Capítulo 4
LUNA NARRANDO
Abri os olhos e o carro para devagar demais.
Será que eu desmaiei?
O silêncio pesa quando o motor morre. Não tem música. Não tem conversa. Só o barulho da minha respiração curta, nervosa, e o som distante de uma televisão ligada em alguma casa.
Levanto a cabeça devagar.
Meu estômago despenca antes mesmo de eu ter certeza.
Eu conheço essa rua.
O poste quebrado.
A calçada irregular.
A sombra da árvore torta projetada no muro.
Minha casa. Olho para o Coiote assustada.
— Não… — sussurro, sentindo o corpo inteiro gelar. — Aqui não.
Ele não responde.
A porta do carro abre com um clique seco. O ar da rua entra pesado, quente, trazendo junto um cheiro que eu reconheceria em qualquer lugar.
Álcool.
— Desce — a voz dele sai fria. Sem raiva. Sem pressa. Sem emoção.
Meu corpo não obedece. As pernas parecem presas ao banco. As mãos suam. O coração bate tão forte que dói.
— Por favor… — tento, a voz falhando. — Você disse que ia me escutar.
— Eu disse pra descer caralhö! Tomar no cü porrä!
Ele segura meu braço e me puxa pra fora. Não machuca. Não precisa. A força tá na decisão. No fato de que ele já escolheu.
Meus pés tocam o chão.
A porta do carro fecha.
E a porta da casa abre.
Meu pai aparece no mesmo segundo, como se estivesse esperando. Camisa aberta, barriga à mostra, olhos vermelhos, sorriso torto. A garrafa na mão.
— Eu te disse que você não ia longe se tentasse — ele ri, satisfeito. — Sempre vou te achar.
Olho pro Coiote. Desespero puro. Meu peito aperta tanto que parece que vai rasgar.
— Não faz isso comigo — imploro. — Eu te contei tudo.
Ele não me olha.
Meu pai se aproxima, passa o braço pesado pelos meus ombros, apertando forte demais pra ser carinho.
— Tá vendo? — ele fala no meu ouvido. — Ninguém quer você do lado vadiä, só eu te aguento. E tu ainda é ingrata!
— Para… — tento me soltar. — Me solta.
— Cala a boca — ele rosna. — Eu tô falando.
Meu pai estende a mão pro Coiote, rindo como se fossem velhos conhecidos.
— Trouxe ela de volta — o Coiote diz, frio. — Do jeito que você pediu.
— Valeu, irmão. Homem de palavra é outra coisa. Valeu por trazer essa putä. Sabia que podia confiar.
Coiote aperta a mão dele.
Sem hesitar.
Sem olhar pra mim.
— Cuida do que é teu, não tenho tempo pra isso.
Meu mundo desaba.
— NÃO! — grito. — Eu fugi dele! Eu fugi pra não morrer!
Meu pai me puxa pelos cabelos, a dor explode no couro cabeludo, e enquanto ele me arrasta, eu vejo Coiote virar de costas. Indo embora. Como se eu nunca tivesse existido.
— NÃO ME DEIXA! NÃO FAZ ISSO COMIGO!
Ele não olha pra trás.
Meu pai aperta meu braço com uma força absurda. A dor explode. A mão dele sobe, marcando, invadindo.
— Achou que ia se esconder? — ele ri. — Achou que algum homem ia te salvar? Ingênua!
— Agora vou te ensinar que não se deve desobedecer o papai aqui.
— Não… — tento me soltar, mas o corpo não responde. — Não, por favor...
Sou arrastada pra dentro.
A porta bate atrás de mim.
O som ecoa alto demais. O ar some. A luz apaga.
O mundo escurece.
— NÃO! — grito com tudo que ainda tenho.
E a última coisa que eu sinto é a mão do meu pai subindo pelo meu braço, possessiva, nojenta.
( ... )
Acordo sentando num pulo, o grito preso na garganta, o peito queimando, o corpo inteiro tremendo como se ainda estivesse sendo segurada.
Demora alguns segundos pra eu entender.
Não tem cheiro de álcool.
Não tem a voz dele.
Não tem aquela casa.
O teto é outro.
As paredes são outras.
Foi um pesadelo.
Só um pesadelo.
Ou pelo menos é isso que eu tento convencer meu corpo a acreditar.
Meu corpo inteiro dói. Como se eu tivesse apanhado de novo.
Tento me levantar rápido demais e uma tontura me atinge em cheio. A cabeça gira, o estômago revira. Solto um gemido baixo e me apoio no colchão.
É quando eu vejo.
Ele tá aqui.
Sentado numa poltrona, de frente pra cama.
Coiote.
A luz fraca do cômodo desenha o rosto dele em sombras duras. Ele tá com o corpo jogado pra trás, uma perna apoiada no chão, a outra relaxada, o cotovelo no braço da poltrona. Um baseadö aceso entre os dedos, a fumaça subindo lenta. O celular na outra mão.
A expressão… meu Deus.
Cara fechada. Maxilar travado. Olhar pesado. Daqueles que dão medo mesmo quando a pessoa tá parada.
Meu corpo inteiro enrijece.
— Que porrä é essa, ficou louca? — ele rosna, dando uma tragada funda e levantando o olhar direto pra mim.
O coração quase sai pela boca.
— Onde eu tô? — pergunto, a voz fraca, a garganta seca.
Ele solta o ar pela boca, impaciente.
— Tu acordou achando que tava no spa, caralhö?
Engulo seco.
O quarto é pequeno. Simples. Uma cama de casal onde eu tô deitada, uma cômoda velha, a poltrona onde ele tá, uma janela pequena fechada. A porta fechada.
Fechada.
O pânico tenta subir de novo.
— Eu… — tento falar, mas ele me corta.
— Tu chegou desmaiando, dando trabalho pra caralhö — ele diz, ríspido. — Primeira noite e já apagou no meu colo. Pra minha casa que eu não ia te levar. Tá achando que isso aqui é o quê?
Sento devagar na cama, abraçando o próprio corpo sem perceber.
— Eu não pedi pra desmaiar — rebato, a voz tremendo. — Meu corpo só…
— Não me interessa — ele corta de novo, mais duro. — Aqui ninguém faz nada sem me avisar e eu autorizar. Tu já começou errado.
— Então eu tinha que pedir autorização para desmaiar? — escapa de mim, antes que eu consiga segurar.
Ele estreita os olhos.
— Cuidado com o tom, mina.
— Eu só… — respiro fundo. — Eu acordei achando que você tinha me entregado pra ele.
O silêncio cai pesado.
Ele me encara por alguns segundos longos demais. A fumaça do baseadö sobe entre nós.
— Que porrä tu tá falando?
— Eu sonhei — explico rápido, a voz embargada. — Que você me entregava pra ele. Que vocês eram amigos.
O rosto dele endurece ainda mais.
— Ele quem porrä? Tá falando de quem?
— Ninguém, só um pesadelo.
— Fodä-se se foi pesadelo, não te perguntei.
Meu estômago aperta. Eu abaixo o olhar, sentindo aquele velho impulso de me encolher. De me fazer pequena.
Ele percebe.
O silêncio pesa de novo.
— Por que eu tô aqui? — pergunto, mudando de assunto antes que eu desmonte.
— Porque tu apagou — ele responde simples. — E eu não ia te largar na boca desacordada.
— Isso aqui é sua casa?
Ele faz uma careta.
— Não.
Meu coração acelera.
— Então é onde?
— Um canto que eu uso quando eu quero comer putä e não quero gente enchendo o saco.
— Eu posso ir embora? — pergunto, quase num sussurro.
Ele me encara como se eu tivesse contado uma piada rüim.
— Agora? — ele pergunta. — Tu mäl fica em pé.
— Eu não quero dar trabalho…
— Tu já deu filhona — ele corta. — Agora senta aí e fica quieta e só fala ou faz algo quando eu mandar.
O tom manda. Não pede.
— Você não manda mim. — digo, mesmo sabendo que ia cutucar onça.
O maxilar dele trava.
— Tu não me testa porrä — ele avisa. — Já tô putö em ter que perder tempo te trazendo aqui.
— Eu não pedi pra você me trazer — retruco. — Você que decidiu.
Ele levanta de repente. A poltrona range. Meu corpo reage no reflexo, encolhendo.
— Tu ta querendo levar umas porradas? Tu perdeu a noção pra falar assim comigo? Apesar que tu já tá acostumada apanhar né? Deve tá sentindo falta e tá caçando.
Ele passa a mão pelo rosto, nervoso. Anda de um lado pro outro do quarto.
— Eu só queria um lugar pra morar — falo. — Só isso.
— Eu não sou imobiliária. E muito menos abrigo.
Ele para perto da porta.
— Eu vou sair — ele diz. — Antes que eu faça merdä.
— Que tipo de merdä?
Ele abre a porta, me olha por cima do ombro. O olhar escuro, carregado.
— De meter a mão em você do jeito que tu tá acostumada.
Meu corpo inteiro gela.
— Não fala assim… — minha voz falha.
— É a verdade — ele rosna. — Tu tá me testando. E eu não sou um homem paciente.
Ele sai. A porta bate.
O som ecoa pelo quarto pequeno, me fazendo estremecer.
Fico sozinha.
Ou quase.
Demoro alguns segundos pra perceber.
O clique metálico.
Levanto devagar, o coração disparado. Vou até a porta. Tento a maçaneta.
Trancada.
Meu estômago despenca.
— Coiote…? — chamo, a voz saindo fraca.
Nada.
Bato de leve.
— Ei… — a mão treme. — Você trancou?
Silêncio.
Escorrego a testa contra a madeira fria da porta. O pânico volta com tudo, misturado com raiva, confusão e medo.
Eu fugi de uma prisão pra acordar em outra.
E o pior de tudo?
Eu não sei se ele trancou pra me proteger.
Ou pra garantir que eu não vá embora.
E essa dúvida me dá mais medo do que qualquer pesadelo.