Tinha mentido na entrevista, apesar de ter dois irmãos, a sua convivência poderia ser considerada muito incomum. Órfã de mãe, ainda muito jovem, cresceu à sombra de um pai extremamente autoritário e um irmão mais novo, Gaaran, que mesmo não intencionalmente, roubou qualquer pequena hipótese de ela ser uma criança normal.
Quando decidiram sair de casa já era tarde demais, mesmo dividindo o mesmo teto, a sua relação com Kaik era… comedida. É claro que existia amor e afeto, mas não existiam demonstrações abertas, piadas internas, longos diálogos. Ambos tinham o seu próprio mundo e estavam satisfeitos em não o compartilhar.
A realidade de uma refeição barulhenta, cheia de risos, era completamente nova.
E Tahira estava adorando.
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Tahira se encolheu mais nas cobertas. Sabia o que tinha que fazer, postergar não faria com que fosse mais fácil, muito pelo contrário. A covardia não era parte da sua natureza.
Com um suspiro resignado deitou de lado para encará-lo do outro lado do quarto. O cômodo estava um verdadeiro breu, o que talvez facilitasse um pouco as coisas.
— Kalu. — Chamou-o, não era possível que ele já estivesse dormindo, havia acabado de escovar os dentes e deitar. — Kalu?
— Que foi?
A sua voz estava arrastada, mas esse era o normal dele. Algo que ela descobriu no decorrer do dia.
— Desculpa por mais cedo, eu não queria te atrapalhar. — Sentiu o seu rosto corar e agradeceu pela escuridão.
— Tudo bem, só não demore mais tanto tempo.
— Tudo bem.
Satisfeita por não ter doído tanto assim, a loira fechou os olhos, porém, voltou a abri-los quando Kaluanã completou:
— Desculpa por desligar a energia.
— Sem problemas, – ela sorriu, mesmo que ele não pudesse ver. – Foi uma boa estratégia, perdedor.
Seu sorriso aumentou ainda mais quando Kalu resmungou um: “mulher problemática”.