Camilla Eu aprendi que o morro fala até quando acha que tá calado. Ele fala nas frestas, no eco, no passo que para cedo demais, na risada curta que corta no meio quando alguém importante passa. E eu já tinha virado uma coisa que o morro gosta de mastigar: história. Não dava mais pra fingir que eu era invisível só porque estava atrás de uma porta sem tranca. Aquela tarde estava abafada, o ar grudando na pele como se fosse aviso. Lobão tinha saído fazia pouco, e eu fiquei sozinha no esconderijo, com a chave no bolso e a cabeça fervendo de “e se”. Eu tentei me ocupar lavando a blusa na bacia, esfregando a cinza que ainda insistia em ficar. Só que minha atenção não estava na água. Estava no som. Passos no corredor de fora. Um murmúrio. Um rádio chiando distante. E, depois, um barulho de

