Sob a Luz da Aurora

882 Words
“A luz não liberta os escolhidos de suas sombras; apenas as projeta ainda mais nítidas diante do caminho.” — Verso dos Códices de Nhâr-Tess ⸻ O sol já se erguera acima das montanhas quando deixaram para trás o abrigo de Constança. O caminho para Nhâr-Tess era longo, e as pedras da estrada ainda guardavam o orvalho da madrugada. O vento fresco trazia o cheiro das árvores, dos riachos ocultos entre as encostas, e pela primeira vez em toda a sua existência, Henrique podia respirar o mundo à luz do dia. Elisa caminhava ao seu lado, silenciosa. Seus olhos insistiam em se erguer para contemplá-lo, incrédula com a cena diante de si: um vampiro, agora sob o brilho dourado da manhã. Um ser que, até a noite anterior, vivia sob o peso de uma maldição que o condenava às sombras. E, ainda assim, estava ali, de passos firmes, como se tivesse pertencido ao sol desde sempre. Mas cada vez que Elisa permitia esse pensamento, seu coração se apertava. Ela sabia o porquê. Sabia de onde vinha aquela mudança. Seu sangue. Sua essência. “Se eu fosse apenas humana… minha família ainda estaria viva.” O pensamento veio como um sussurro c***l. Apertou o punho contra o próprio peito, tentando afastar aquela dor. Seu coração desejava se alegrar pela liberdade que Henrique agora experimentava, mas sua mente gritava em lembranças: a casa em ruínas, os corpos, a perda. Tudo acontecera porque ela era diferente. Henrique caminhava em silêncio, mas cada passo seu era uma prece. Os campos ao redor, os pássaros voando em bando, a luz que se espalhava pelas folhas — tudo era um milagre. Não havia dor, não havia fogo queimando sua pele, apenas calor. Pela primeira vez, ele sentiu o mundo lhe acolher, não rejeitá-lo. E, ainda assim, o milagre tinha um nome: Elisa. Seus olhos a buscavam quando o pensamento apertava o peito. Seu coração — ou o que restava dele — pulsava de gratidão. Mas junto da gratidão, vinha o temor. Porque ela era a razão de sua liberdade, e por isso também a chave de sua ruína. “E se alguém descobrir? E se já a desejam, já a caçam? E se eu a perder antes mesmo de aprender a protegê-la?” Olhou-a com intensidade, notando cada detalhe: os cabelos dourados sob o reflexo da luz, a delicadeza da pele, o modo como mordia o lábio quando se perdia em pensamentos. Fragilidade aparente, mas dentro dela havia uma chama que nem ele compreendia. O silêncio se estendeu até que Henrique não suportou mais. Sua voz rompeu o vento com suavidade, quase um sussurro, mas carregada de peso. — Elisa… como está se sentindo? Ela piscou, surpresa pela pergunta. — Eu? — murmurou, desviando os olhos para o horizonte. — Sim. — Ele diminuiu o passo, tentando alcançar seu olhar. — Não apenas teu corpo… teu espírito. Você foi ferida, quase levada. Não me sai da mente a imagem de você prestes a se tornar uma criatura das trevas. Há algo aí dentro que se quebrou? Elisa respirou fundo, como se buscasse coragem. Seu olhar se perdeu entre as colinas distantes. — Estou apenas… assustada, Henrique. — Sua voz saiu baixa, sincera. — Até ontem eu não sabia… não sabia que tinha dons, não sabia que existia algo maior esperando por mim. Tudo aconteceu tão rápido. Minha família se foi, minha vida virou **, e agora dizem que carrego em mim o destino de Thérion. Eu… eu tenho medo de me perder no caminho. Henrique parou por um instante, a dor dela ecoando em seu peito. Quis tomar-lhe a mão, mas hesitou, temendo quebrar algo ainda mais frágil dentro dela. Ainda assim, sua necessidade de protegê-la falou mais alto. — Não se perderá — disse com firmeza, aproximando-se. — Porque enquanto eu respirar, ainda que o fôlego em mim não seja de homem comum, caminharei ao teu lado. Eu existo para isso, Elisa. Não apenas para lutar contra seus inimigos, mas para te segurar quando duvidar de se mesma. Ela o encarou, os olhos marejados, a alma em conflito entre acreditar e temer. — Mas e se eu falhar? — sussurrou. Henrique deu um passo à frente, o sol banhando suas feições de um modo quase sagrado. Seus olhos, agora claros sob a claridade, brilhavam com intensidade. — Então falharemos juntos. — Sua voz era grave, carregada de emoção. — Pois não há destino algum que me afaste de você. Nem a noite, nem a luz, nem mesmo a maldição dentro de mim. O silêncio se fez entre eles, mas não era vazio: era o tipo de silêncio que carrega peso, calor, promessa. Elisa, sem pensar, deixou que sua mão buscasse a dele. O toque foi tímido, mas firme, e quando seus dedos se entrelaçaram, um arrepio percorreu ambos. Não havia beijo, nem declaração solene, apenas a simplicidade de duas almas que se encontravam em meio ao caos. Henrique a olhou, e pela primeira vez em séculos, sorriu ao sol. Elisa sorriu de volta, mesmo com lágrimas nos olhos. E seguiram adiante, lado a lado, rumo a Nhâr-Tess — não mais apenas como fugitivos, mas como algo maior: dois destinos entrelaçados, sustentados pela dor, pelo medo e por uma promessa silenciosa de não se deixarem cair.
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