A Voz do Outro Lado

1080 Words
"Os que escutam a noite são seduzidos por seus sussurros. Mas nem todo sussurro é convite — às vezes é um aviso." — Fragmento dos Pergaminhos da Terra Velada ⸻ Apesar da p******o da barreira mágica, os habitantes de Thérion cultivavam, desde tempos esquecidos, o costume de se recolher logo após o anoitecer. A escuridão era abominada não por superstição, mas por memória ancestral — gravada nas entranhas da vila como uma cicatriz herdada de gerações. Mesmo agora, tantos anos em paz, os moradores não ousavam desafiar esse costume. Elisa e sua família, como todos os demais, foram para seus quartos logo após a refeição. Mas Elisa não conseguia dormir. Algo fervilhava em seu peito — um calor estranho, quase incômodo, que se reacendia sempre que ela lembrava dos olhos cor de noz do forasteiro que encontrara além da barreira. Sabia que era errado. Não sabia quem ele era, nem por que estava ali. Pior: à noite. Do outro lado da barreira. Qualquer um em Thérion acharia aquilo uma sentença de morte. E, no entanto, algo nela clamava por vê-lo novamente. Henrique havia prometido lhe contar histórias. E Elisa amava histórias. Se não podia vivê-las — enclausurada sob os encantos de p******o dos pais —, ao menos podia ouvi-las e imaginar o mundo além das muralhas invisíveis da vila. Talvez não fosse tão perigoso. A barreira ainda estaria lá. Não precisava atravessá-la. Apenas ouvir... do lado seguro. Ela se levantou silenciosamente de sua cama, tomando cuidado para não acordar os irmãos, que dormiam no outro lado do quarto. Pegou o casaco no gancho atrás da porta, calçou os sapatos e, com o coração acelerado, saiu na ponta dos pés. Atravessou o corredor escuro e parou diante da porta principal. O velho trinco de madeira gemeu baixinho quando ela o empurrou. Lá fora, a noite era um manto espesso. Sombras se acumulavam nas esquinas da vila, e apenas algumas lamparinas tremeluziam nas casas vizinhas. Elisa hesitou. Por um instante, pensou em voltar. Mas já era tarde. O desejo era mais forte. Ela desceu os degraus da varanda e, olhando ao redor, furtou a pequena lamparina da entrada da senhora Briana. Prometeu devolvê-la ao retornar. Tomou o caminho da floresta. Cada estalo de galho soava como um aviso. A sensação de estar sendo observada a perseguia como um vulto. Mas ninguém em Thérion ousaria sair à noite. Disso, ela tinha certeza. Ao se aproximar do limite da barreira, onde o rio cruzava como uma serpente prateada, Elisa sentiu o ar mudar. Havia algo ali. Algo que não pertencia nem ao dia nem à noite. — Aí está você. A voz cortou o silêncio e a fez congelar. Ela se virou devagar. Henrique estava ali, à sombra de uma árvore seca. Usava um grande casaco escuro. Os cabelos penteados para trás deixavam à mostra o rosto anguloso e o queixo firme. A pele, tão pálida quanto a lua, parecia brilhar sob o véu da noite. Mas foram os olhos — aqueles olhos cor de noz — que a prenderam. Havia neles algo que ela não compreendia. — Pensei que não viria mais — disse ele com um sorriso sutil, a cabeça levemente inclinada. — Eu também. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Não vou lhe fazer m*l algum — disse Henrique, sentando-se sobre uma pedra à beira da barreira. — Por que não se senta? Ele apontou com o queixo para outra pedra, do lado de dentro. Elisa se aproximou, ajeitou o vestido e sentou-se. Sentia-se segura ali. Ainda do lado protegido. Ainda... em casa. Henrique a observava com atenção, como se pudesse vê-la por dentro. Elisa se sentia exposta, mas ao mesmo tempo... viva. — Você disse que me contaria histórias — murmurou. — E achei que isso a traria de volta. — E por que pensou isso? — Porque seus olhos não foram feitos para gaiolas. Provavelmente nunca saiu de Grassmoor... e tudo em você grita por liberdade. — Não quero sair — disse, firme. — Sei o que há lá fora. Os Filhos da Noite. As Sombras Antigas. As histórias são reais. — São. — Henrique sorriu com os lábios, não com os olhos. — Mas você está perdendo toda a beleza. — Já viu um deles? — ela perguntou. Henrique hesitou. — Um vampiro? — Sim. Ele respirou fundo. A verdade era perigosa. Se a Legião soubesse... Mas havia algo em Elisa que o fazia baixar a guarda. — Já encontrei alguns. — Como são? — São... o que restou de homens que perderam a alma. A luz do sol os destrói, por isso se escondem nas sombras. A pele é fria e pálida. Os olhos, vermelhos como sangue. E os dentes... são armas. Outros são como nós, esses preferem se alimenta de sangue animal. — E por que? — Porque ainda têm consciência. Alguns lutam contra o monstro que vivem neles. — Como sabe disso? Henrique demorou a responder. — Porque conheci um. Ela o olhou com surpresa. — Falou com um vampiro? E sobreviveu? — Ele me salvou. Eu estava sozinho na floresta, sem comida. Ele me deu abrigo. — Não sabia que isso era possível. — Grassmoor conta as histórias que protegem, não as que libertam. A maioria dos Filhos da Noite são predadores. Mas há exceções. Raras. Henrique falava como quem conhecia a dor. Seus olhos, por um instante, pareciam muito mais antigos do que seu rosto deixava transparecer. — Você não tem família? — perguntou ela, suavemente. — Já tive. Minha mãe foi morta. Assassinada. Elisa levou a mão ao peito, o coração apertado. — Sinto muito. — Eu também. Ficaram em silêncio por um momento. Algo os ligava — uma melodia invisível, uma conexão que desafiava lógica e tempo. — Eu preciso ir — disse ela, levantando-se. — Meus pais podem acordar. Henrique a observou, imóvel. — Voltará amanhã? Elisa hesitou. Sabia que era imprudente. Que um novo encontro poderia trazer consequências graves. Mas algo dentro dela queria voltar. Queria entender aquele mundo escondido, aquelas histórias que a barreira tentava calar. — Tentarei. — Até mais, doce Elisa. Ela se virou. — Até mais, misterioso Henrique. Pegou a lamparina e seguiu de volta à vila, o coração dividido entre medo e fascínio. Do outro lado da barreira, Henrique observou até que sua silhueta desaparecesse entre as árvores. Só então permitiu que seu sorriso sumisse, e os olhos revelassem, por um instante, sua verdadeira cor: um vermelho profundo.
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