bc

COLEGA DE QUARTO

book_age18+
60
FOLLOW
1K
READ
HE
opposites attract
decisive
blue collar
bxg
lighthearted
campus
teacher
like
intro-logo
Blurb

Kaluanã tinha a vida perfeita que todo preguiçoso sonhava: era professor universitário aos 21 anos, dividia seu apartamento com outros cinco amigos e mantinha uma rotina banal. Até que seu melhor amigo decide ir morar com a namorada. Agora, Kalu tem sua vida virada de cabeça para baixo ao lidar com uma nova colega de quarto, Temari Lubandji.

Uma mulher problemática, mandona e espaçosa, que invadiu sua vida com uma agressividade desnecessária.

Será que uma convivência incomum pode se transformar em algo a mais?

chap-preview
Free preview
Início
O despertador tocou, mas Kaluanã o ignorou, esperando que o seu colega de quarto, Caio, se arrastasse da própria cama para desligá-lo. Com desgosto, lembrou-se que o amigo havia se mudado para a casa da namorada, Ana, no dia anterior. Complicado. Pensou, mas permaneceu na mesma posição. Nicholas e Kaleb dividiam o quarto ao lado, porém, os dois tinham sono pesado e não acordariam mesmo se uma bomba explodisse a casa inteira. Apertou o travesseiro contra a cabeça na tentativa de abafar o barulho, fechou os olhos e aguardou. O quarto de Nathaniel ficava do outro lado do corredor, mas ele tinha sono leve e com toda a certeza viria desligar o aparelho — o som estridente lhe incomodaria o suficiente para isso. Satisfeito com a resolução que encontrou para o problema, Kalu começou uma contagem regressiva. Estava nos três quando a porta foi abruptamente aberta por um Samuel, apenas de cueca e furioso, marchando na sua direção. — Seu maldito preguiçoso. — Sob o seu olhar alarmado, pegou o despertador sem cuidado, arrancando a tomada da parede, abriu a janela e jogou o aparelho com força — Se não vai levantar quando essa merda tocar, não precisa de um. Com as palavras rosnadas, virou-se e saiu do quarto pisando forte. O desfecho não ocorreu exatamente como o planejado, afinal, o quarto do outro ficava afastado e nem de longe o seu sono poderia ser considerado tranquilo, porém, havia conseguido alcançar o seu objetivo e isso era tudo que importava. Fazendo das cobertas um casulo, voltou a relaxar até que o seu celular começou a vibrar na cabeceira. Se mexendo o mínimo possível para dar uma espiada no visor, leu algumas mensagens do seu melhor amigo: Caio: Acorda Kalu Caio: Ñ pode se atrasar pra aula Caio: VC É O PROFESSOR Com um resmungo sofrido, levantou-se calmamente. Odiava sair da rotina, com certeza estava feliz pelo amigo ter encontrado o amor da sua vida, mas agora teria que achar outro colega de quarto. Uma pessoa com as próprias manias, que talvez não fossem compatíveis com as dele. Não demorou muito no banho, escovou os dentes e amarrou o cabelo no costumeiro coque. Enfiou as chaves no bolso da calça jeans, junto com a carteira e maço de cigarro, no bolso interno da jaqueta surrada, colocou o isqueiro e dois pilotos para quadro n***o. — Vai para faculdade assim? — foi o “bom dia” de Nathaniel, que estava diante do fogão com o seu olhar inquisidor. Apesar de ser só um aluno de direito, ele trajava uma roupa social perfeitamente alinhada, um contraste bem estranho com o avental de cozinha e a frigideira que tinha em mãos. — Sim. — Kaluanã respondeu, pegou uma tapioca da pilha já posta à mesa e enfiou na boca sem dar maiores explicações. — Deveria levar isso mais a sério, Kalu. — Nathan usou o tom que Nicholas nomeava de “mamãe galinha”. — Ser professor interino com a idade que tem é uma oportunidade única. Na sua opinião, o outro se preocupava demais. A reitora da Universidade havia praticamente implorado — ou, mais precisamente, usado de intimidação, chantagem e suborno. — Para que aceitasse a vaga quando começou o doutorado. Precisaria de mais que desrespeitar regras de vestuário para ser chutado do cargo. Além disso, usava uma blusa social branca abotoada até o colarinho, o que escondia perfeitamente todas as suas tatuagens. Imagem mais respeitável que aquela era impossível. — CHEIRO BOM! — como uma criança hiperativa, Kaleb invadiu a cozinha, logo meteu a mão na panela para roubar o que não devia. — Use um prato, Kaleb. — Nathaniel vociferou. – Outras pessoas vão comer. — Sim, mãeeeeee! — não conseguiu desviar do tapa que recebeu. — Ei, não me bate coçou a cabeça com um olhar de cão espancado. — Então não seja e******o. — Estou de saída. — Aproveitando a deixa, Kalu pegou outra tapioca recheada e se dirigiu a porta. — A entrevista com o seu novo colega de quarto é às 15hrs. — Nathan lembrou. — Uhum. — Confirmou de boca cheia. Não morava muito longe do trabalho, apenas alguns quarteirões, então preferia uma bicicleta a um carro. Por morar numa região universitária, a maior parte dos moradores eram estudantes, o grande centro composto por bares, lanchonetes, repúblicas, restaurantes e fast food. Sem falar do shopping que servia de ponto de encontro universal de toda a cidade. A manhã estava fria o bastante para a brisa gelada incomodá-lo, com uma habilidade adquirida por anos de prática, tirou ambas as mãos do guidão para fechar a jaqueta. Tudo aconteceu repentinamente, num momento entrava no estacionamento da faculdade e no instante seguinte, estava no chão, caído de costas no asfalto. Não sentiu o impacto, mas ouviu o carro freando. Mãos de dedos finos e ágeis começaram a apalpar, verificando o seu corpo. Kalu encarou, em choque, o rosto da bela mulher a quem eles pertenciam, o Sol banhando a sua pele alva tornando a sua imagem algo surreal. — ... Dói? — o seu tom era autoritário, vincos de preocupação formaram-se na sua testa. Estranhamente, ele quis que a expressão se desfizesse, pois não combinava com os olhos verdes, ou com o nariz arrebitado, muito menos com a boca tentadora. Tentadora? De onde havia vindo aquele pensamento? — Sente dor em algum lugar? — ela repetiu a pergunta depois da sua óbvia confusão, aproximando ainda mais o seu rosto do dele. — E-err… não. — A sua voz saiu abóbada até mesmo para seus próprios ouvidos. — Bateu a cabeça? — o encarou com certa desconfiança. — Não. — Mentiu, não tinha certeza sobre isso. — Como se chama? — Kalu. — Por que estava agindo de forma tão i****a? — Okay, o meu seguro não cobre despesas médicas de terceiros. — Aliviada, tirou a bicicleta de cima da perna dele e o segurou pelo braço. — Consegue se levantar? Estamos criando um belo show. De fato, outros carros já haviam se aglomerado atrás do dela, vários estudantes observavam a cena — alguns com discrição, outros com os celulares a postos. Sem esperar por permissão, o ajudou – arrastou — até que ficasse de pé. — A roda da sua bicicleta empenou, posso cuidar disse se quiser. — perguntou e Kalu passou as mãos por sua jaqueta e depois a calça, tirando a sujeira que adquiriu na queda. — O meu irmão tem uma oficina, não vai levar mais que um dia. Foi até a bike, pegou-a cuidadosamente — irônico, já que havia passado com o carro por cima dela minutos antes — e a encarou de forma avaliativa. — Não precisa. — A parte sã do seu cérebro revirou-se com a recusa, por Deus, deixá-la levar seria menos complicado que procurar uma loja de consertos e pagar por isso, no entanto, por algum motivo desconhecido, estava tendo dificuldades para colocar o raciocínio em palavras. — Tem certeza? Kalu assentiu. — Então, tudo bem. — A desconhecida parecia incerta com a decisão dele, mas com um suspiro, entregou a bicicleta e entrou no seu próprio carro, uma picape que já teve dias melhores. — Ah! — parou novamente e colocou a cabeça para fora da janela — Evite dormir por um tempo, caso tenha tido uma concussão. Kalu ficou encarando-a sem responder, a mulher ligou o carro e partiu. Ele só soube encarar a traseira do veículo que se afastava, perguntando-se que merda havia acabado de acontecer. ___________________________ Não pretendia se atrasar, no entanto, por chegar tarde na primeira aula acabou demorando mais na orientação de alguns alunos que estavam para se graduar e pretendiam fazer um trabalho teórico. Como um movimento em cascata, continuou preso nesse loop até o último horário — ter que voltar para casa andando e arrastando uma bicicleta danificada também não ajudou. Ainda não conseguia entender a sua reação embasbacada da manhã com a doida da picape, nem mesmo conseguiu perguntar o seu nome — não que quisesse saber, mas bem, ela havia-o atropelado afinal, informar o seu nome e deixar um número de contato era o mínimo. E se ele de fato tivesse tido uma concussão? Por que está remoendo isso? Perguntou a si. Agachou para prender a roda traseira da bicicleta no suporte com a corrente — duvidava que fosse roubada no estado em que estava, porém, era um homem de hábitos. Caio, provavelmente, viria com uns papos loucos sobre clichês românticos de adolescente. Desde que havia se apaixonado o cara ficou obcecado pelo assunto, o enchendo de perguntas, criando teorias bizarras a respeito da sua relação com Iara, e até mesmo cometendo a audácia de inscrevê-lo num site de relacionamento. — Está atrasado! — foi a saudação de Nathaniel, assim que entrou em casa. — Tive que vir andando, levei um tombo hoje de manhã e a minha roda empenou — respondeu fechando a porta atrás de si. — Se tivesse comprado um carro como sugeri, isso não teria acontecido. – Nathan colocava biscoitos e café numa bandeja na bancada da cozinha, enquanto reclamava da decisão de Kalu. — Claro, porque um acidente de carro é menos prejudicial que um de bicicleta. — Devolveu com um tom de tédio que sabia que o irritaria. — Só precisamos da sua aprovação, Kaleb está mais barulhento que nunca, porém deu um ok, Nicholas também. — Sem poder refutar a sua resposta malcriada, Nathaniel apenas ignorou — Não sei exatamente a opinião do Samuel, no entanto, como o quarto é seu, a sua decisão tem peso. — O que você acha? — perguntou Kalu para o amigo mais sensato que tinha. — Não me importo realmente, podemos dividir as despesas do Caio entre nós. — Kaleb ficaria enchendo o meu saco por ter que dividir um quarto com Nicholas, no lugar de poder ficar sozinho. — Na divisão original ele havia perdido nas negociações para Samuel sendo obrigado a ter um colega de quarto, mas até hoje guardava certo ressentimento por isso, sem falar que Kalu já podia ouvir perfeitamente o choramingo. — Aposto que ele usaria o namorado como justificativa. — Como se os dois precisassem de um quarto para t*****r. — respondeu Nathan com a amargura de alguém que já vira mais de uma cena constrangedora do casal. — No fim, só iria trocar um colega de quarto potencialmente gerenciável, pelo Nicholas. Kalu gostava de Nicholas, tirando Caio, o loiro barulhento era seu amigo mais próximo, entretanto, ele também era completamente desorganizado, invasivo e muitas vezes, não tinha a menor noção quanto aos limites das outras pessoas. Definitivamente, era uma complicação que não estava disposto a lidar. — Qualquer coisa é melhor que Nicholas. — Com essa afirmação Nathaniel pegou a bandeja e se encaminhou para a sala, Kalu o seguiu. Como se invocada dos seus pensamentos, ali estava a mulher que o havia atropelado, sentada confortavelmente no seu sofá de três lugares, com as pernas cruzadas e um sorriso altivo — como uma rainha imponente. Nicholas ao seu lado, rindo de algo, Kaleb a encarava com óbvia adoração. Samuel estava em pé, com o ombro encostado na parede, ostentando uma expressão arrogante — como sempre. — Não te incomoda morar numa república só de homens? — ele perguntou, incisivamente. — Tenho dois irmãos, então não tenho problemas em dividir espaço com meninos. — Ela respondeu com igual soberba. — Desde que não sejam um bando de pervertidos, ficaremos bem. — Não precisa se preocupar com isso. — Kaleb a tranquilizou da sua forma escandalosa de ser, e apontou para Nicholas — Ele tem namorada. A rainha pomposa aí não gosta de humanos em geral. — falou, se referindo ao Samuel — E bem, Nathaniel tá de rolo com a Tabata... — Tenho certeza que Tahira não precisa dessas informações demasiadamente pessoais, Kaleb. — Nathan interveio com rispidez, trazendo a atenção da moça para si, ou melhor, para Kalu. Os olhos dela se prenderam aos seus, de início com surpresa, depois descrença e por último, acusação. — Talvez — Kaleb sorriu sem graça. — Err... foi m*l. — Vocês se conhecem? — Samuel perguntou em tom de afirmação. A troca de olhares entre os dois era, no mínimo, estranha para o outro que, além de ser antissocial, grosso e arrogante, tinha como melhor qualidade a percepção afiada. — Ela me atropelou hoje de manhã. — Confessou, era melhor esclarecer logo aquela situação. — Ow! Eu não atropelei ninguém. — Tahira se defendeu. — Você que estava andando de bicicleta, em mão única, como se estivesse no mundo encantado da Disney. Ela tinha razão, mas ele cortaria a própria língua antes de admitir algo remotamente parecido com aquilo. — A prioridade era minha. — Simulou paciência. — Faz parte da regra de trânsito: pedestre, bicicleta, moto e então, carro. — Isso não te dá aval para ficar andando no meio da rua observando o céu. — O encarou com severidade. — E outra, você nem se machucou! — Você quebrou a minha bicicleta. — salientou, algo dentro de si o alertava do perigo iminente de provocá-la, entretanto não pôde evitar. — Mas me ofereci para consertar. — Fez uma expressão exagerada de obviedade. — Você que recusou. Kalu abriu a boca para rebater, porém, foi interrompido por Samuel. — Atropelar o seu colega de quarto não me parece um início promissor. Kaluanã viu os olhos dela se estreitarem e o rosto bonito anuviar com a raiva. No entanto, para sua surpresa, a doida apertou os lábios no lugar de retrucar. Seja lá por qual motivo fosse, Tahira queria mesmo aquela vaga. — Não seja um cuzão, Samuel — a defesa partiu de Kaleb. — Só estou dizendo o óbvio. Não temos motivos para continuar perdendo tempo com essa entrevista. — Encarou o amigo. — Além disso, não acho que Kalu iria querer dividir o quarto com uma mulher. Ele tinha razão, não queria, mas, por alguma razão, não sentia vontade de colocar isso em palavras na frente de Tahira — não que estivesse preocupado com a sua desaprovação ou algo assim, assegurou-se. — Qual o problema com o meu gênero? — ela cruzou os braços na frente do peito e fitou Kalu. — Mulheres são problemáticas. — Foi tudo que pôde dizer. — E homens não? — ela revirou os olhos. — Tenho boas referências, também estou disposta a fazer os depósitos que exigiram e não tenho vícios ou antecedentes. — Completou quando o Kalu levantou uma sobrancelha em deboche. — Me ofereci para ajudar quando o atropelei, o que prova que não sou uma louca irresponsável, e estou aqui, me submetendo a essa entrevista sexista e desrespeitosa. — Não somos sexistas. — Nathaniel negou, ofendido. — Ah, sim! — ela encarou-o com desafio. — Então me dê um motivo plausível para me recusar. Não existia. A pergunta era uma armadilha e eles tinham caído direitinho. [Dia seguinte - manhã] Kalu estava mais cansado que o normal quando o alarme tocou, tudo que queria fazer era enfiar a cabeça debaixo do travesseiro e voltar a dormir. Do outro lado do quarto soou um palavrão e o despertador, que havia comprado depois do fim que o último havia levado, foi subitamente desligado, o lembrando que agora tinha um novo colega de quarto. No dia anterior, Tahira tinha feito a sua mudança e para não precisar enfrentar a mulher problemática, Kalu ficou até tarde na universidade, depois acabou indo para o apartamento de Caio filar a janta. Quando chegou em casa — tarde da noite — ela já estava dormindo, então só fez o mínimo de barulho ao se preparar para deitar e agradeceu a Deus por não precisar lidar com aquilo. Alguns poderiam lhe chamar de covarde, mas ele era um estrategista nato e desde muito jovem havia aprendido com o casamento dos pais que quando se dividia espaço com uma mandona, o ideal era ficar fora do caminho. Passados 20 minutos, resolveu levantar — não podia mais enrolar e já contava em pular o café da manhã para chegar em tempo da primeira aula. Porém, todos os seus planos foram por água abaixo quando deu de cara com a porta do banheiro trancada. 20 minutos para tomar um banho era exagero, entretanto resolveu dar mais 10, afinal, ela poderia estar fazendo uma dessas coisas de mulher. Perdeu a paciência quando o relógio marcou 15 minutos e nenhuma indicação da fechadura sendo aberta foi ouvida. — Tahira, está tudo bem? — sem resposta, porém, ao encostar a orelha na porta escutou a batida ritmada de uma música. — Preciso me arrumar para o trabalho! Silêncio. Tentou a maçaneta novamente calculando quanto tempo tinha e se valia usar o banheiro de Daniel e Nicholas, ou até mesmo Nathaniel. Mas desistiu, pois se cedesse uma vez teria que fazer isso todas as manhãs. Complicadas ou não, algumas batalhas precisavam ser travadas. — Tahira! — bateu com o punho na porta com urgência, não era só questão de defender o seu território ou chegar na hora. — Preciso fazer xixi! Nada. Furioso, Kalu marchou até a cozinha, passando por um Nicholas sonolento e Samuel silencioso, foi até a área, abriu a caixa de força e desligou um dos disjuntores. Esperou. O grito irado soou como música para seus ouvidos. Sorriu satisfeito. Quando chegou no quarto ela já estava arrumada, e o banheiro vazio. — Como esperado. — O seu desgraçado! — Tahira o encarou com os olhos em chamas. — O que você fez? Longe de transparecer o quão intimidado estava, a ignorou, pegou a sua toalha, roupa e encaminhou-se para o banheiro. — Não terminei de me arrumar. — Ela colocou as mãos na cintura, bloqueando a entrada do banheiro. Muitas pessoas pensavam que, por Kalu ser calmo e pacifista, não era capaz de segurar uma briga, mas estavam enganados. Junte a equação o mau-humor matutino, e você tem o combo perfeito. — Se precisa de tanto tempo, acorde mais cedo. — Devolveu o seu olhar com dureza, a suas palavras tão afiadas que ela deu um passo para trás. — O banheiro é compartilhado, e não vou me atrasar todas as manhãs porque você é egoísta demais para dividir. — Não sou egoísta! — a retórica perdeu a sua força uma vez que a sua raiva havia arrefecido com a reação dele. — Ninguém demora tanto tempo assim num banho a menos que seja proposital, — acusou. — Sendo assim, ou você é egoísta, ou imatura, — passou por ela. — Talvez os dois. — Seu… seu… — o resto da ofensa foi abafado pela porta trancada. Odiava tomar banho frio, mas provavelmente precisava da água gelada para esfriar a cabeça e os seus pensamentos. Graças a janela e luz da manhã, não estava completamente no escuro. Tirou a roupa e entrou no box, depois de se acostumar a temperatura, fechou os olhos e deixou a tensão esvair do seu corpo. Se essa fosse uma prévia dos próximos dias, estava indo falar com os meninos para desfazer o arranjo — aguentaria de bom grado os choramingo de Daniel e até mesmo o furacão Nicholas, no lugar daquela mulher problemática. Sentiu um cheiro familiar, estava por todo o cômodo, nada doce ou floral, mas cítrico. Aquilo entrou por suas veias o afetando em uma parte muito específica do corpo — algo nada apropriado, levando em consideração que haviam acabado de brigar, além de dividirem o mesmo quarto, de forma não afetiva ou s****l. — Oh, droga! — se só o perfume de Tahira o desestabilizava dessa forma, tinha realmente acabado de entrar num enorme problema. ___________________________ Tahira ainda estava em casa quando terminou de se arrumar. A encontrou comendo uma banana na cozinha, sentada na bancada de uma forma casual demais para ser natural — o seu corpo retesou levemente quando o viu, olhou-o ainda enfurecida, mas disfarçou a sua tensão dando outra mordida na fruta. Ela vestia um macacão florido e curto — que deixava as longas pernas a mostra demais para a paz de espírito dele — com uma jaqueta jeans estilizada com diversos emblemas que, provavelmente, ela mesma havia costurado, e botas pesadas de cano alto, do tipo que se usava no exército. Usava o cabelo solto, o que combinava com o resto da obra. Kalu pegou a lista de compras adesivada na porta da geladeira, ao lado da bancada, e nem mesmo deu um olhar final a moça. Só enfiou o papel no bolso e andou em direção a saída. Não estava num humor benevolente, então se ela pretendia pedir desculpas ou falar algo, ele, com toda a maldita certeza, não iria facilitar as coisas. — Também estou indo para aula, posso te dar uma carona. — Ela falou antes que ele tirasse as suas chaves do bolso. Não era o tom humilde ou arrependido que esperava, no entanto, Kaluanã desconfiava que era tudo que iria receber daquela mulher teimosa. — Só porque estou atrasado. — Aceitou a oferta de paz. No sorriso dela tinha mais alívio que qualquer outra coisa. O carro de Tahira por dentro era tão ferrado quanto por fora, porém tinha pequenos traços de afeto que demonstravam o quão apreciado era pela dona. Seja nas fitas de boa sorte amarradas no espelho retrovisor, ou os adesivos e pequenos enfeites distribuído pelo painel. Também tinha o fato de que, se no seu banheiro o cheiro dela estava espalhado por toda parte, ali era tão palpável que parecia impregnado no estofado. — Sabe, não precisava ficar tão furioso assim só por se atrasar para aula, não vai repetir por perder uma ou duas. — Não posso perder aula. — Pegou o maço de cigarro no bolso, fez menção de abrir, mas mudou de ideia ao receber um olhar assassino de Tahira. Sim, ela poderia facilmente matar um homem só usando aquilo. Ele pensou. — Por quê? Tudo bem que ainda estamos no meio do período, mas não é possível que esteja tão fodido a esse ponto. — Sem dar seta, mudou de pista fechando um carro que vinha atrás, Kalu segurou forte no banco do carro e prendeu a respiração. Ao receber uma buzinada em retaliação, a loira respondeu colocando a mão para fora e estendendo o dedo médio. Ele tentou relembrar as circunstâncias do seu atropelamento, talvez não tivesse tão errado assim no fim das contas. — Sou o professor. — respondeu depois que ela voltou a se acalmar. Tahira olhou para Kalu e bufou com descrença, ele não se ofendeu ou surpreendeu-se, estava acostumado com a reação. Nunca fez parte dos alunos mais esforçados como Nathaniel, ou notórios como Samuel, na verdade, a sua disciplina era algo lamentável desde o primário. Porém, o seu QI era algo considerável, logo, adiantar algumas séries e entrar para a faculdade aos 15 anos tinha sido relativamente fácil, conseguir o mestrado com excelência também. Agora era professor interino e tinha um doutorado pela frente. — Ah, qual é? — o fitou com deboche. — Quantos anos você tem? — 21. — Então é um gênio? — É o que parece. — Deu de ombros. — E divide apartamento com um bando de universitários? — O seu tom está começando a soar ofensivo. — Você me joga uma bomba dessa e quer que acredite de primeira, preguiçoso? — Tahira sorriu, nem um pouco preocupada com os seus sentimentos. — Qual é a história? Por que não tem a sua própria casa como um professor normal? A faculdade não paga tão bem? — Primeiro me oferece carona, agora quer saber da minha vida? — zombou. — Se te conhecesse a mais de dois dias, diria que está tentando virar a minha amiga. — Esquisitão! — o insultou, ainda rindo, manobrou para entrar no estacionamento da faculdade. Eram diferentes, obviamente, mas talvez isso fosse uma coisa que pudesse se acostumar todas as manhãs — não o drama do conflito, apenas a conversa descontraída — meio a contragosto, sentiu uma onde de esperança aflorar. [Noite] Habilidosamente, Tahira amassou a ricota com um garfo. Levantou a cabeça para olhar o relógio do lado da geladeira, teria tempo de sobra para terminar o kunafa antes do ensopado de carne ficar completamente pronto. Enquanto jantavam, a sobremesa esfriaria — sendo servida no ponto perfeito. A loira sorriu. Sempre gostou de cozinhar, então o acerto com a sua nova casa não seria um problema. Segundo as regras, de segunda a sexta a cozinha iria se dividir entre ela, Samuel, Nathaniel, Kalu e Nicholas — café da manhã e janta, pois como a maioria estudava ou trabalhava até a parte da tarde, o almoço era dispensável — já nos finais de semana não tinham janta, mas as duas primeiras refeições ficavam por responsabilidade do Daniel — descobriu se tratar do namorado de Kaleb que dormia lá aos fins de semana, com frequência o bastante para justificar a sua tarefa fixa. Por não saber cozinhar, Kaleb ficava incumbido da limpeza dos locais comuns do apartamento — basicamente tudo, tirando os quartos e banheiros. Hoje era o dia dela, entretanto, por ser o primeiro, os garotos não resmungaram por ficarem sem o café da manhã. — Nicholas, se você comer mais uma noz no lugar de descascá-las, teremos um problema — o ameaçou com um olhar que sempre causava efeito em Kaik, seu irmão do meio. O loiro barulhento deu-lhe um sorriso inocente, e voltou a colocar no prato a noz que iria levar a boca. Tahira o tinha persuadido/obrigado a ajudá-la com a refeição, quando Nicholas ficou zanzando a sua volta perguntando o que teria para comer, mexendo nas panelas e devorando tudo que pudesse colocar nas mãos. Depois de um grito, Kaleb havia desistido de participar e agora jogava videogame com Nathaniel na sala. Samuel ainda não tinha chegado — nem Kalu. — Nunca comi uma sobremesa feita com macarrão. — Nicholas falou ao terminar de descascar as nozes. Ele começou a juntar as cascas que haviam caído pela mesa num montinho para jogá-las na lixeira. — Imagino que não, a comida ocidental é muito diferente da minha terra natal. — Se esticou para diminuir o fogo, abriu a tampa da grande panela, jogou dez ovos cozidos e partidos ao meio, depois voltou a fechá-la. — Cozinhar algo típico me traz lembranças de casa, espero que gostem. — Bem, lasanha é minha comida preferida e é feita de macarrão, isso não pode ser tão r**m. — Nicholas falou sendo simpático. Tahira abriu a boca para dizer que, muito provavelmente o outro comeria até mesmo pedras temperadas, visto o seu apetite, porém, foi interrompida pela chegada de Kalu. Ele tinha os braços lotados com duas bolsas de compras, havia amarrado o casaco na cintura e dobrando as mangas da camisa social, o que deixou as suas tatuagens tribais completamente amostra. Tahira gostou mais daquilo do que deveria. — Me ajuda com isso. — Se dirigiu a Nicholas. — Tem mais bolsas lá fora. — Sem problemas. — Com a sua habitual energia, ele levantou e saiu pela porta. Essa era outra regra da casa, não existiam etiquetas ou divisão em relação à comida, afinal, com o apetite voraz e descuidado de alguns moradores, a confusão seria certa — explicação feita por Nathaniel — então, todos contribuíam mensalmente com um valor, e uma vez na semana alguém tinha a missão de fazer as comprar conforme a lista deixada na porta da geladeira. Toda vez que algo acabava, ou que você precisasse, era só colocar na lista — se fosse algo muito específico, acompanhado de marca e quantidade. — Conseguiu dar a sua aula? — perguntou a loira sem tirar os olhos do que fazia. Ainda se sentia um pouco culpada por sua atitude imatura de mais cedo. Agora, após martelar a questão durante o dia todo, podia admitir a verdade: havia ficado magoada por ele não estar lá para recebê-la quando chegou, e aquela tinha sido a forma encontrada para uma retaliação. No fim das contas, apesar de ser seu colega de quarto, Kalu não tinha obrigação de ser cortês ou fazê-la se sentir confortável — no lugar de uma intrusa inconveniente que teria que aguentar. — Sim, os meus alunos não são muito, mas são pontuais. — Ele começou a tirar as coisas de dentro das sacolas e guardar nos armários. — O que está cozinhando? Tem um cheiro bom. — Se chama kunafa, é uma sobremesa típica do meu país. — Uma feita com macarrão? — Sim — o reconhecimento aqueceu seu coração. — Já comeu? — Sim, uma vez. — Começou a colocar garrafas de leite dentro da geladeira. — O meu amigo Caio é obcecado por comida, sempre me arrastava até restaurantes novos para experimentar pratos diferentes. — Parou para encará-la daquela forma preguiçosa, que fazia coisas estranhas reviraram na barriga dela, fazendo Tahira prender o ar por alguns segundos. — É muito gostoso. — Cara, diz que trouxe o meu konnyaku, todo mundo sempre esquece. — Um Nicholas esbaforido entrou na cozinha e despejou as suas sacolas em cima da mesa sem o mínimo cuidado. — Se está na lista, eu comprei. — Kaluanã respondeu ameno. — Todo mundo esquece porque esse troço é horrível, só você come. — Kaleb se meteu na conversa ao entrar na cozinha. — Quem teve a ideia brilhante de fazer uma geleia de batata, de BATATA? — É mais gostoso do que as porcarias de morango que você fica se entupindo. — Nicholas defendeu-se. Enquanto terminava de preparar a refeição, Tahira foi engolfada pelos diálogos dos meninos. Ao terminar de guardar as coisas, Kalu foi tomar banho e em dado momento Nathaniel apareceu para oferecer ajuda, que ela aceitou. Nathan era metódico nos seus movimentos, sua presença muito sólida, mas apesar da postura serena, de tempos em tempos soltava um comentário sarcástico que fazia Nicholas, Kaleb ou ela rir. Tinha mentido na entrevista, apesar de ter dois irmãos, a sua convivência poderia ser considerada muito incomum. Continua...

editor-pick
Dreame-Editor's pick

bc

A Vingança da Esposa Desprezada

read
4.8K
bc

De natal um vizinho

read
14.0K
bc

Primeira da Classe

read
14.1K
bc

O Lobo Quebrado

read
128.7K
bc

Amor Proibido

read
5.5K
bc

Sanguinem

read
4.3K
bc

Meu jogador

read
3.3K

Scan code to download app

download_iosApp Store
google icon
Google Play
Facebook