararam, abriram outra porta e me empurraram pra dentro de um lugar novo.
Não era o mesmo quarto.
Era pior e melhor ao mesmo tempo. Pior porque eu não reconhecia nada. Melhor porque havia uma pequena a******a alta na parede, pequena demais pra eu passar, mas grande o suficiente pra eu sentir o cheiro da rua. Poeira quente. Fumaça. Vida.
Vida do lado de fora.
A porta fechou com o mesmo som de sentença.
Eu fiquei parada, os olhos procurando qualquer detalhe que pudesse me dar alguma vantagem. O colchão era mais fino ainda, como se ali o conforto fosse punido por princípio. A lâmpada era fraca. A cadeira era outra, mais leve, mais barata. E a fechadura… a fechadura parecia recém-colocada, metal brilhando um pouco no escuro.
Eles me moveram.
Porque tinham medo.
E quando gente perigosa tem medo, ela erra.
O tempo passou de um jeito estranho. Não dava pra saber se era madrugada ou começo de manhã. Eu só sabia que meu corpo estava alerta demais pra descansar. Eu andava, sentava, levantava, escutava. Ouvia passos no corredor em horários irregulares. Ouvia o rádio longe, como se estivessem falando baixo de propósito. Ouvia, de vez em quando, uma moto passando perto. E eu sentia… sentia que o morro estava diferente, como se estivesse prendendo a respiração.
Quando trouxeram comida, a portinhola abriu rápido. Uma mão empurrou um prato simples e uma garrafa de água.
— Come. — a voz disse.
Eu fui até a portinhola sem hesitar.
— Quem tá de guarda? — perguntei.
Silêncio.
— Eu quero falar com Lobão. — eu insisti, encostando o rosto perto do metal.
A mão do lado de fora ficou imóvel por um segundo, como se tivesse pensado em responder. Depois, a portinhola fechou.
Mas fechou… com pressa.
E foi aí que eu vi.
O trinco da pequena porta não fechou por completo. Apenas um milímetro. Quase imperceptível. Foi, no entanto, o bastante para acender uma fagulha de esperança em alguém em desespero.
Meu coração disparou, antecipando-se à ação.
Permanci imóvel, à espera.
Esperei, segurando a respiração, para não fazer o menor ruído. Ouvi passos se afastarem. Dois. Três. Depois, o silêncio.
Lentamente, meus dedos se aproximaram do trinco. Tentei.
Ele cedeu ligeiramente.
O pânico tentou me dominar de uma vez — aquela alegria desesperada, aquela vontade de agir sem pensar, mas eu segurei. Eu precisava de pânico controlado. Pânico livre mata.
Eu puxei a portinhola com cuidado. Ela abriu o bastante pra eu enfiar o braço. Do outro lado, o corredor estava vazio. A luz era baixa. E a fechadura da porta… a fechadura era grande, pesada, o tipo que precisava de chave.
Eu senti o chão fugir por um instante. Claro. Não ia ser fácil.
Mas eu vi algo pendurado no prego do corredor: um molho pequeno. Chaves? Talvez. Talvez não.
Meu corpo decidiu antes da minha cabeça terminar de calcular.
Eu forcei a portinhola mais um pouco, enfiando o braço até quase doer o ombro. Estiquei os dedos, tremendo, tentando alcançar o prego. Minha unha rasgou no metal. Ardeu. Eu não parei.
Toquei no que estava pendurado.
Era um cordão com… uma chave.
Uma.
Eu puxei com cuidado, o coração batendo tão alto que parecia sirene. O cordão caiu na minha mão. Eu recuei o braço rápido e fechei a portinhola do jeito que deu, como se nada tivesse acontecido.
Minhas mãos estavam suadas. A chave parecia pesada demais pra ser real.
Eu fui pra fechadura da porta e encaixei.
Um clique.
Não abriu.
Eu tentei de novo, virando pro outro lado.
Outro clique.
A fechadura cedeu.
Meu corpo inteiro deu um choque. Eu quase ri, mas o som morreu na minha garganta. Eu abri a porta devagar, como se a própria madeira pudesse denunciar.
O corredor estava vazio. Por um instante, eu me senti fora do corpo, como se eu estivesse assistindo a mim mesma.
Então eu corri.
Corri sem olhar pra trás, porque olhar pra trás é o que faz a coragem cair no chão. O corredor virou uma escada. A escada virou outro corredor. Eu não sabia onde estava, mas eu seguia o cheiro da rua, a promessa do ar livre.
Uma porta no fim. Eu empurrei.
E a noite me engoliu.
O morro lá fora era um bicho enorme. E eu estava dentro da barriga dele, tentando nascer de novo.
Eu desci uma escadaria estreita. Virei num beco. Subi outro. As casas estavam coladas umas nas outras, sombras e luzes recortadas, e eu não reconhecia nada. Nada. Cada curva parecia uma repetição torta da anterior. Eu ouvi uma moto acelerar longe e meu sangue gelou.
“Eles vão perceber.”
Meu corpo correu mais rápido.
Eu passei por um paredão com grafite que eu nunca tinha visto. Passei por uma laje com roupa no varal balançando como fantasma. Um cachorro latiu e eu quase tropecei. Minha respiração estava rasgando por dentro, mas eu não diminuía.
Eu tentei escolher caminhos pelo instinto, sempre descendo, sempre buscando uma rua maior, sempre procurando um ponto de referência, um poste quebrado, uma birosca, um som familiar. Só que o morro… o morro é labirinto de propósito. Ele protege e prende com a mesma arquitetura.
E a adrenalina é uma mentirosa. Ela diz que você tá perto quando você tá perdida.
Eu virei numa viela estreita demais e dei de cara com um muro. Sem saída. Só uma escada pequena que subia pra uma casa fechada.
Meu coração despencou.
Atrás de mim, passos.
Vozes.
— Ela tá aqui! — alguém gritou, e o som veio como um tiro.
Eu subi a escada como se minhas pernas fossem outra pessoa. Bati na porta.
— Abre! Por favor! — minha voz saiu quebrada, mas viva.
Nada.
Eu ouvi a moto mais perto agora, como um animal chegando pra morder. Desci de novo, desesperada, procurando outra saída e encontrando só concreto.
Uma mão pegou meu braço.
Forte. Precisa.
Eu me virei num reflexo, pronta pra arranhar, morder, chutar.
E dei de cara com ele.
Lobão não estava ofegante. Não parecia ter corrido. Parecia ter chegado exatamente quando quis.
Os olhos dele me prenderam antes da mão.
— Eu avisei. — ele disse, baixo.
Eu tremia inteira, mas meu orgulho ainda estava de pé, mesmo que cambaleando.
— Eu não sou sua. — eu rosnei, tentando puxar o braço.
A mão dele apertou um pouco mais. Não pra quebrar. Pra lembrar quem tinha força.
— Não faz cena, Camilla. — ele falou, e a voz dele não era raiva. Era controle. — Aqui fora, tu morre mais rápido do que lá dentro.
Eu quis gritar que eu preferia morrer livre do que viver presa. Eu quis cuspir na cara dele. Eu quis tudo.
Mas a moto parou atrás, e eu ouvi os homens se aproximando.
E naquele instante, com o peito pegando fogo e a garganta seca, eu entendi o tamanho do labirinto.
Não era só o morro.
Era ele.
Lobão me puxou de volta com firmeza, e eu fui, porque lutar ali era virar espetáculo e espetáculo no morro vira sentença.
Enquanto eu era levada, a única coisa que eu consegui pensar, com raiva e vergonha misturadas, foi:
Eu quase consegui.
Quase.
E “quase” é perigoso, porque agora eu sabia duas verdades que doíam:
Dava pra sair.
E ele sempre ia saber o caminho até mim.