"O sangue carrega segredos mais antigos que a linguagem. E quando é misturado ao poder, nada permanece oculto."
– Fragmentos do Grimório Perdido de Celeste.
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O cheiro de cinzas ainda pairava no ar. O ** do vampiro caído recobria o chão como neve escura, e o silêncio que veio depois da batalha parecia gritar mais alto do que os instantes anteriores. Elisa tremia. O ombro latejava onde os dentes haviam rasgado a pele. A mordida ainda fumegava, e o sangue — agora ressecado — tingia sua pele com um vermelho escuro.
Henrique permanecia ajoelhado diante dela, respirando com dificuldade. Seus olhos, oscilavam entre o vermelho e um brilho dourado intenso. Havia um calor novo em seu corpo, uma energia que não conseguia compreender — o sangue de Elisa ainda pulsava em sua língua como um trovão adormecido.
— Henrique... — a voz trêmula de Elisa rompeu o silêncio — você está bem?
Ele ergueu o olhar para ela, sem saber o que responder. Sabia apenas de uma coisa: fizera a escolha certa. Diante do veneno que se espalhava pelo corpo de Elisa, teve duas opções. Poderia transformá-la, forçando-a a partilhar sua maldição. Ou poderia salvá-la, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.
Ele escolheu salvá-la.
Mas, para sua surpresa, ele não morreu. Porém, algo em seu corpo reagiu — não com rejeição, mas com... expansão.
— Me sinto... estranho — murmurou, a voz rouca como metal sendo forjado.
Constança se aproximou num sobressalto, os olhos arregalados, parecia ver algo invisível no ar.
— Não pode ser... — arfou. — É impossível!
Henrique se ergueu em um salto, ficando ao lado de Elisa como um escudo instintivo.
— O que foi? — sua voz saiu áspera. — Ela está em perigo?
— Não... — Constança balançou a cabeça devagar, quase em reverência. — Mas você está diferente. O sangue dela... despertou algo em você. Eu consigo ver. Eu consigo sentir.
Ela se aproximou de Henrique, cautelosa como quem encara uma lenda viva.
— Isso... isso só seria possível se... — parou, analisando-o — se você fosse um híbrido.
Silêncio.
Um silêncio denso e carregado como tempestade antes do raio.
Henrique piscou, confuso. Híbrido? Aquilo era um mito. Um conto sussurrado nas sombras do palácio, entre vampiros que temiam o impossível.
— Eu... não entendo — murmurou.
Constança fechou os olhos e inspirou profundamente.
— Você não é só um vampiro. Dentro de você vive algo mais. Algo antigo. Seu corpo não rejeitou o sangue dela... ele o absorveu. E não só sobreviveu — se transformou. Henrique... você é descendente dos lobos. E o sangue dela, misturado ao seu, despertou algo único. Um híbrido legítimo. É fantástico…- sussurrou entre espanto e reverência.
Os olhos de Henrique se arregalaram, mas antes que pudesse falar, Constança se virou para Elisa.
— E você... — disse com voz embargada. — o seu sangue... é um condutor do poder primordial. Quando misturado ao corpo certo, ele pode... abrir portais que jamais deveriam ser abertas.
Henrique segurou o braço de Elisa com mais força, instintivamente.
— O que está tentando dizer?
Constança hesitou, então deixou cair o véu da gentileza.
— Vocês dois são exatamente o que o Tenebroso esperava. Um corpo forte o suficiente para conter sua essência maligna. E uma alma poderosa, capaz de libertá-lo.
Henrique empalideceu sentindo um frio subir pelas costas. Aquele nome... O Tenebroso. Um espectro do passado, adormecido em mitos, que agora surgia como uma ameaça real.
— Os cinco... — murmurou Henrique. — é o que eles procuram esse tempo todo?
— Sim — confirmou Constança. — Eles tinham uma missão: encontrar um receptáculo digno, capaz de trazer o Tenebroso de volta a essa terra. Todos falharam. Mas agora, se descobrirem...
Henrique sentiu as palavras lhe esmagarem. Agora tudo fazia sentido. A dor, a fome, a luta constante contra o instinto. Tudo era herança de uma alma partida ao meio.
— Mas isso não é um destino selado — disse Constança, firme. — Porque ao mesmo tempo que vocês podem libertá-lo... são os únicos que podem impedi-lo.
Ela foi até uma velha prateleira, e de lá retirou dois grimórios cobertos por poeira e tempo. Entregou um a Elisa, outro a Henrique.
— Estudem. Aprendam. Recitem os feitiços de p******o se necessário. Henrique, há um templo antigo em Nhâr-Tess, escondido entre as montanhas. Lá você encontrará respostas sobre o que você é... e sobre como resistir ao que virá.
— E o que vem? — perguntou Elisa, com a voz fraca.
Constança a fitou com seriedade.
— Uma guerra. E nela, você será tanto escudo quanto espada. Seu poder pode destruir... ou salvar Thérion.