Sangue e Revelações

776 Words
"O sangue carrega segredos mais antigos que a linguagem. E quando é misturado ao poder, nada permanece oculto." – Fragmentos do Grimório Perdido de Celeste. ___ O cheiro de cinzas ainda pairava no ar. O ** do vampiro caído recobria o chão como neve escura, e o silêncio que veio depois da batalha parecia gritar mais alto do que os instantes anteriores. Elisa tremia. O ombro latejava onde os dentes haviam rasgado a pele. A mordida ainda fumegava, e o sangue — agora ressecado — tingia sua pele com um vermelho escuro. Henrique permanecia ajoelhado diante dela, respirando com dificuldade. Seus olhos, oscilavam entre o vermelho e um brilho dourado intenso. Havia um calor novo em seu corpo, uma energia que não conseguia compreender — o sangue de Elisa ainda pulsava em sua língua como um trovão adormecido. — Henrique... — a voz trêmula de Elisa rompeu o silêncio — você está bem? Ele ergueu o olhar para ela, sem saber o que responder. Sabia apenas de uma coisa: fizera a escolha certa. Diante do veneno que se espalhava pelo corpo de Elisa, teve duas opções. Poderia transformá-la, forçando-a a partilhar sua maldição. Ou poderia salvá-la, mesmo que isso lhe custasse a própria vida. Ele escolheu salvá-la. Mas, para sua surpresa, ele não morreu. Porém, algo em seu corpo reagiu — não com rejeição, mas com... expansão. — Me sinto... estranho — murmurou, a voz rouca como metal sendo forjado. Constança se aproximou num sobressalto, os olhos arregalados, parecia ver algo invisível no ar. — Não pode ser... — arfou. — É impossível! Henrique se ergueu em um salto, ficando ao lado de Elisa como um escudo instintivo. — O que foi? — sua voz saiu áspera. — Ela está em perigo? — Não... — Constança balançou a cabeça devagar, quase em reverência. — Mas você está diferente. O sangue dela... despertou algo em você. Eu consigo ver. Eu consigo sentir. Ela se aproximou de Henrique, cautelosa como quem encara uma lenda viva. — Isso... isso só seria possível se... — parou, analisando-o — se você fosse um híbrido. Silêncio. Um silêncio denso e carregado como tempestade antes do raio. Henrique piscou, confuso. Híbrido? Aquilo era um mito. Um conto sussurrado nas sombras do palácio, entre vampiros que temiam o impossível. — Eu... não entendo — murmurou. Constança fechou os olhos e inspirou profundamente. — Você não é só um vampiro. Dentro de você vive algo mais. Algo antigo. Seu corpo não rejeitou o sangue dela... ele o absorveu. E não só sobreviveu — se transformou. Henrique... você é descendente dos lobos. E o sangue dela, misturado ao seu, despertou algo único. Um híbrido legítimo. É fantástico…- sussurrou entre espanto e reverência. Os olhos de Henrique se arregalaram, mas antes que pudesse falar, Constança se virou para Elisa. — E você... — disse com voz embargada. — o seu sangue... é um condutor do poder primordial. Quando misturado ao corpo certo, ele pode... abrir portais que jamais deveriam ser abertas. Henrique segurou o braço de Elisa com mais força, instintivamente. — O que está tentando dizer? Constança hesitou, então deixou cair o véu da gentileza. — Vocês dois são exatamente o que o Tenebroso esperava. Um corpo forte o suficiente para conter sua essência maligna. E uma alma poderosa, capaz de libertá-lo. Henrique empalideceu sentindo um frio subir pelas costas. Aquele nome... O Tenebroso. Um espectro do passado, adormecido em mitos, que agora surgia como uma ameaça real. — Os cinco... — murmurou Henrique. — é o que eles procuram esse tempo todo? — Sim — confirmou Constança. — Eles tinham uma missão: encontrar um receptáculo digno, capaz de trazer o Tenebroso de volta a essa terra. Todos falharam. Mas agora, se descobrirem... Henrique sentiu as palavras lhe esmagarem. Agora tudo fazia sentido. A dor, a fome, a luta constante contra o instinto. Tudo era herança de uma alma partida ao meio. — Mas isso não é um destino selado — disse Constança, firme. — Porque ao mesmo tempo que vocês podem libertá-lo... são os únicos que podem impedi-lo. Ela foi até uma velha prateleira, e de lá retirou dois grimórios cobertos por poeira e tempo. Entregou um a Elisa, outro a Henrique. — Estudem. Aprendam. Recitem os feitiços de p******o se necessário. Henrique, há um templo antigo em Nhâr-Tess, escondido entre as montanhas. Lá você encontrará respostas sobre o que você é... e sobre como resistir ao que virá. — E o que vem? — perguntou Elisa, com a voz fraca. Constança a fitou com seriedade. — Uma guerra. E nela, você será tanto escudo quanto espada. Seu poder pode destruir... ou salvar Thérion.
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