Será que não posso ter nem mesmo um dia de paz?
Kalu perguntou-se ao ouvir Tahira gritar o seu nome com raiva. Pelo amor de Kami, era domingo — o único dia da semana que não precisava acordar cedo — e a mulher já estava se esgoelando às, levantou a cabeça para olhar o relógio, 7h43.
Complicado.
— Não finja que está dormindo, seu preguiçoso, — esbravejou. — Quantas vezes vou ter que dizer para abaixar a tampa da privada? E que se sujar algo, limpe! — puxou as cobertas dele, furiosa. — Nós dois sabemos que o que têm entre as suas pernas não é grande o suficiente para dificultar a sua pontaria.
Kalu preparou-se para retrucar, — principalmente porque tomava muito cuidado para que ela não visse o que ele, de fato, tinha entre as pernas — mas reconsiderou, a loira era uma guerreira, gostava de conflitos e se ele desse corda ficariam ali por horas nesse jogo cansativo. Okay, ela tinha razão, as vezes — e só as vezes — ele se esquecia de abaixar a tampa, já a sujeira era mais raro ainda, só fazia quando ia mijar de madrugada — com muito sono para ser cuidadoso. Era só Tahira relevar e abaixar — ou limpar — da mesma forma que ele fazia com a maioria das manias que ela tinha. Talvez devesse começar um show toda vez que fizesse algo que não o agradasse, assim ela não pensaria que é uma colega de quarto perfeita que merece o mesmo, em contrapartida.
— Tudo bem, vou resolver isso hoje. — Jogou a coberta dele no chão e marchou a passos firmes até o banheiro.
Kalu encolheu-se para aquecer o corpo, porém, depois do silêncio suspeito da mulher problemática resolveu espiar entre os cabelos desgrenhados pelo sono para ver o que estava fazendo. Pulou da cama num instante quando a viu limpando a privado com a sua toalha de banho.
— O que pensa que está fazendo? — tirou o pano da mão dela.
— Ué, limpando a sua sujeira.
— Com a minha toalha? Eu seco o rosto com isso, Tahira.
— Pois é — colocou as mãos na cintura. — Da próxima vez que pegar esse vaso sujo vou limpar com a sua escova de dente, e você não vai saber se fiz realmente até ser tarde demais.
— Mulherzinha irritante e problemática!
— PORCO!
— c****e, por que simplesmente não transam? — um Nicholas m*l-humorado entrou no quarto, usava só a calça do pijama e tinha a cara amassada. — Aguentar as preliminares de vocês a essa hora da manhã é um saco!
— i****a! — Kalu e Tahira repetiram em uníssono, no entanto, a interferência do outro funcionou.
A loira voltou a entrar no banheiro batendo a porta com força, e Kaluanã foi para a cozinha, incapaz de encarar ela ou o amigo com o constrangimento que sentia. Não tinha mais 12 anos, não deveria ficar tão envergonhado com uma menção a sexo, obviamente não existia a menor possibilidade de fazer algo assim com Tahira, porém…
Complicado.
Apesar de ser tarefa de Daniel, resolveu fazer o café da manhã — já que tinha perdido o sono mesmo. Estranhou quando Nicholas sentou na mesa, deitando a cabeça em cima da mesma.
— Porque está dormindo no sofá?
Desde que haviam se mudado Kaleb e Nicholas tinham um acordo, aos fins de semana — por conta de Daniel — Kaleb tinha o quarto só para si. Por esse motivo, quase sempre Nicholas acabava dormindo na casa de Helena ou no quarto de Samuel — que tinha uma cama King Size que tomava conta de mais que metade do cômodo.
— Samuel brigou comigo, — Nicholas apoiou os cotovelos na mesa e sustentou a cabeça nas mãos para encarar o amigo. — Tivemos uma baita DR. Quase perdi a aula de segunda porque ficamos até de manhã discutindo.
Isso explicava o arroubo de fúria dele no seu quarto no início da semana, por isso ele tinha sido o primeiro a ouvir o despertador — e não Nathaniel — pois ainda estava acordado.
— O que você fez? — depois da manteiga derreter na frigideira, Kalu começou a colocar os ovos.
— Porque eu tenho que ter feito algo? — o loiro respondeu na defensiva, mas quando só recebeu o silêncio resolveu admitir. — Chamei ele para fazer um ménage comigo e a Helena.
— Você o quê?! — virou tão rápido para encará-lo que quase queimou a mão na frigideira.
— Ei, foi a Helena que pediu um ménage com o Samuel! — entregou, mas quando pensou que pudesse colocar a namorada como culpada, consertou a fala. — Quer dizer, não pediu exatamente o Samuel, só queria fazer com outro cara e desde que ela aceitou fazer comigo e a Iara da última vez, não era como se eu pudesse ser um cuzão e dizer não.
— Fizeram um ménage com a Iara? — era muita informação, muito mesmo, não queria ter toda aquela imagem na cabeça.
— É, elas não quiseram muito explanar a coisa e como foi uma ideia minha... — Nicholas deu de ombros, completamente alheio a palidez repentina do amigo, ou os ovos fritos que ele deixou queimar — Para ser sincero ele não foi minha primeira opção, pensei em chamar você, mas a Helena não se sentiria muito à vontade, aí escolhemos o Samuel.
— Nicholas, eu não sou bi! — “seja racional, Kalu, seja racional no meio dessa conversa louca". Começou a recitar as palavras como um mantra. — Muito menos o Samuel.
— É, sei disso.
— Olha, você sabe exatamente como funciona um ménage com dois caras? — perguntou como se falasse com uma criança.
— Claro que sei, Kalu. — O loiro respondeu com arrogância. — Não sou burro!
— Um instante. — Levantou um dedo para que ele calasse a maldita boca, apagou o fogo da frigideira e saiu da cozinha, voltou alguns segundos depois com o celular na mão. Digitou o endereço de um site pornográfico popular, procurou até achar a categoria “gay”, escolheu um vídeo aleatório e adiantou a cena até um momento muito específico.
Um silêncio contemplativo caiu entre os dois — uma mistura de surpresa e constrangimento.
— De três uma: ou você vai enfiar alguma coisa no Samuel, ou ele vai enfiar algo em você, ou ambos vão enfiar na sua namorada! — explicou com uma calma que não sentia realmente. — Você tem certeza absoluta que está preparado para fazer esse tipo de coisa com o seu melhor amigo, homem e muito, muito, complicado?
A resposta demorou para vir, e mesmo quando aconteceu foi em um tom de insegurança.
— É, talvez não.
— Pois é, converse com a Helena e conte que não está preparado para esse tipo de coisa, — sentia vontade de agredi-lo, entretanto, se controlou. — Mesmo que ela tenha cedido, Nicholas, você não é obrigado a fazer o mesmo se não se sentir confortável, — o assunto resolvido, voltou a ligar o fogo. — E pelo amor de Deus, peça desculpas ao Samuel, implore se for necessário.
Às vezes odiava profundamente o seu dever de amigo, no entanto, parte de si ficava feliz — e aliviado — pelo i****a do Nicholas ter alguém para enfiar sensatez na sua cabeça oca.