Barreira de Thérion

1247 Words
"Não foi pedra, nem metal, nem mão de rei que ergueu seus muros. Foi o medo de um nome esquecido e o sangue de uma criança que ainda não sabia o que era." — Arquivos Selados da Primeira Sacerdotisa ⸻ Séculos Depois… A criança estava encaixada, pronta para nascer. Mas simplesmente... não vinha. Nem as tentativas das parteiras, nem o auxílio dos homens presentes ajudaram em nada. O vilarejo, exausto, testemunhava uma mulher lutando contra a morte — e vencendo, por ora. Os olhos aflitos de Charles cruzaram os de Alda, a curandeira da vila, guardiã de antigos segredos. Ela apenas baixou a cabeça em silêncio. A perda era inevitável. — Querido... — murmurou Melinda, com a voz quase sumida, frágil como um sussurro na noite. Imediatamente, Charles se lançou ao lado dela, apertando sua mão com desespero. — Estou aqui, meu amor. Não vou sair do seu lado, nem por um segundo. — Me... leve para o rio. O pedido, calmo e estranho, paralisou Charles. — Se a tirarmos daqui nesse estado, vocês não voltarão vivos — advertiu Joana, filha de Alda, com olhos temerosos. — Deixe que ele atenda ao último desejo da esposa — disse Alda com firmeza, um brilho incomum em seu olhar. Só Joana compreendeu. Alda sabia que o fim se aproximava, e queria conceder a eles seus últimos momentos juntos. — Há muito tempo não temos ataques por perto. Talvez a sorte esteja do nosso lado dessa vez. A água do rio de Thérion pode aliviar sua dor... ou guiá-la para o descanso final. Charles sentiu-se atravessado por uma lança invisível. Não entendia que pecado cometera para merecer aquela tragédia. Sua amada morria. O filho que sonharam talvez jamais respirasse. A raiva o consumia — contra os deuses, as curandeiras, as bruxas que deveriam protegê-los. Mas antes da fúria, veio a promessa silenciosa: atenderia ao último pedido da esposa. Pegou-a nos braços. O vestido, encharcado de sangue, grudava ao corpo frágil. O vento da floresta sussurrava forte sob a lua de sangue — um presságio ancestral, temido pelos poucos que ainda entendiam seu significado. Chegaram ao rio sagrado. Charles deitou Melinda junto à margem. A água, iluminada por um tom carmesim, parecia pulsar com energia própria, lavando seu corpo exausto. — Agora está melhor... — murmurou Melinda, um sorriso tênue nos lábios. — Agora está perfeito... Charles, ao olhar o rosto lindo e cansado de sua amada caiu em prantos. Memórias invadiram sua mente: promessas trocadas sob o antigo carvalho do vilarejo, planos para um futuro que nunca existiria, o som do riso dela. Era insuportável. A impotência dilacerava seu coração. Mesmo à beira da morte, Melinda tentou confortá-lo. Ergueu a mão com esforço e enxugou uma de suas lágrimas. — Não fique triste, meu amor... eu vou em paz... — Não diga isso. Vamos conseguir. Eu, você... e nosso bebê. Ela quis acreditar. E então, sentiu. Uma mudança interior, uma força inesperada. Como se a própria criança, após dias de recusa, agora lutasse para nascer. — Oh, pelos deuses. — Melinda disse surpresa — Venha, meu filho... por favor, venha... — gritou com as últimas forças. A dor foi lancinante, mas a esperança era maior. O parto aconteceu ali, entre as águas do rio sagrado e os olhos desesperados de um homem em pedaços. E então veio o grito — não da mãe, mas da criança. Um som agudo, poderoso, que fez o rio estremecer. O vento rodopiou, as folhas dançaram frenéticas. Charles arregalou os olhos ao ver uma pequena criatura flutuar entre as águas, envolta em uma aura mística de luz vermelha, azul e roxa. Melinda, com ajuda do marido, puxou a bebê para os braços. — Você não está sozinha, minha pequenina — sussurrou. — Não precisa mais chorar. Nós vamos protegê-la. O choro cessou. E com ele, o vento e as luzes mágicas. A tempestade de poder se calou, obedecendo à vontade da recém-nascida. Naquela manhã, quando o sol finalmente venceu a noite sangrenta, o vilarejo celebrou em silêncio. Melinda chorou ao colocar sua filha no berço esculpido em carvalho por Charles. Mas a alegria logo deu lugar à inquietação ao notar os olhos da menina: um brilho roxo-avermelhado começava a tomar o verde natural. — Alda... traga Alda — pediu aflita. A curandeira examinou a bebê com atenção, a expressão preocupada. — Estranho... nunca vi olhos assim antes. — Ela vai enxergar? — perguntou Melinda, com o medo tomando seu tom de voz. — Por enquanto, sim. Se continuará vendo... não posso garantir. O desespero voltou a assolar os pais. Após tanto sofrimento, sua filha jamais veria a beleza do mundo? Charles então, ao temer mais uma vez com a saúde de sua pequena filha, se lembrou da uma mulher que vivia além da floresta, com saberes proibidos. — Etina. Todos o olharam como se tivesse pronunciado um nome amaldiçoado. — Não podemos confiar nela! — exclamou Melinda. — Aquela mulher é louca! — Não temos escolha — respondeu Charles com determinação. — Não posso perder nossa filha. Contra a vontade da esposa, ele partiu naquela mesma noite, envolveu a filha em uma cesta de palha e seguiu pela mata até a cabana isolada de Etina. A escuridão era densa, e os perigos numerosos, mas ele não hesitou. Antes que batesse na porta, Etina já o esperava. — Trouxe minha filha — ele disse, com um sorriso enigmático. — Aquela que chamaste de amaldiçoada. — E mesmo assim, veio a mim — respondeu Etina, com olhos que pareciam enxergar além da realidade. Espelhando o sorriso de Charles. — Os olhos dela... estão mudando. Preciso de respostas. A anciã aproximou-se e colocou a mão sobre a criança. Os olhos da bebê se abriram — e a tempestade começou. Luzes roxas, vermelhas, azuis. Um choro ensurdecedor. A cabana tremeu. O mundo pareceu se partir. A mulher se espantou. Mesmo sentindo o dom da menina desde a fecundação, quando tentou alertar sobre o bebê aos pais. Ela não fazia ideia da dimensão daquele poder, e temeu que outros pudessem senti-lo também. — Silentium! — bradou Etina. O caos cessou. Por hora. Charles, em choque, m*l conseguia falar. — O que é isso? — Como eu disse... ela carrega o poder de mil filhas da Terra. As guardiãs antigas, as protetoras do equilíbrio. Isso é muito mais do que qualquer uma de nós poderia suportar. Ela será consumida por essa força. — Então salve-a! Etina olhou para a menina em silêncio. Ela sabia que algo assim não poderia ser tirado. Muito menos escondido tão facilmente. Mas precisava tentar. Talvez a menina fosse respostas para muitas rezas feitas nos últimos tempos. Ela então, puxou do assoalho um amuleto antigo, cravejado por uma pedra esquecida. Recitou um encantamento antigo, envolvendo a criança com o colar, e a devolveu a Charles. — Ela jamais poderá tirá-lo. Se o fizer... todos saberão. Eles sentirão o poder. E ele também. — Quem é "ele"? — Aquele que observa nas sombras, esperando o momento de agir. Leve-a para dentro da barreira. Lá, ninguém a alcançará. — Que barreira? — Surge potentia, surge et amuletum tuum protege... — murmurou Etina, tocando a criança. — Ela não pode atravessar. Jamais! Charles correu de volta para o vilarejo. Quando atravessou a floresta, sentiu uma força o repelir. Ao olhar para trás, viu uma muralha invisível reluzindo entre as árvores — a barreira protetora de Thérion havia nascido. E ele sabia, no fundo do coração, que nada jamais seria igual.
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