"E quando a luz tocou o sangue da noite, nasceu aquilo que nem os deuses ousaram prever."
— Instruções do Pergaminho de Nhâr-Tess.
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Elisa e Henrique decidiram: partiriam ao anoitecer, em direção a Nhâr-Tess.
A cidade oculta entre cânions e névoas antigas guardava o que restava da sabedoria esquecida — e eles precisavam de respostas.
— Por quê? — questionou Constança, a voz firme, os olhos desconfiados. — O que vocês temem?
— A luz do sol. — respondeu Henrique com naturalidade, como se fosse óbvio.
Durante toda sua existência, o sol foi seu cárcere. A claridade da manhã significava silêncio, esconderijo, escuridão forçada. Era o preço da eternidade. E por mais que seus passos agora o levassem a um destino desconhecido, o instinto ainda o fazia temer a alvorada.
— Henrique — disse Constança, aproximando-se com cautela — isso nunca mais será um obstáculo para você.
Henrique franziu o cenho. O calor já subia pelas frestas da madeira do chalé; ele o sentia, como sempre sentira. Ardente. Ameaçador. Era o sinal para se recolher, como um animal amaldiçoado.
Constança nada disse. Apenas caminhou até a janela, segurou a tranca de ferro e a empurrou com força. A luz dourada da manhã invadiu o quarto como uma espada flamejante.
Henrique deu um passo instintivo para trás.
— Não! — exclamou, correndo em direção a Constança, certo de que ela enlouquecera. Mas foi então que a luz o tocou.
E nada aconteceu.
Henrique parou, surpreso. Seu coração — ou o que restava dele — acelerou. Sentiu o calor em sua pele... mas não havia dor. Nenhuma queimadura, nenhum fogo. Só luz.
Seu peito arfava. Seus olhos se arregalaram. Lentamente, como quem duvida da própria realidade, estendeu a mão em direção à luz que filtrava pelas tábuas. A claridade banhou seus dedos, seu braço. E ainda assim... nada.
— Isso... é impossível — sussurrou ele, atordoado.
Constança sorriu com ternura, como se observasse o nascimento de uma nova criatura.
— Você é um híbrido agora, Henrique. Híbridos não fogem da luz.
Henrique deu um passo à frente, deixando que o sol banhasse todo seu corpo. Fechou os olhos e sentiu. Era calor. Vida. Liberdade. Um presente que jamais imaginou receber.
E então, seus olhos encontraram os de Elisa. Ela o observava em silêncio, seus cabelos dourados pela luz da manhã. Seu sangue corria nele agora. O sangue que o libertara. A deusa que o havia tocado, curado, transformado.
— Eles vão querer saber como — disse ele, pensativo.
— Eles quem? — perguntou Elisa, preocupada.
— A Legião — respondeu Constança por ele.
Elisa franziu a testa.
— Quem são eles?
Constança se afastou da luz e começou a caminhar pelo aposento, como quem conta uma história proibida.
— No Dia da Queda, quando a escuridão se abateu sobre Thérion, as irmãs Ayanna e Ágata escolheram cinco guerreiros de seu povo. Eram homens leais, fortes, dignos do feitiço de criação. Seriam soldados imortais, protetores das bruxas. Mas, o Tenebroso...— ela abaixou a voz, com se temesse até mencionar seu nome — Ele corrompeu o ritual. Usou seu próprio sangue para envenenar os escolhidos. Assim nasceram os cinco primeiros vampiros. Os primordiais. Cada um fundou um clã. Cinco linhagens distintas, com valores diferentes, mas unidas por um só propósito sombrio: trazer o Tenebroso de volta à vida. Juntos, eles são A Legião.
Os olhos de Elisa se arregalaram.
— Eles vão querer o corpo de Henrique? — sussurrou, horrorizada.
— Sim — disse Constança, assentindo. — Só um corpo como o dele pode suportar a essência do caos. E você, Elisa... você é a chave. Seu sangue é terra viva. Magia ancestral pura. Vocês dois juntos são o que ele precisa para renascer.
Henrique se aproximou de Elisa e segurou sua mão com firmeza.
— Eu não vou permitir isso — disse com convicção. — Eu existo para proteger você. Não para ser usado.
— E você, Elisa — disse Constança — precisa aprender a controlar seu dom. Não basta apenas ter poder, é preciso saber usá-lo. E Henrique... você precisa descobrir quem é. Sua herança, sua origem. Em Nhâr-Tess, nas ruínas do Templo da Primeira Lua, você encontrará as respostas.
Constança caminhou até uma prateleira oculta atrás de um tapete de peles e retirou um grimório antigo, cobertos por musgo seco e poeira encantada.
— Usem isso se precisarem se defender. A guerra começou. Bruxas e vampiros virão atrás de vocês. Não confiem em ninguém. Não revelem o que são. Vocês são a última esperança de Thérion.
Ela entregou os grimórios às mãos de Elisa com solenidade. E por um momento, o mundo pareceu segurar o fôlego.
— Boa sorte. Que a antiga magia da Terra caminhe com vocês.