Sob a Luz do Último Sol

1335 Words
"Onde o sangue verteu, a terra floresceu. Onde o silêncio se ergue, a magia sussurra." — Fragmento do Codex de Thérion ____ Anos depois... O sol se derramava como ouro líquido sobre os campos úmidos de Grassmoor, espalhando um brilho morno sobre as espigas de milho que dançavam ao vento. Depois de dias de tempestade, o céu enfim se abria, como se Thérion oferecesse um breve suspiro de paz àqueles que ainda viviam sob a p******o da antiga magia. Elisa corria entre os talos altos, seus cabelos ruivos voando atrás de si como chamas ao vento. Meredith, a irmã caçula, pulava de pedra em pedra, as botas escorregando no lodo deixado pelas chuvas. William, o irmão do meio, a observava com um misto de carinho e responsabilidade. — Meredith, cuidado! — alertou ele, franzindo a testa. — Vai acabar se machucando! — William, olha! Só com uma perna! — gritou a menina, equilibrando-se com orgulho infantil. — Menina levada... — Elisa murmurou, contendo o riso. — Mamãe vai brigar com você de novo. Elisa observava os dois com ternura, mas seu olhar sempre se perdia além dos limites da plantação, além das árvores, para onde a barreira cintilava — quase invisível à luz do dia, mas presente como um sussurro no ar. Grassmoor era seu lar, sua prisão dourada. Os moradores não atravessavam a barreira, não ousavam. E, embora Elisa amasse sua família, ela sentia que seu destino se estendia para além da segurança da vila. A colheita fora um sucesso, apesar das chuvas. Melinda e Charles, seus pais, cantavam ao voltarem com as bacias cheias. Elisa, no entanto, não conseguia se livrar daquela inquietação que crescia em seu peito. — Mamãe... posso ir até o rio? — sussurrou, hesitante. Melinda parou, e por um instante o sorriso sumiu de seus lábios. — Você sabe o quanto é perigoso se afastar, Elisa. O sol já começa a descer. — Não irei além da barreira, prometo. Só quero sentir a água... — murmurou, com os olhos suplicantes. Melinda hesitou. Havia muito tempo que não deixava a filha sair sozinha. Mas o coração materno sabia que, dia após dia, segurá-la se tornava mais difícil. — Volte antes do pôr do sol. Não vá além do limite da barreira. E não tire o colar por nada. — Prometo, mamãe. Voltarei antes da última luz. ⸻ A floresta respirava ao redor de Elisa enquanto ela corria, o vestido azul agitando-se contra suas pernas, os pés descalços tocando a terra como se a reconhecessem. Sentia-se viva ali, entre as árvores antigas. Quando o som do riacho chegou aos seus ouvidos, um sorriso escapou de seus lábios. Ela despiu-se até a roupa de baixo e entrou na água. O rio a acolheu como um velho amigo. O frescor da correnteza, o som do mundo natural — tudo isso parecia cantar para ela. Quando boiou, de olhos fechados, imaginou outros rios, outros céus, outras terras além de Thérion. Queria ser livre, como as antigas filhas da Terra — não uma prisioneira de muros invisíveis. Mas a paz se desfez de repente. Quando abriu os olhos, o céu já se tingia de cobre. O sol desaparecia atrás das árvores. — Não... — sussurrou, saindo da água às pressas, o coração em desespero. — Mamãe vai me matar... Vestia-se às pressas, ainda encharcada, puxando o vestido sobre o corpo molhado quando tropeçou numa pedra e caiu. Rolou até quase cair de novo no riacho... e foi então que a risada ecoou. Grossa. Humana. Irônica. Elisa congelou. — Quem está aí?! — gritou, em pânico. Do outro lado da barreira, entre as sombras, havia uma figura. Alta, masculina, corpulenta. Um homem. — O que foi? Está envergonhada? — zombou a voz, rindo de novo. Ela recuou, assustada, escondendo-se atrás de uma pedra. O pavor que sentia era real. Um filho da noite? Mas ele... falava. Os filhos da noite não falavam. Rugiam. Choravam. Gritavam. — Vá embora! — ela gritou. — Só se você sair daí primeiro — disse ele, divertido. Contra todo o instinto, a curiosidade venceu. Elisa saiu de trás da pedra, já completamente vestida. O homem sorriu ao vê-la. — Belo tombo, moça. Era jovem, bonito demais para ser real. Rosto alinhado, olhos cor de noz, cabelos escuros cortados com precisão. Não parecia em nada com os monstros das histórias. Não tinha garras, presas ou pele acinzentada. Elisa deu um passo para trás, ainda com os olhos fixos nele. O rio os separava, e ela podia sentir o campo mágico da barreira como uma leve pressão no ar, um zumbido suave em seus ouvidos. — Não queria assustar — disse ele, ainda sorrindo. — Foi só... engraçado. Você caiu feito um passarinho molhado. A luz fraca do entardecer iluminava parcialmente seu rosto, e havia algo de enigmático nele — algo que fez o coração de Elisa bater mais rápido, não de medo, mas de uma curiosidade inquieta. — Quem é você? — perguntou Elisa, tentando manter a voz firme. — Você... não é daqui. O garoto deu de ombros. — Isso depende do que você considera "daqui". — Você está além da barreira — murmurou. — Estou — confirmou ele. — E você está dentro. Curioso, não? Ela franziu o cenho. — Não deveria conseguir me ver. A barreira impede que qualquer um do lado de fora... — ... veja ou atravesse — completou ele. — É o que dizem, não é? — Como você conseguiu? — Eu não atravessei — respondeu o garoto. — Apenas... vi. Elisa sentiu a pele arrepiar. Não sabia se devia correr ou continuar ali. A lógica dizia que fugisse — mas algo dentro dela a mantinha parada. Um instinto, talvez. Ou algo mais profundo. — Qual é o seu nome? — ela arriscou. Ele hesitou por um instante, como se ponderasse se deveria contar. — Henrique — respondeu, por fim. — E o seu? — Elisa. Henrique sorriu mais amplamente, e por um breve momento, algo brilhou em seus olhos — algo antigo, poderoso e misterioso. — Elisa, poderia me ajudar a atravessar? — perguntou. Ela hesitou. Nenhum forasteiro poderia atravessar. Nenhum. A barreira impedia. Protegia. Era magia antiga. E ele sabia disso — tentava encontrar brechas onde não havia. — Ninguém pode atravessar. Só os que nasceram em Grassmoor. — respondeu com firmeza. — E você? — ele perguntou, com um sorriso. — Sempre morou aí? — Sempre. — E nunca quis sair? A pergunta perfurou algo dentro dela. Elisa desviou os olhos, apertando o colar no pescoço. — E esse colar... herança de família? — ele sondou. Ela não respondeu. Era sagrado. Um presente de sua mãe. Dizia protegê-la quando Melinda não pudesse. — Costuma andar sozinho à noite? — ela perguntou, tentando mudar de assunto. Henrique apenas riu. — Gosto de passeios noturnos. — E não tem medo... deles? — De quem? — perguntou Henrique, mesmo já sabendo do que estava se referindo. — Filhos da noite... — Eles que deviam ter medo de mim — disse, exibido. — Você é um caçador? — Pode-se dizer que sim. Os olhos de Elisa brilharam. — Você pode me contar como é? Henrique ergueu uma sobrancelha, divertido. — Não é coisa para menininhas. — Não sou uma menininha! — respondeu, irritada. Henrique viu nos olhos uma chama diferente. Ele queria desvendar os mistérios que protegiam aquela vila. — Amanhã, após o pôr do sol. Esteja aqui, e te conto o que quiser saber. — Mas... eu não posso sair. E você não pode entrar... Henrique sorriu com um mistério nos olhos. — Daremos um jeito. Apenas volte. ⸻ A noite já cobria a floresta quando Elisa se despediu. Seu coração estava em chamas — medo, excitação, dúvida e desejo dançavam dentro dela. Ela não sabia se Henrique era confiável. Não sabia o que ele era de fato. Mas sabia de uma coisa: Ele havia acendido algo dentro dela. E, como a última luz do sol morrendo além das árvores, aquilo não podia mais ser apagado.
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