Asas Feridas

1362 Words
"Aqueles nascidos sob a lua de sangue carregam em si tanto a esperança quanto a ruína. E quando a terra responde ao chamado do sangue, o mundo jamais será o mesmo." — Fragmento dos Cânticos de Thérion, Livro I ⸻ Enquanto corria de volta para casa, Elisa não conseguia tirar da mente os olhos de Henrique — tão diferentes, tão bonitos. Ela se sentia eufórica, nervosa e animada ao mesmo tempo. Nenhuma palavra parecia dar conta do que pulsava em seu peito. Nunca antes um garoto chamara sua atenção daquela forma. Mas Henrique não era um garoto qualquer. Ele era educado, falava como um homem de verdade. Seus olhos não a devoravam como os dos meninos bobos do vilarejo. Seu olhar era suave, não a fazia sentir-se um pedaço de carne, mas alguém a ser descoberto com calma. O sorriso dele permanecia preso em seus lábios, e um frio diferente na barriga lhe acendia uma esperança que ela não sabia nomear. Quando chegou ao vilarejo, Elisa desacelerou o passo. Sabia que seus pais já deviam ter percebido sua ausência, mas o instinto de sobrevivência a fez evitar a entrada principal. Entrou pelo celeiro, procurando tempo para recompor-se — as bochechas ainda queimavam, o sorriso ainda bobo. Mas, ao empurrar a porta de madeira empenada, seu coração quase saltou do peito. — Onde diabos você estava, menina?! — a voz de Melinda soou como um trovão abafado, suas mãos firmes agarrando o braço da filha. — Ma-mamãe, eu... — Elisa gaguejou, mas Melinda não estava pronta para escutar. — Você tem ideia do que me fez passar?! — sussurrou furiosa, sacudindo a filha com desespero contido. Elisa teve certeza de que seria esbofeteada, ainda que sua mãe jamais tivesse lhe batido antes. Mas ela também nunca havia quebrado o toque do recolher. De forma surpreendente, Melinda se conteve. Levou a mão ao colar no pescoço — uma pedra azul emoldurada por pequenas runas vermelhas em espiral, como um olho que tudo vê — e seus olhos buscaram algo na alma da filha. — Você atravessou a barreira? — a pergunta veio carregada, quase um gemido de pavor. — Não, mamãe. Eu não faria isso. — Elisa respondeu rápido, as palavras — em bora verdadeiras — eram dolorosas como se não fossem. — Tirou o colar? — Claro que não. Melinda a observava como quem tenta decifrar um presságio. Elisa não compreendia aquele medo desmedido. Estava bem, em casa, sem ferimentos. Mesmo se tivesse atravessado a barreira, já estava de volta. Nada havia a temer... ou ao menos era o que ela pensava. Mas Melinda sabia que não era só Elisa quem estaria em perigo se ela cruzasse a p******o ancestral. Seria todo o vilarejo. A magia das bruxas antigas não protegia apenas Elisa — ele selava todo o pequeno vilarejo Grassmoor do reino de Thérion contra os Filhos da Noite. Melinda sabia que aquele dia chegaria. O dia em que a verdade não poderia mais ser adiada, mas queria preservar a inocência da filha o quanto podia. — Minha filha, não pense que quero mantê-la presa aqui. Isso me fere... profundamente. Mas lá fora... é perigoso demais. Você não sabe como os Filhos da Noite são perversos. — Ela acariciou os cabelos ondulados e ruivos da filha com ternura. — Tudo que fazemos é por amor. Prometa-me, Elisa. Prometa que jamais cruzará a barreira. As palavras cravaram fundo no peito da menina. Ela sabia das intenções dos pais. E, ainda assim, a ideia de jamais conhecer o mundo do outro lado da barreira a sufocava. Como viveria sempre no ovo que era aquele vilarejo? Mas ver a angústia nos olhos da mãe a desarmava. Se m***r seus próprios sonhos significasse tranquilidade para os pais, então assim seria. — Tudo bem, mamãe... prometo. Nunca atravessarei a barreira. — disse Elisa, mas o fogo em seu coração era o mesmo que ardia na mãe. Uma desejava voar. A outra, proteger o ninho. Se Melinda soubesse do que se passava no coração da filha... ou de quem ela havia conhecido naquela noite... ⸻ Naquela tarde, enquanto as crianças brincavam ao som do vento, Elisa preparava o almoço. Melinda e Charles haviam partido cedo para os campos. A rotina no vilarejo era simples: trabalho, descanso, gratidão. Desde que a barreira fora erguida, poucos ousavam atravessar. Apenas os caçadores o faziam, e nunca ao cair da noite. A magia, outrora viva em cada canto de Thérion, tornara-se memória. Só um único feitiço ainda era usado: a poção de p******o — uma mistura ancestral de ervas que criava uma barreira invisível ao redor das casas. Era tudo o que restava da sabedoria mágica antes da Grande Queda. Na cozinha, Elisa fritava ovos e cortava pão de milho. Seus pensamentos vagavam até Henrique, tentando afastá-lo em vão. Em um descuido, a faca cortou seu dedo. Ela levou-o à boca, praguejando baixinho, mas um choro súbito do lado de fora a alarmou. Meredith. Elisa saiu correndo, atravessando a varanda em um salto. Encontrou os irmãos a poucos metros dali. Meredith estava de costas, cabeça baixa e mãos cobrindo o rosto. William segurava algo nas mãos. Elisa correu, o coração disparado — nada a assustava mais do que ver os irmãos em perigo. — O que houve? — perguntou ofegante. — Ele morreu! — chorou Meredith. — Não morreu, está só machucado — corrigiu William, mostrando o pequeno pássaro em suas mãos. Uma das asas sangrava. — Como isso aconteceu? Os irmãos se entreolharam, hesitantes. — Foi sem querer. Estávamos brincando com o estilingue, e... acertamos o passarinho. — William confessou, pesaroso. Elisa o encarou. Sabia que a culpa não era dele, mas sentiu orgulho. Ele havia assumido para proteger a irmã. O verdadeiro homem da casa. — Quem deu esse estilingue a vocês? — Pegamos emprestado do Henry, filho dos Brown. Por favor, Elisa, não conte aos pais... eles o machucam. — William implorou. Elisa suspirou. Seu irmão tinha um coração nobre. — Tudo bem. Mas prometam que vão devolver agora mesmo. E nunca mais brinquem com isso. Poderiam se ferir ou ferir outra criança. Os dois assentiram cabisbaixos. Elisa pegou o passarinho com todo o cuidado. Algo queimava dentro dela — uma dor estranha, como se sentisse o sofrimento do animal. Segurou-o entre as mãos, acariciou sua cabeça e o beijou. — Vai ficar tudo bem... eu prometo. Ela disse completamente sentida, ainda mais por se sentir responsável pelas travessura dos irmãos. Foi então que aconteceu. A ferida começou a se fechar. Lentamente. Milimetricamente. Elisa arregalou os olhos, o coração disparado. — Isso... isso não é possível... A cura era real. Como só uma filha da Terra poderia fazer. — Elisa, o que houve? — a voz de Melinda veio de longe, mas não conseguiu quebrar o encantamento. — O pássaro. Eles… está se curando sozinho. — disse maravilhada. Os pais aproximaram-se e, ao verem a cena, seus rostos se tornaram máscaras de espanto. Charles olhou ao redor, temendo testemunhas, e os conduziu rapidamente para o celeiro. — Venha. Agora. — disse, quase os arrastando. — Papai... não estou entendendo. Ele está curado! É um milagre! — exclamou Elisa, sem esconder a alegria. Melinda notou o sangue no dedo da filha. — Você se cortou? — Foi só um arranhão, mamãe. Nada demais. Charles tomou o pássaro nas mãos. Já completamente curado. Seus olhos encontraram os de Elisa, graves. — Escute bem, minha filha. Você não pode contar a ninguém o que aconteceu aqui. Elisa sentiu o peso daquelas palavras. Aquilo não fazia sentido. O mundo devia saber. As filhas da Terra estavam de volta! A barreira poderia cair! Os Filhos da Noite seriam vencidos! — Mas por quê? É algo bom! Isso significa esperança! Melinda pousou a mão no rosto da filha. — Nem todos verão dessa forma, meu amor. A magia... há muito tempo não circula entre nós. Muitos não compreendem. Outros... têm medo. Charles assentiu, sombrio. Havia coisas no mundo que dormiam, e que não deviam ser despertas. Elisa não entendia — mas confiava neles. — Tudo bem... será nosso segredo. Mesmo assim, algo nela havia despertado. Um poder adormecido. E Thérion... suspirava com o despertar.
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