Kalu percebeu o erro no instante em que abriu a porta. Nem uma semana havia passado desde que tinha flagrado Tahira, e lá estava ele quase na mesma situação, só que agora, tendo como protagonistas Nicholas e Samuel.
Com um estremecimento, fechou a porta com força, encostou a testa sobre a madeira fria e respirou fundo — ainda com a mão na maçaneta. Por Deus, a imagem estava gravada a ferro na sua mente: Nicholas encurralado por Samuel entre a mesa da cozinha, enquanto ambos compartilhavam um beijo que não poderia ser descrito como nada menos que voraz.
Beijo. Kaluanã riu com sarcasmo.
Apesar de Nicholas ter as duas mãos sobre a mesa — talvez na tentativa de se ancorar a alguma coisa — Samuel tinha uma da suas mãos segurando firmemente o cabelo do loiro, e a outra dentro das calças do amigo, fazendo sabe-se lá o quê.
Cacete, agora vou ter que andar por aí com um maldito sino amarrado no pescoço, para evitar essas situações complicadas? Perguntou-se com fatalismo.
Um som às suas costas o trouxe para o presente. Assustado, olhou para trás e encarou os olhos verdes de Tahira. Sem pensar duas vezes, Kalu desceu as escadas, segurou a mão da colega de quarto e praticamente saiu arrastando-a para a rua.
— Ei, ei! — ela gritou, tentando puxar a mão da dele, mas sem sucesso. — Me solta, Kalu!
Foi sumariamente ignorada, pois o moreno só parou quando estavam a uma quadra de distância do apartamento.
— Ficou louco? — irritada, se aproximou dele, pronta para a agressão, porém, a expressão de completo desamparo de Kaluanã transformou a sua raiva em preocupação. — O que aconteceu?
No lugar de responder, Kalu pegou a carteira de cigarro, colocou um na boca e acendeu, dando uma tragada profunda. Tudo isso sob o olhar impaciente de Tahira, e o seu pé batendo no chão com cada vez mais rapidez à medida que a explicação demorava.
— Não vai querer assistir aquilo.
— O quê? Kaleb e Daniel estão se pegando na cozinha de novo? Olha, juro por Deus, que vou dar uma surra naqueles dois pervertidos. — Com a irritação renovada, ela já estava fazendo o caminho de volta, mas Kaluanã a impediu.
Ele não impôs qualquer tipo de força, apenas segurou a manga do seu casaco levemente. A simples ação a paralisou — seu rosto em chamas.
— Peguei Nicholas e Samuel se beijando. — A afirmação não passou de um sussurro arrancado a contragosto, não queria colocar aquilo em palavras, só esquecer e fingir que não tinha acontecido nada, porém, precisava cumprir seu dever de amigo, por mais complicado que fosse. — Não volte ainda, vamos dar um tempo a eles.
Quando os olhos verdes voltaram a encontrar os seus, não estavam só furiosos, mas enojados.
— Dar um tempo a eles? — Tahira se aproximou perigosamente dele. — Como se fossemos malditos cúmplices?
Ela invadiu o seu espaço pessoal, apontou o indicador acusadoramente na sua direção até pressioná-lo contra o seu peito — a dor afiada o obrigou a recuar.
— Posso não ser tão amiga da Helena, mas está para nascer o dia que vou cobrir infidelidade de macho escroto. — Cuspiu as palavras com nojo. — Homem é tudo igual mesmo, pois que se protejam sozinhos, — rosnou antes de voltar a dar as costas a ele — Não conte com a minha ajuda.
Novamente, — e de forma muito imprudente, a parte sensata da sua consciência o alertou — Kaluanã voltou a segurar o seu braço, dessa vez de forma mais incisiva, mudou de posição até se colocar à frente dela.
— Nicholas não está traindo a Helena.
— Ah, não? — sorriu com deboche — Então qual é o nome que se dá quando o seu namorado beija outra pessoa, uma vez que estão em uma relação monogâmica?
Não queria expor os amigos mais do que já tinha feito, entretanto, conhecia o furacão Tahira o bastante para calcular o estrago que viria se ela voltasse no apartamento para confrontar Nicholas e Samuel. Com um suspiro cansado, contou sobre a conversa que havia tido com o amigo sobre o ménage.
Observou várias emoções passarem pelas feições da loira. A revolta dando lugar a descrença, depois ao humor, voltando a descrença e por fim, admiração?
— Muito provavelmente o Samuel decidiu aceitar a proposta. — Terminou.
— p**a merda! — ela sorriu. — Realmente, as aparências enganam, né? Nunca iria imaginar que a Helena fosse tão... ousada ao ponto de cogitar um ménage. Para mim, ela fazia o tipo que prefere sexo de luz apagada. — Sem fazer muito para controlar a sua empolgação, Tahira soltou uma gargalhada. — Qual dos dois será o passivo?
— Aaaaah! — como uma criança, Kalu apertou as duas mãos contra os ouvidos para abafar as obscenidades da outra. — Não vamos falar sobre isso!
— Ah, vamos sim! — com humor refeito, principalmente em resposta ao desconforto dele, começou a confabular. — Nunca pensei no Nicholas como passivo, mas também nunca o coloquei na posição de bissexual e olha onde estamos, sabe, uma coisa temos que admitir, a Helena tem bom gosto para fetiches. — Continuou com a provocação.
— Tahira! — gemeu o seu nome, cada vez mais constrangido, Kaluanã sentia até mesmo as orelhas quentes, podia apostar que parecia um tomate de tão vermelho.
A conhecia bem o bastante para saber que ela não queria aquelas respostas, só o estava atormentando porque se divertia ao cometer aquele tipo de crueldade — como a mulher problemática que era.
— Daria qualquer coisa para assistir essa cena. — Decidiu.
Kalu duvidava muito, ele mesmo já tinha acompanhado duas e podia garantir que não era nada agradável, na verdade, a própria Tahira havia ficado bem embaraçada em uma delas.
— Não seria mais divertido que a sua. — respondeu por impulso, o que lhe lembrou de forma amarga o motivo de ser sempre tão cauteloso com as suas palavras ou ações.
Um silêncio incômodo se instalou entre os dois. Por alguns segundos seus olhares voltaram a se fixar, mas logo desviaram — ambos com os rostos extremamente ruborizados. Ele sabia o que passava pela cabeça dela, afinal, era exatamente a mesma coisa que passava pela sua própria: aquele maldito dia.
Definitivamente havia tomado uma péssima decisão ao arrastá-la até ali — admitiu — tinha se deixado levar pelas emoções — algo raro para alguém tão racional como ele.
A forma como Tahira o havia tratado momentos atrás, tão descontraída e provocadora, fez com que se esquecesse do imenso elefante branco que existia entre os dois.
Puta que pariu, como podia ser tão inteligente se com apenas um sorriso sacana ela era capaz de mandar todo o seu raciocínio para o inferno?
Kalu precisava de outro cigarro, até mesmo brincou com a ideia de acender um, porém, com um suspiro resignado desistiu. Ela odiava esse hábito e provavelmente seria uma alavanca para mais briga — com ela qualquer coisa era. Kaluanã sentia em todos os ossos do corpo a vontade surreal de fugir, não queria enfrentar o que estava por vir, por todos os ângulos que refletia só existia o puro constrangimento.