PRESSÃO

1213 Words
Marjorie Collins Minutos depois, estou atravessando os portões da mansão Collins. E, por mais que eu tenha vivido ali por anos suficientes para conhecer cada detalhe daquela estrutura imponente, aquele lugar nunca foi, e nunca será uma casa. A mansão se ergue diante de mim com uma imponência sufocante, iluminada por luzes douradas que não aquecem, apenas exibem; cada coluna, cada janela, cada detalhe arquitetônico parece ter sido pensado não para acolher, mas para lembrar a qualquer um que entre ali qual é o seu lugar. Nada ali foi construído para conforto. Tudo foi projetado para impressionar. E, principalmente... para dominar. Mas não seria justo dizer que eu cresci completamente sozinha dentro daquelas paredes. Porque eu não cresci. Eu tive uma exceção. Uma única falha naquele sistema de interesse e crueldade velada que define os Collins. Minha avó. Ela foi a única pessoa que, em meio a tantos olhares que me mediam, julgavam e descartavam em silêncio, me olhou como se eu fosse... suficiente. A única que tocava meu rosto com carinho, não como quem avalia, mas como quem reconhece. A única que me ensinou, sem discursos, sem imposições que eu não precisava me tornar como eles para sobreviver entre eles. Mas ela não está mais aqui. Não porque deixou de existir, mas porque foi tirada daqui. Colocada em um lugar onde profissionais cuidam dela com eficiência, mas sem nenhum deles. E, desde então, essa casa deixou de ter qualquer disfarce. Sem ela, não existe equilíbrio. Não existe suavidade. Não existe nada que quebre a rigidez desse lugar. A ausência dela não cria silêncio. Ela revela a verdade fria e impenetrável que os molda. O mordomo se aproxima rapidamente com um guarda-chuva, abrindo-o sobre mim antes mesmo que eu termine de sair do carro. Outro funcionário assume o volante sem dizer uma palavra. Eu apenas entrego a chave, agradecendo com um leve movimento de cabeça educado. Porque, naquele lugar, gentileza nunca foi prioridade. E quando existe, nunca é espontânea. Subo os degraus da entrada principal sentindo o peso daquele sobrenome pressionando meus ombros como sempre fez, não como um privilégio, mas como uma cobrança constante. Uma funcionária abre a porta. E eu entro. O ar lá dentro é frio. Não há cheiro de comida. Não há som de risos. Não há vestígios de vida. Apenas silêncio. Disciplina. E aquela sensação constante de que qualquer erro, por menor que seja, pode, e vai ser usado contra você. Eu fui criada ali. Entre pessoas que brindavam juntas em jantares formais enquanto, horas depois, se destruíam em reuniões fechadas com a mesma elegância com que sorriam. Entre elogios e desprezo cuidadosamente disfarçado de educação. Filha de uma mulher que nunca foi aceita. Criada por uma família que nunca precisou dizer em voz alta o que deixava claro em cada gesto, eu estava ali por obrigação, não por escolha. E, ainda assim... eu sobrevivi. Mal consigo dar mais alguns passos em direção à escada quando a voz corta o ar. — Ah... chegou. Fecho os olhos por um segundo. Só um. O suficiente para reorganizar a expressão antes de me virar. Ela está ali. Araminta Collins. Impecável como sempre. Vestido vinho ajustado ao corpo, tecido nobre que se molda sem uma única imperfeição, um colar de diamantes repousando no colo como uma assinatura silenciosa de poder e aquele sorriso. Aquele sorriso que nunca alcança os olhos. — Não vai falar comigo, querida? Eu sorrio de volta. Educada. — Boa tarde, Araminta. — sustento o olhar. — Vejo que continua... previsível. Deve ser cansativo nunca surpreender ninguém. Está tudo bem? Ela me analisa de cima a baixo, demoradamente, como se estivesse procurando qualquer rachadura que denunciasse o que acabou de acontecer comigo. — Com certeza melhor do que você. — Imagino. Algumas pessoas realmente precisam da queda dos outros pra se sentirem relevantes. — respondo, sem alterar o tom. O sorriso dela vacila por um segundo. E isso já é uma pequena vitória. — Deve ser... devastador — ela diz, com a voz carregada de falsidade. — Descobrir tão perto do altar que você nunca foi realmente escolhida. Meu maxilar se contrai, mas minha postura permanece intacta. — Por que eu estaria devastada? — pergunto com leve desdém. — Era um contrato. E contratos podem ser encerrados. Diferente de certas obsessões... que nunca são correspondidas. Faço uma pequena pausa. E sustento o olhar dela. — E eu não me humilhei para ser escolhida. Ao contrário de quem implora por atenção e ainda assim nunca é escolhida. Vejo a raiva passar pelos seus olhos, mas ela controla. — Não fale da minha filha... — Porque não? — pergunto a cortando. — Não era ela quem queria se casar com Douglas de qualquer jeito? — pergunto sarcástica. — Mas claro, ele não quis. Ela fecha ainda mais a expressão. — Você esta jogando isso pra minha filha porque não foi capaz de segurar o seu noivo. — disse arrogante. — Segurar? — solto um sorriso baixo. — Eu não seguro homens, Araminta. Eu observo quando eles não são bons o suficiente... e deixo ir. — dou de ombros. — Não se faça de forte Marjorie, eu te conheço. É uma péssima mentirosa, com certeza está revoltada por dentro, sua coitada. Dou um passo à frente. Sorriso impecável, mas o olhar permanece firme. — Engraçado você falar de mentira... — inclino levemente a cabeça. — vindo de alguém que construiu a própria vida fingindo ser indispensável. Mas agora que já deu o seu show. Vai cuidar da sua garotinha indefesa, porque eu não me importo com a sua opinião ou achismo ao meu respeito. Ah, e quanto a coitada — deixo um leve sorriso surgir — eu não sou a mulher que precisa diminuir outras pra se sentir maior. Inclino a cabeça, quase gentil. — Mas você... sempre foi. O olhar dela endurece. — Que garota insolente e arrogante. — Curioso... porque arrogância sempre foi o único idioma que essa família respeitou. Eu só aprendi a falar fluentemente. O silêncio pesa entre nós por um instante. E eu me viro para sair, mas paro quando ela diz: — Seu pai quer falar com você. Meu estômago aperta, mas meu rosto não entrega nada. Então me viro. — Claro. — assinto devagar. ‘’Ele sempre prefere agir quando acha que eu já estou no chão.’’ — pensei. — Ele disse agora. — ela completa, com um leve sorriso que denuncia satisfação. — Está ansioso para ver a filha querida. Controlo a vontade de mandá-la à merda. Mas apenas assinto. Porque, naquele jogo... escolher as batalhas certas é o que mantém você viva. Caminho em direção ao escritório. E sinto ela vindo atrás de mim. Como se já soubesse exatamente o que está prestes a acontecer. Minha mão toca a maçaneta. Fria. E, por um segundo... eu penso na minha avó. No único olhar que nunca me julgou dentro daquela casa. No único lugar onde eu não precisava me defender. Mas essa versão da minha vida não está aqui agora. Aqui... eu estou sozinha. Respiro fundo. Apenas uma vez. E abro a porta. E, no exato segundo em que meus olhos encontram a cena diante de mim... eu paro. Porque, naquele instante, eu entendo. Ainda não acabou. Na verdade... Está só começando. Continua...
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