Capítulo 50 GAVIÃO NARRANDO A madrugada no Vidigal não foi feita para os fracos, e muito menos para quem carrega o peito cheio de estilhaços que não são de granada. Fiquei a noite toda jogado nesse sofá velho da sala da Sabrina, com o fuzil atravessado no peito e os ouvidos atentos a qualquer barulho que viesse do quarto. Não dormi. Não dava. O som que cortava o silêncio da casa não era o do pagode lá embaixo, mas os gemidos abafados dela. A Serpente é braba, é o tipo de mulher que toma tiro e não solta um "ai", mas o corretivo do Coiote foi desenhado pra humilhar o espírito tanto quanto o corpo. Cada vez que ela tentava se virar na cama e soltava aquele suspiro arrastado de dor, meu coração dava um solavanco. Eu sentia cada pontada nas minhas próprias costelas como um eco da dor dela.

