Capítulo 5
COIOTE NARRANDO
Eu trancava portas desde moleque.
Nunca pra proteger ninguém.
Só pra não deixar nada fugir do meu controle.
Sempre foi assim. Eu sempre fui assim.
Encosto a testa na madeira do lado de fora do quarto e fecho os olhos por dois segundos. Só dois. Mais do que isso, eu penso demais. E pensar nunca foi bom pra mim .
Do outro lado da porta, silêncio.
Silêncio demais pra alguém que acordou em pânico.
A fumaça do baseado sobe lenta enquanto eu fico aqui, parado, como se vigiasse uma prisão que eu mesmo criei. Não escuto choro. Não escuto passo. Só a respiração dela, fraca, do outro lado da madeira.
— Merda… — murmuro.
Puxo o celular do bolso e disco.
— Bolador.
— Fala.
— A mina tá no meu barraco — digo direto. — Apagou. Tá machucada. Vai ficar aqui por enquanto.
Silêncio do outro lado.
— No teu barraco? — ele pergunta, medindo cada palavra.
— É. — Trago o baseado. — Não quero ninguém encostando. Ninguém perguntando. Ninguém tocando. Ninguém soltando a voz com ela
— E a Melissa?
— Cuida dela. — Minha voz endurece. — Isso aqui é comigo.
Desligo antes que ele responda.
Guardo o celular e dou um passo pra trás, como se a distância resolvesse alguma coisa. Não resolve. Nunca resolveu.
Ela tá aquii.
No meu espaço.
Debaixo das minhas regras.
E isso me deixa inquieto.
Saio antes que eu volte atrás.
A noite engole meus pensamentos enquanto eu desço. Preciso esvaziar a cabeça. Silenciar essa p***a que tá crescendo onde não devia.
Entro num lugar que eu conheço bem demais. Uma das minhas putas me recebe com sorriso treinado, perfume forte, olhar vazio. Perfeito. Sem pergunta. Sem história triste. Sem vínculo.
Exatamente o que eu sei lidar.
Ela se aproxima, toca meu braço. O contato não desperta nada além de cansaço. Meu corpo reage por hábito, não por vontade.
— Relaxa… — ela sussurra.
Eu tento.
Fecho os olhos.
E vejo a porta trancada.
Vejo os olhos dela cheios de medo.
Vejo o corpo encolhido na cama.
Abro os olhos irritado.
— Anda logo — rosno.
Ela obedece. Sempre obedecem.
Ajoelha na minha frente, passa a língua entre os lábios...
Quando tá quase… quando minha cabeça finalmente começa a desligar, o celular vibra em cima da mesa.
Ignoro.
Mas vibra de novo.
E de novo.
— c*****o… — pego o aparelho.
Bolador.
Atendo na hora.
— Fala. — digo cheio de ódio.
— Ela caiu — ele diz, rápido. — Tentou sair. Forçar a porta. As janelas... Se atrapalhou . E torceu o pé.
Meu corpo enrijece.
— Ela tá como?
— Chorando. Com dor. Assustada pra caralhö.
Fecho os olhos.
— Que porrä ela tava pensando?
— Fugir, né? — ele responde. — Não confia em você. E, sendo sincero… não tiro a razão dela.
A mulher me olha, confusa. Eu levanto da cama na mesma hora, pegando a camisa.
— Gelo. — Respiro fundo. — Coloca gelo. Não deixa ninguém chegar perto dela.
— Já mandei se afastar.
— Mandou? Quem? — ele não falou mais absolutamente nada. Só se calou.
— Tô voltando.
Desligo o celular.
A mulher tenta dizer alguma coisa. Não escuto. Passo por ela como se ela não existisse.
Saio rápido. A noite parece mais pesada agora.
Subo pensando numa coisa só:
Eu trancava portas pra manter controle.
Mas ela tentou fugir. Essa porrä não tem perdão!
(...)
Entro no barraco batendo a porta.
O som ecoa seco.
Ela tá sentada na beirada da cama, o rosto pálido, o pé inchado apoiado no chão de qualquer jeito. Quando me vê, tenta se ajeitar. Não consegue.
— Eu mandei ficar — digo, sem elevar a voz. — não mandei?
Ela não responde. Só me encara.
Esse silêncio me irrita mais do que se ela tivesse gritado.
— Tu tentou fugir — continuo. — No meu morro. No meu barraco. E das minhas ordens!
Dou dois passos pra dentro.
— Tu tem noção do risco que isso é ou tu é burra mermo?
Ela respira fundo. Vejo o maxilar tremer. Dor misturada com medo.
— Eu não tentei fugir… — diz baixo. — Eu tentei ir embora. Você não tem o direito de me trancar! Maluco.
Rio sem humor.
— Eu disse que eu mando. Eu dito as regras. Tu disse que aguentaria. E nas primeiras horas, já tá vacilando?
Ela tenta apoiar o pé no chão e solta um gemido involuntário. Meu olhar desce antes que eu consiga impedir.
O pé tá feio. Inchado demais. E muito vermelho. Vai ficar roxo.
— Levanta — ordeno.
— Não dá — ela responde, com a voz falhando.
— Eu não perguntei se dá.
Ela tenta. Cai sentada de novo, ofegante. Fecha os olhos por um segundo, como se juntasse os cacos.
Quando fala, a frase vem baixinha. Em um sussurro.
— Eu prefiro sentir dor indo embora… do que ficar onde não posso escolher nada.
Meu peito trava.
Por um instante, não é o traficante. Não é o dono do morro. É só um homem que conhece aquela sensação bem demais.
Raiva me invade logo depois.
— Aqui ninguém escolhe porrä nenhuma — rosno. — Principalmente quem chega cheia de segredo. E pedindo favores!
Ela me encara. O medo ainda tá ali, mas agora misturado com algo que me desafia.
— Então me deixa ir — diz. — Eu não pedi proteção. Eu pedi um lugar. Por qual eu iria pagar.
— Tu não vai sair desse jeito.
— Eu vou embora hoje — ela afirma. — Mancando, se for preciso.
Ela se apoia na cama e levanta.
O pé mäl toca o chão e ela quase cai de novo. Segura na parede, respira fundo, força o corpo.
Algo em mim estala.
— Senta — falo.
Ela dá um passo.
— Eu não sou tua prisioneira.
Outro passo.
A mão vai sozinha pra cintura.
Saco a arma.
O metal aparece entre nós dois.
Ela congela.
Os olhos dela descem pra arma, depois sobem devagar até os meus. Não chora. Não grita. Só engole seco.
— Vai atirar em mim agora? — ela pergunta. — Por tentar ir embora machucada?
Minha mão treme.
Essa nunca foi uma pergunta difícil antes.
Aponto.
Seguro.
Respiro.
O silêncio em mim pesa mais do que o cano da arma.
Vejo o corte perto da cabeça.
Os roxos no braço.
O pé inchado.
— Some da minha frente — digo, com a voz quebrada de raiva. — Antes que eu faça uma coisa que não tem volta.
Ela não responde.
Só vira devagar e manca até a porta.
Meu corpo reage antes da minha mente.
Dou dois passos rápidos e chego antes que ela encoste na maçaneta. Minha mão fecha na cintura dela, firme, instintiva. Não machuco. Mas também não sou delicado.
Prendo o corpo dela entre o meu e a porta.
Ela solta o ar num susto baixo.
O calor vem na hora. O choque do corpo dela contra o meu. O cheiro. A respiração curta. O jeito que ela fica rígida, mas não se afasta.
Meu peito encosta nas costas dela.
Porrä ela presa a mim dessa maneira... Só fode ainda mais minha mente.
— Não encosta em mim… — ela murmura, mais fraco do que deveria.
Essa coragem burra acende tudo errado dentro de mim.
Minha mão aperta mais a cintura dela. O polegar crava de leve, marcando a pele. Não machuco. Mas aviso.
— Já encostei — respondo baixo.
A cintura dela cabe fácil na minha mão. Pequena. Frágil demais pra mim. Meu polegar pressiona de leve, só pra lembrar que eu tô aqui. Que eu mando. Que eu sou o controle.
O pé machucado não aguenta e ela se apoia sem querer em mim.
— Tu não aguenta descer esse morro assim — rosno. — Nem metade.
— Não... é você que decide — ela rebate, com a voz falhando.
Porrä.
Meu maxilar trava. O corpo esquenta.
Desço o rosto até o pescoço dela sem encostar. Em uma distância mínima. Provocação pura. Castigo silencioso.
O corpo dela arrepia. E meu coração tá quase me matando. Acelerado pra caralhö.
— Tu não faz ideia do quanto tá me testando — murmuro.
O controle começa a escapar pelos dedos.
Meu rosto desce até o ouvido dela. A respiração quente bate na pele do pescoço. Sinto ela arrepiar inteira.
Se eu falar alto, eu perco.
Se eu soltar, eu perco também.
Então eu sussurro.
Baixo.
— Fica… — faço uma pausa curta, respirando fundo pra não fazer merdä. — Fica aqui por hoje.
Minha mão aperta a cintura dela só mais um pouco, como se estivesse segurando ela a mim. Prendendo ela a mim.
— Eu não tranco a porta — continuo, com a voz baixa, e quase um aviso pra mim. — Só por hoje.
Solto ela devagar.
Ela fica aqui, parada, respirando forte.
E eu também.
Puxo a cadeira e sento ainda meio atordoado com o perfume dela, com o cheiro dela. O corpo ainda quente demais. Tenso demais. A cabeça pior ainda.
Tiro o saquinho do bolso sem cerimônia. Jogo em cima da mesa. Depois a garrafa de whisky que já está aqui, sempre está. Abro, dou um gole longo direto do gargalo.
Ela vê.
O silêncio dela dura pouco.
— O que… o que você tá fazendo? — a voz dela sai assustada, doce demais. Caralhö!
Levanto o olhar devagar. A mente já começando a ficar turva, mas o controle ainda aqui. Forçado talvez. Mas aqui.
— Tentando não fazer merdä — respondo seco.
Ela engole em seco.
— Você vai usar isso? — ele pergunta, apontando com o queixo.
Dou outro gole.
— Vou.
Ela dá um passo pra trás, instintivo. Como se o perigo tivesse mudado de forma.
Encosto as costas na cadeira, espalhado, dominante mesmo sentado.
— Relaxa — digo baixo. — Eu não tranco a porta hoje. Não encosto em tu por hoje.
Ela pisca, confusa.
— Mas…?
Inclino a cabeça de lado, encarando ela sem piscar.
— Mas eu vou ficar aqui — bato o dedo na mesa. — Mesmo com a mente fodidä.
Pego o copo agora. Encho.
— Controlando tu, c*****o. Inclusive tu! — aponto pra ela.
— Teu pé tá fodidö. Senta e descansa. Amanhã quero tu fora do meu morro!