"Não foi pedra, nem metal,
nem mão de rei que ergueu seus muros.
Foi o medo de um nome esquecido
e o sangue de uma criança que ainda não sabia o que era."
— Arquivos Selados da Primeira Sacerdotisa
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Séculos Depois…
A criança estava encaixada, pronta para nascer. Mas simplesmente... não vinha. Nem as tentativas das parteiras, nem o auxílio dos homens presentes ajudaram em nada. O vilarejo, exausto, testemunhava uma mulher lutando contra a morte — e vencendo, por ora.
Os olhos aflitos de Charles cruzaram os de Alda, a curandeira da vila, guardiã de antigos segredos. Ela apenas baixou a cabeça em silêncio. A perda era inevitável.
— Querido... — murmurou Melinda, com a voz quase sumida, frágil como um sussurro na noite.
Imediatamente, Charles se lançou ao lado dela, apertando sua mão com desespero.
— Estou aqui, meu amor. Não vou sair do seu lado, nem por um segundo.
— Me... leve para o rio.
O pedido, calmo e estranho, paralisou Charles.
— Se a tirarmos daqui nesse estado, vocês não voltarão vivos — advertiu Joana, filha de Alda, com olhos temerosos.
— Deixe que ele atenda ao último desejo da esposa — disse Alda com firmeza, um brilho incomum em seu olhar. Só Joana compreendeu. Alda sabia que o fim se aproximava, e queria conceder a eles seus últimos momentos juntos. — Há muito tempo não temos ataques por perto. Talvez a sorte esteja do nosso lado dessa vez. A água do rio de Thérion pode aliviar sua dor... ou guiá-la para o descanso final.
Charles sentiu-se atravessado por uma lança invisível. Não entendia que pecado cometera para merecer aquela tragédia. Sua amada morria. O filho que sonharam talvez jamais respirasse. A raiva o consumia — contra os deuses, as curandeiras, as bruxas que deveriam protegê-los. Mas antes da fúria, veio a promessa silenciosa: atenderia ao último pedido da esposa.
Pegou-a nos braços. O vestido, encharcado de sangue, grudava ao corpo frágil. O vento da floresta sussurrava forte sob a lua de sangue — um presságio ancestral, temido pelos poucos que ainda entendiam seu significado.
Chegaram ao rio sagrado. Charles deitou Melinda junto à margem. A água, iluminada por um tom carmesim, parecia pulsar com energia própria, lavando seu corpo exausto.
— Agora está melhor... — murmurou Melinda, um sorriso tênue nos lábios. — Agora está perfeito...
Charles, ao olhar o rosto lindo e cansado de sua amada caiu em prantos. Memórias invadiram sua mente: promessas trocadas sob o antigo carvalho do vilarejo, planos para um futuro que nunca existiria, o som do riso dela. Era insuportável. A impotência dilacerava seu coração.
Mesmo à beira da morte, Melinda tentou confortá-lo. Ergueu a mão com esforço e enxugou uma de suas lágrimas.
— Não fique triste, meu amor... eu vou em paz...
— Não diga isso. Vamos conseguir. Eu, você... e nosso bebê.
Ela quis acreditar. E então, sentiu. Uma mudança interior, uma força inesperada. Como se a própria criança, após dias de recusa, agora lutasse para nascer.
— Oh, pelos deuses. — Melinda disse surpresa — Venha, meu filho... por favor, venha... — gritou com as últimas forças.
A dor foi lancinante, mas a esperança era maior. O parto aconteceu ali, entre as águas do rio sagrado e os olhos desesperados de um homem em pedaços. E então veio o grito — não da mãe, mas da criança.
Um som agudo, poderoso, que fez o rio estremecer. O vento rodopiou, as folhas dançaram frenéticas. Charles arregalou os olhos ao ver uma pequena criatura flutuar entre as águas, envolta em uma aura mística de luz vermelha, azul e roxa.
Melinda, com ajuda do marido, puxou a bebê para os braços.
— Você não está sozinha, minha pequenina — sussurrou. — Não precisa mais chorar. Nós vamos protegê-la.
O choro cessou. E com ele, o vento e as luzes mágicas. A tempestade de poder se calou, obedecendo à vontade da recém-nascida.
Naquela manhã, quando o sol finalmente venceu a noite sangrenta, o vilarejo celebrou em silêncio. Melinda chorou ao colocar sua filha no berço esculpido em carvalho por Charles. Mas a alegria logo deu lugar à inquietação ao notar os olhos da menina: um brilho roxo-avermelhado começava a tomar o verde natural.
— Alda... traga Alda — pediu aflita.
A curandeira examinou a bebê com atenção, a expressão preocupada.
— Estranho... nunca vi olhos assim antes.
— Ela vai enxergar? — perguntou Melinda, com o medo tomando seu tom de voz.
— Por enquanto, sim. Se continuará vendo... não posso garantir.
O desespero voltou a assolar os pais. Após tanto sofrimento, sua filha jamais veria a beleza do mundo?
Charles então, ao temer mais uma vez com a saúde de sua pequena filha, se lembrou da uma mulher que vivia além da floresta, com saberes proibidos.
— Etina.
Todos o olharam como se tivesse pronunciado um nome amaldiçoado.
— Não podemos confiar nela! — exclamou Melinda. — Aquela mulher é louca!
— Não temos escolha — respondeu Charles com determinação. — Não posso perder nossa filha.
Contra a vontade da esposa, ele partiu naquela mesma noite, envolveu a filha em uma cesta de palha e seguiu pela mata até a cabana isolada de Etina. A escuridão era densa, e os perigos numerosos, mas ele não hesitou.
Antes que batesse na porta, Etina já o esperava.
— Trouxe minha filha — ele disse, com um sorriso enigmático. — Aquela que chamaste de amaldiçoada.
— E mesmo assim, veio a mim — respondeu Etina, com olhos que pareciam enxergar além da realidade. Espelhando o sorriso de Charles.
— Os olhos dela... estão mudando. Preciso de respostas.
A anciã aproximou-se e colocou a mão sobre a criança. Os olhos da bebê se abriram — e a tempestade começou. Luzes roxas, vermelhas, azuis. Um choro ensurdecedor. A cabana tremeu. O mundo pareceu se partir.
A mulher se espantou. Mesmo sentindo o dom da menina desde a fecundação, quando tentou alertar sobre o bebê aos pais. Ela não fazia ideia da dimensão daquele poder, e temeu que outros pudessem senti-lo também.
— Silentium! — bradou Etina. O caos cessou. Por hora.
Charles, em choque, m*l conseguia falar.
— O que é isso?
— Como eu disse... ela carrega o poder de mil filhas da Terra. As guardiãs antigas, as protetoras do equilíbrio. Isso é muito mais do que qualquer uma de nós poderia suportar. Ela será consumida por essa força.
— Então salve-a!
Etina olhou para a menina em silêncio. Ela sabia que algo assim não poderia ser tirado. Muito menos escondido tão facilmente. Mas precisava tentar. Talvez a menina fosse respostas para muitas rezas feitas nos últimos tempos.
Ela então, puxou do assoalho um amuleto antigo, cravejado por uma pedra esquecida. Recitou um encantamento antigo, envolvendo a criança com o colar, e a devolveu a Charles.
— Ela jamais poderá tirá-lo. Se o fizer... todos saberão. Eles sentirão o poder. E ele também.
— Quem é "ele"?
— Aquele que observa nas sombras, esperando o momento de agir. Leve-a para dentro da barreira. Lá, ninguém a alcançará.
— Que barreira?
— Surge potentia, surge et amuletum tuum protege... — murmurou Etina, tocando a criança. — Ela não pode atravessar. Jamais!
Charles correu de volta para o vilarejo. Quando atravessou a floresta, sentiu uma força o repelir. Ao olhar para trás, viu uma muralha invisível reluzindo entre as árvores — a barreira protetora de Thérion havia nascido.
E ele sabia, no fundo do coração, que nada jamais seria igual.