Capítulo 09 — Ódio que Queimam

1356 Words
Camilla A pior parte do castigo não era a fita no meu pulso. Era o meu corpo. Eu fiquei sentada naquela cadeira como se ela fosse um altar de humilhação, com os braços presos atrás, os dedos livres o suficiente pra lembrar que eu ainda existia e presos o suficiente pra eu nunca esquecer que eu não mandava em nada. A garrafa de água no chão parecia zombaria. “Tá aí. Sobrevive.” Como se sobreviver fosse favor. O silêncio do lado de fora era pesado. Não era ausência de som. Era presença de controle. De vez em quando eu ouvia um rádio longe, um passo arrastado, uma porta abrindo em outro canto da casa. E mesmo assim, parecia que todo mundo estava treinado pra não fazer barulho perto de mim. Como se a minha existência fosse um segredo que não podia respirar alto. Eu puxei as fitas de novo, testando. O nylon cedeu só um milímetro, arranhando minha pele. Ardeu. Eu fechei os olhos e respirei fundo, tentando transformar dor em foco. Não adiantava. Porque a cena voltava inteira, como se estivesse presa na minha retina. Lobão segurando meu braço na viela sem saída. Lobão me puxando de volta como se eu fosse algo que ele recolhe. Lobão falando baixo, com aquela frieza que não treme. O cheiro dele — fumaça e metal e um perfume discreto, absurdo, que eu não tinha direito de notar. A voz dele no meu ouvido dizendo “castigo limpo”. Castigo limpo. Que tipo de homem prende alguém e chama isso de limpo? O tipo de homem que sabe que, no morro, a sujeira não é o sangue. A sujeira é o poder. Eu mordi a parte de dentro da bochecha até sentir o gosto de ferro. Queria que a dor fosse maior do que o pensamento. Mas não era. O pior veio quando eu lembrei do momento em que ele se aproximou pra me encarar. Tão perto que o ar entre nós ficou curto. E meu corpo… meu corpo reagiu. Não foi desejo. Não foi sonho. Foi uma coisa mais traiçoeira, mais humilhante: foi instinto. Foi o coração batendo mais rápido como se estivesse correndo por dentro de mim. Foi o calor subindo na pele, não de febre, mas de alerta. Foi a sensação absurda — absurda — de que ele era… perigoso e sólido, e o meu organismo reconhecia isso como se fosse uma linguagem antiga. Como se eu tivesse nascido pra identificar predador. Eu odeio admitir isso até dentro da minha cabeça. Meu estômago revirou de raiva. Não dele. De mim. — Eu não vou sentir nada — eu sussurrei, pra ninguém. — Eu não vou. O quarto não respondeu. Óbvio. O quarto só existia pra me ouvir quebrar. Eu puxei a fita de novo, dessa vez com força, e o nylon apertou meu pulso até ficar dormente. Eu soltei num suspiro irritado. — Droga. Minha respiração vinha em ondas. Eu tentei controlar, como se eu estivesse numa crise de ansiedade, inspira, segura, solta. Eu não queria dar a ele essa vitória invisível, a vitória de me ver em pânico, mesmo sem estar aqui. Porque era isso que mais me queimava: Lobão nem precisava estar presente pra eu sentir a presença dele. Ele tinha se instalado na minha cabeça como uma sombra. E o meu corpo… o meu corpo colaborava. Eu passei a língua nos lábios secos, o olhar preso na garrafa no chão. Eu me inclinei o máximo que consegui, até sentir a coluna reclamar, e consegui empurrar a garrafa com a ponta do pé pra mais perto. Desenrosquei com esforço, usando o joelho, e bebi um gole. A água gelada desceu e me devolveu ao presente por alguns segundos. Presente: cadeira, fita, parede. Futuro: desconhecido. E no meio disso, minha mente fazia o que a mente faz quando quer sobreviver: ela criava histórias. “E se ele vier de novo?” A pergunta apareceu sozinha e eu senti um arrepio de ódio. Eu não queria que ele viesse. Eu queria que ele sumisse. Eu queria liberdade. Eu queria rua. Eu queria o meu nome de volta, sem ser sussurrado como problema. Então por que meu estômago dava um nó quando eu lembrava da voz dele? Por que eu sentia… alguma coisa, qualquer coisa, que não era só medo? Eu fechei os olhos com força, como se pudesse esmagar essa possibilidade. — Não. — eu falei, mais firme. — Não. A porta do corredor fez um barulho leve. Não abriu. Só um passo que parou do lado de fora. Meu corpo inteiro endureceu automaticamente. A sensação foi instantânea e revoltante: minha pele ficou mais quente, meu coração acelerou, minha garganta secou. Como se eu esperasse. Como se eu estivesse pronta. Eu quis vomitar de raiva. “Você não espera nada, Camilla.” Eu repeti mentalmente como se fosse oração. “Você odeia ele. Você tem medo dele. Você quer matar seu irmão. Você quer sair daqui.” O passo se afastou. E, quando a tensão diminuiu, ficou no ar aquele restinho de energia, como se meu corpo tivesse sido puxado por um fio e agora estivesse tremendo por dentro. Eu comecei a rir baixo, um riso sem humor. — Olha pra você… — eu sussurrei, com desprezo. — Olha o que você virou. Lembrei da minha vida antes: eu acordando cedo, pegando ônibus, fingindo normalidade. Eu defendendo meu irmão em discussão com a minha mãe. Eu dizendo “tá tudo bem” quando não estava. Eu sendo forte por obrigação e não por escolha. Eu sempre fui forte. E agora eu estava presa numa cadeira, com um subchefe decidindo se eu era “seguro” ou “risco”, e ainda por cima meu corpo tinha a audácia de reagir à presença dele como se isso fosse… natural. Eu senti lágrimas subirem — não de tristeza. De humilhação. De raiva por estar viva de um jeito tão exposto. Não deixei cair. Não por orgulho. Por promessa. Eu encostei a cabeça na parede e respirei fundo, devagar. Senti o pulso latejar sob a fita. Senti o próprio corpo pedindo descanso. Eu não dei. Eu fiquei acordada, porque dormir naquele lugar parecia rendição. E eu não ia render nada. Pensei no nome dele: Lobão. Lobo me fez lembrar de caçada. De presa. De matilha. E eu, ali, era a presa mais conveniente do mundo. Só que presa conveniência não dura quando aprende a morder. Eu abri os olhos e encarei a porta como se eu pudesse atravessar o metal. — Você vai me ouvir — eu murmurei, como se ele estivesse do outro lado. — Você vai se arrepender de achar que eu sou moeda. Eu não sou moeda. Eu sou gente. Minha garganta apertou, mas eu continuei, baixinho, como um pacto: — Eu posso sentir medo. Posso sentir raiva. Posso sentir meu corpo me traindo com essa… reação ridícula. Mas eu não vou sentir por você. Não vou. Nunca. Naquele instante, uma memória sensorial voltou, a voz dele dizendo “ninguém toca”. O jeito como ele falou “meu” sem pensar. O modo como ele mandou os homens sumirem. Como se ele estivesse me protegendo… não por bondade, mas por domínio. E isso era o que me confundia. Proteção que prende ainda é prisão. Mesmo assim, meu corpo insistia em registrar a diferença entre “eles” e “ele”. E isso me dava ódio. Um ódio que queimava mais do que qualquer fita. Eu me mexi, tentando achar posição menos dolorida, e senti a pele do pulso arder de novo. A dor me devolveu à realidade: Eu estava viva. E, por enquanto, viva era minha arma. Eu fechei os olhos e fiz a única coisa que eu podia fazer naquele momento: transformei o ódio em combustível. Porque se Lobão achava que eu ia desenvolver sentimento no cativeiro, ele estava mais enganado do que meu irmão quando abriu a boca e disse meu nome. Eu não ia amar meu carcereiro. Eu ia sobreviver a ele. E quando eu saísse… eu ia cobrar cada minuto dessa cadeira.
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