Capítulo 3

1820 Words
Capítulo 3 COIOTE NARRANDO “Porque eu não vou embora.” Essa frase fica ecoando na minha cabeça. Dou uma risada curta, sem humor. — Tu acha que isso aqui é escolha? — pergunto, seco. — Aqui ninguém fica porque quer. Tá de sacanägem, não tá não filha da putä? Ela não responde. Só respira fundo. E eu odeio perceber isso: ela tá tremendo, mas não recua. Meu olhar desce sem pedir licença. Analisando novamente. Que porrä tá acontecendo comigo? Eu não sou assim, já era pra eu ter virado as costas e ido embora. Que caralhö mermão. Os lábios rachados, um corte pequeno ainda avermelhado. O roxo no braço, mäl escondido. A pele marcada demais pra quem diz que só quer um lugar pra morar. O que se instalou em mim, ao olhar novamente para ela, não é curiosidade. É controle, e dominação sob esse problema. — Quem fez isso? — escapa antes que eu consiga segurar. Ela aperta a alça da mochila. — Não importa. Importa sim. Eu só não digo. Passo a mão no rosto, impaciente. A regra é clara. Sempre foi. Ninguém novo entra sem passar pelo filtro certo. E eu sou o filtro. — Tu tá me fazendo perder tempo — digo, duro. — E tempo aqui custa caro. Tá ligada não? — Cinco minutos — ela insiste. — Só me escute. Observo de novo. O jeito como ela mantém a coluna ereta mesmo cansada. Como segura a mala como se fosse a última coisa que tem no mundo. Não é teatro. Teatro não tem dor nos olhos, como os dela tem. Respiro fundo. Impaciente comigo mermo. — Tu não vai gostar do lugar pra onde eu vou te levar — aviso. — Eu aguento. Pode acreditar. Outro erro. Ela não devia ter dito isso. Dou um passo atrás, viro o corpo e aponto com a cabeça pra moto. — Sobe. Ela pisca, confusa. — O quê? — Sobe logo antes que eu mude de ideia. Ela não sorri. Não comemora. Só obedece. Isso diz mais do que qualquer palavra. Pelo menos pra mim. Ela sobe na garupa com cuidado, mala presa entre as pernas, mochila pesada puxando o corpo pra trás. Sinto quando ela se segura em mim. Leve. Hesitante. Quente pra um c*****o. Ligo a moto. — Não encosta muito — aviso, ríspido. — Tá. — ela respondeu meio sem jeito. Subo o morro rápido. O vento corta. A noite fecha. O Vidigal se abre pra mim como sempre fez. Paro na boca. Aqui é o coração do morro. Desço primeiro. Ela vem logo atrás. Olhares curiosos surgem, mas ninguém fala nada. Não comigo aqui, ninguém tá nem maluco. — Aqui — digo rude. — Tu vai falar comigo aqui dentro. Ela olha em volta, tensa. — Aqui? — Aqui ninguém mente. — Viro pra ela. — E se mentir, eu descubro. E não dá coisa boa. Ela respira fundo, segura a mala com mais força. — Eu só preciso que você me escute. — ela insiste, me olhando. Cruzo os braços, frio de novo. Ou tentando ser. — Então entra comigo lá dentro, e fala, Luna. Cinco minutos. — Pauso confuso por ter dito o nome dela. Como caralhos eu lembro o nome dela? Ela me acompanha, e fica parada na minha frente, segurando a mala como se fosse escudo. A boca tá em silêncio agora. Aqui ninguém se mete quando eu tô conversando. Aqui é meu território e eles sabem. — Fala logo — digo, seco. — Não tenho a noite toda. Ela engole seco. — Eu não vim pra dar problema. Solto uma risada curta. — Todo mundo que dá problema começa assim. Irônico, não é? Ela respira fundo, visivelmente cansada, mas não abaixa a cabeça. Isso me incomoda. — Eu preciso ficar aqui. — A voz dela sai firme, mesmo trêmula. — Só por um tempo. — Precisa por quê? — corto. — Fugindo de quem? Ela hesita. — Não posso voltar pra onde eu tava. — Isso não é resposta — rosno. Ela aperta os dedos na alça da mochila. — Se eu voltar, eu morro. As palavras dela quase não saem, de tão baixinho que ela sussurrou. Meu maxilar trava. — Drama não funciona comigo — digo, ríspido. — Aqui não é abrigo de coitada. Ela levanta o olhar, ofendida. — Eu não tô pedindo tua pena. — Tá pedindo o quê, então? — Dou um passo à frente. — Porque entrar aqui significa obedecer. Significa silêncio. Significa regra. Minhas regras. Tu aguenta isso? — Aguento — ela responde sem pensar. — Aguenta apanhar, né? — disparo, c***l de propósito. — Porque pelo jeito tu já tá acostumada. Mas a obedecer eu duvido. Eu que controlo tudo aqui, mina. Vejo o impacto. Vejo a dor atravessar o rosto dela. E ainda assim… ela não chora. — Eu não apanhei porque quis — ela diz, baixo. — E não foi a primeira vez. Por isso eu não posso mais voltar. Por um segundo, só um, minha cabeça falha. Olho de novo pros machucados. O roxo. O corte. O jeito como ela se fecha quando eu chego perto demais. Isso realmente não me parece cena. — Quem fez isso? — pergunto, sem conseguir segurar. — Já disse que não importa. — Importa pra mim — rebato, mais rude do que pretendia. Ela me encara, surpresa. O silêncio domina tudo. — Eu não vou trazer problema pro seu morro — ela diz. — Só quero um lugar pra respirar. Respiro fundo. Tento voltar a ser quem eu sou. Frio. Objetivo. c***l se precisar. E controlador. — Aqui não tem respirar — falo. — Aqui é segurar o fôlego e olha lá. Ela dá um meio sorriso triste. — Eu já faço isso faz tempo. Essa frase me atinge onde não devia. Que p***a! Passo a mão pelo rosto, impaciente comigo mesmo. Não era pra isso estar acontecendo. Não era pra eu estar ouvindo. Muito menos sentindo. — Tu sabe onde tá se metendo? — pergunto, ignorante de novo. — Sabe quem eu sou? — Sei. — Ela assente. — E mesmo assim tô aqui. Eu preciso de um lugar. — Isso é burrice — cuspo. — Ou desespero e única saída. Outra facada. Aperto os punhos. O limite moral começa a ranger. Mandar ela embora agora seria mais fácil. Mais coerente perto do que eu tô sentindo. Mais fiel às minhas regras. Mas também seria covardia. — Uma única chance — aviso. — Tu mente, tu sai. Tu esconde, tu sai. Tu me fode, tu some do mapa. Pegou a visão? Ela não pisca. — Eu só preciso de um teto. Trabalho eu arrumo. Silêncio eu sei fazer desde que me conheço por gente. Olho pra ela por mais alguns segundos. Longos demais. — Tu entra — digo, por fim. — Mas não por confiança. Ou lealdade. Ela prende a respiração. — Então por quê? Chego perto o suficiente pra ela ficar desconfortável. — Porque eu não deixo mulher machucada dormir na rua. — Pauso. — E isso não me faz bonzinho. Me faz humano. Só não confunde as coisas. Ela assente, aliviada e tensa ao mesmo tempo. E eu sei. Acabei de cruzar uma linha que eu mesmo desenhei. E homens como eu pagam caro por isso. Puxo o celular do bolso ainda com o gosto amargo da decisão na boca. Não era pra isso ter acontecido. Nada disso. Disco o número do Bolador enquanto observo ela parada à minha frente, tentando parecer segura de si quando claramente não tá. — Arruma um barraco — digo assim que ele atende. — Qualquer um. Pra hoje. — Agora não dá — ele responde rápido demais. — Tô com a Melissa. Fecho os olhos por um segundo. — O que foi agora? — Bebeu escondido. — Ele suspira. — Quer sair. Tá alterada. Não tem como deixar ela sozinha. Passo a mão pelo rosto, sentindo a pressão subir. — c*****o… Olho pra Luna. Ela me observa em silêncio, como se soubesse que tá atrapalhando alguma coisa, mesmo sem saber o quê. — Segura ela aí — falo pro Bolador. — Não deixa sair. — Tô tentando. Mas tu sabe como ela é. Sei. E é justamente por isso que não confio em ninguém cuidando do que é meu. — Fica com ela — decido. — Eu resolvo aqui. Desligo sem esperar resposta. Guardo o celular e encaro a menina de novo. — Mudança de plano — aviso, seco. — Eu mesmo vou te levar. — Pra onde? — ela pergunta, confusa. — Pra um lugar onde tu vai dormir hoje. Amanhã a gente resolve um canto pra tu. Ela assente, mas vejo o cansaço e tristeza no olhar dele. Ela fecha os olhos, e apoia na parede. Me parece meio atordoada. — Consegue andar? — pergunto, impaciente. — Consigo. Mente m*l. m*l pra c*****o. A mina tá aguentando nem com ela. Dou dois passos na direção da porta da boca. Ela vem atrás, arrastando a mala. O movimento ao redor continua, mas os olhos seguem a gente. Sempre seguem. Antes de sair, sinto. O corpo dela desacelera. O passo falha. — Ei — digo, virando rápido demais. Ela tenta falar alguma coisa, mas não dá tempo. O corpo dela cede. E eu seguro no reflexo. O peso cai contra mim de uma vez. Leve demais. Frágil demais. — p***a… — rosno, segurando ela com firmeza. O rosto dela encosta no meu peito. Quente. A respiração irregular. Os machucados mais próximos agora. Mais reais. — Luna — chamo. — Ei. Olha pra mim. Nada. Apóio melhor o corpo dela nos meus braços. O coração bate forte demais pra ser só susto . — Merdä … Olho em volta. Alguns caras se aproximam, curiosos demais . — Circulando — aviso, firme. — Isso aqui não é espetáculo . Eles obedecem . Seguro ela com mais cuidado do que gostaria. Ajusto a mochila que quase cai do ombro dela. A mala fica pra trás. Depois alguém pega . Ela desmaiou. E desmaiou no meu colo . E isso quebra uma coisa que eu não deixava quebrar há anos . Não ter pena de mulher nenhuma. Não ajudar mulher nenhuma. Não cuidar de mulher nenhuma. Não dar moral a mulher nenhuma. Essa garota me fez quebrar quase todas as minhas regras em menos de uma hora! — Aguenta, garota — murmuro, sem saber se ela ou eu preciso ouvir isso . Saio da boca com ela nos braços, sentindo o peso da responsabilidade escorrer pela minha veia . Eu mandei ela entrar . Agora o problema é meu . Pra onde eu levo ela? Porrä, minha casa não... Lá não é uma opção . — Mas que caralhö garota! — murmuro olhando para ela . . . . . 📍 Meus amores não deixem de comentar! Adicionem na biblioteca o livro também grátis DOCE VENENO.
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