Igualdade

1101 Words
— Tahira! Todos os garotos estavam amontoados na cozinha, em frente a geladeira, contemplando o papel adesivado como se fosse um escorpião pronto para atacá-los — até mesmo Samuel, com os braços cruzados, simulando indiferença. — Qual o problema? — tinha acabado de tomar banho, vestia a calça desbotada de um pijama e uma blusa de alça, na mão levava uma toalha molhada, que muito provavelmente iria estender na área. Era domingo à noite, já tinha passado das 22h, e, com exceção de Nathaniel, que estava muito elegante com a sua calça jeans e blusa social — tinha acabado de chegar de um encontro com Tamara — o restante usava roupas desleixadas ou pijamas. — Você não pode colocar essas… essas… coisas. — Enfim Kalu encontrou a palavra na lista de compras. — Por que não? — Porque é algo muito… — Pessoal. — Ajudou Nathaniel. — Exatamente! — Nicholas, Kaleb e o próprio Kaluanã concordaram em uníssono. — Sim, da mesma forma que são os preservativos do Kaleb, os cremes de espinha do Nathaniel e o gel do Samuel. — Enumerou, impassível. — No entanto, tive que comprar todas essas coisas na minha semana. Ela tinha um ponto. Tahira já estava morando com eles há mais de um mês, tempo o bastante para encontrar o seu espaço e ter confiança para exigir igualdade de tratamento em relação aos outros moradores — não que alguma vez ela tivesse sido maleável. — Mas são… são…— Kaleb tentou retrucar, completamente desajeitado. — Absorventes? — a loira completou, vendo o desespero do rapaz. — Não é um palavrão, pode falar tranquilamente. Pelo seu tom e o brilho perverso nos olhos verdes, Kalu tinha certeza que a mulher problemática estava se divertindo com toda a situação. — E como acha que vamos passar com isso no caixa? — Samuel questionou, apesar da arrogância, também estava corado. — Da mesma forma que tive que passar um pacote de 20 unidades de preservativo lubrificado, sabor morango, com ultrarresistência, — a sua voz parecia um sibilar perigoso de uma cobra. — Olhando no fundo dos olhos da caixa enquanto ela me julgava abertamente. Nesse momento Kaleb deu um sorriso de canto — envergonhado — que poderia ser considerado um pedido de desculpas. — Não sabemos nada sobre isso, — como um bom aluno de direito, Nathaniel trouxe racionalidade à questão. — A probabilidade de errarmos é enorme, seria muito mais prático que você mesma comprasse. — Tem a marca e tipo descritos ao lado do nome, — irredutível, cruzou os braços à frente do peito. — Se forem descuidados ao ponto de errar, vão ter que voltar no mercado e trocar por outro até acertarem. — Isso é um absurdo! — explodiu Samuel. Talvez com os outros essa reação pudesse causar estremecimento seguido de um recuo, porém, Tahira Lubandji apenas ergueu o queixo e o encarou de igual para igual. — Pois é, perdedor! Se eu tive que me adaptar a vocês, os meninos chorões podem muito bem-fazer o mesmo por mim. Aquela era uma briga de titãs e Kalu era inteligente o bastante para saber onde iria parar. Tahira estava certa, afinal, só que Samuel era orgulhoso demais para ceder — sempre foi. — Okay, eu faço as compras. — Não, é a vez do Samuel, e você conhece a regra. — Repreendeu Nathaniel. — Eu sei, mas isso não é uma cortesia, — fitou o amigo rabugento. — Me deve uma, e você. — Apontou para Tahira — Sempre que precisar dessas… coisas, coloque na lista da sua semana, ou na minha. — Também pode colocar na minha — Nicholas ofereceu-se prontamente. — E na minha. — Se apressou Kaleb, completando com um sorriso. — Desculpa pelas camisinhas. — Não foi tão r**m assim, a cena até que foi engraçada. — Tahira devolveu o seu sorriso. — Obrigada, é bom saber que nem todos os fracotes têm a masculinidade frágil. _____________________ Afinal, por que mesmo tinha aceitado aquela tarefa? Kalu se perguntou ao se ver parado em frente a uma estante do supermercado lotada de prateleiras e mais prateleiras de absorventes. Havia encontrado a marca que Tahira queria, mas tinham diversos tipos: com abas, sem abas, noturnos, diurnos, seco, com gel, com oito unidades, dezesseis e trinta e dois. Quanto mais lia as embalagens, mais confuso ficava. Pensou em levar o de trinta e duas unidades, no entanto, parecia muito justo o que tinha de oito. Será que poderia estragar se ela não usasse tudo de uma vez e guardasse? Por que no Santo Inferno existia um para a manhã e outro para a noite? Tahira não havia pedido um de cada, mas talvez devesse levar. E O QUE, POR DEUS, ERA UMA ABA??? — Precisa de ajuda? Uma mulher de olhar gentil e cabelo azul aproximou-se do seu carrinho, trazia uma flor de origami no cabelo que a ele parecia muito familiar. Kaluanã sentiu o rosto quente, não estava fazendo nada de errado, não tinha motivos para se envergonhar, no entanto… — Aaah, não?! — era uma pergunta, não negativa. — Tem certeza? — Preciso comprar uma dessas coisas, dessa marca. — Apontou. — Sem abas, só que tem várias outras especificações nas embalagens, além disso, por exemplo, tem um que é noturno, outro que é toque seco. — Bem, isso depende do fluxo da sua namorada, se é intenso ou não. — O QUÊ???? — não era burro, sabia exatamente o que “fluxo” queria dizer, porém, não queria, de forma alguma, associar aquilo a Tahira ou qualquer mulher, preferia a estúpida ignorância. — Deixe-me ver o que ela escreveu? — Estendeu a mão para o papel que ele segurava. — Sim, sim! — entregou a lista como se estivesse se livrando de uma bomba. — Vejamos, se fosse noturno ela teria colocado. — Passou a mão pelas prateleiras e pegou um pacote médio com o número 16 estampado. — Esse deve servir. — O… obrigado! — De nada, — sorriu amigavelmente, colocando o absorvente no carrinho dele. — Não precisa se sentir envergonhado e com a prática vai acabar aprendendo diferenciar um do outro, da próxima vez, se tiver dúvida, pode pedir uma embalagem vazia a ela para fazer a comparação, ou uma foto. Ele não queria aprender, entretanto, desde que uma mulher problemática, teimosa e agressiva, entrou na sua vida, já não tinha mais escolha. — Vou seguir o seu conselho. — Bom, até mais! Depois que a mulher se foi, ele percebeu que não a corrigiu nenhuma das vezes em que se referiu a Tahira como a sua namorada.
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