Uma Apresentação de algo mais

1426 Words
Verena era uma garota normal, com gostos normais e uma vida normal de mais para o meu gosto. Eu que sou eu, sentia sono só de olhar para ela, era terrível de ver. Acordava todos os dias no mesmo horário, descia as escadas com o mesmo desânimo. A sua avó já esperava por ela para tomar o café da manhã. Ela se sentava todos os dias no mesmo lugar, comia uma fatia de pão na chapa com requeijão e tomava café com leite. Pouco açúcar e muito leite... Nesse período eu não a observava muito bem, não me culpem! Era maçante e terrivelmente chato! Ela era tão chata que nem meus funcionários mais desqualificados queriam acompanhar a senhorita em seu dia a dia. Pensem só por um segundo na minha posição! Verena sabia o horário que seu pai desceria pelas escadas, atrasado como sempre, ele diria a Rute que iria apenas tomar uma xícara de café, mas acabaria sentando na mesa sob o pretexto de ler apenas o jornal. Logo mais ele pediria a ela um pão na chapa também, iria perder mais ou menos quarenta minutos em seu café da manhã. E Verena sabia disso, ela vivia todos os dias exatamente como fora o passado... E ela estava cansada daquela rotina, em seu íntimo, ela desejava sair correndo dali para algum lugar, tinha ânsia de viver a própria vida. Mas ela simplesmente estava paralisada e envolvida em sua própria rotina morna. Tinha medo do que viria a seguir, o que ela encontraria na metade do caminho? Como seria se resolvesse se rebelar? Ela fazia uma faculdade que não queria, trabalhava na empresa da família em uma função que não queria, comia o que não queria e sentia uma dificuldade aguda de reagir. Mas nunca reagia de verdade. Só imaginava, se perdia em sonhos e em fantasias montadas em sua cabeça! Dizer não pelo menos uma vez em sua vida era o seu sonho, ela desejava poder dizer um sonoro NÃO ao mamão que obrigavam ela a comer todos os dias de manhã, fruta essa que ela odiava, mas que sua avó, Ester, fazia com que Rute servisse todos os dias. Desejava dizer não ao seu pai quando era obrigada a participar de uma reunião improdutiva atrás da outra durante o seu dia. Ela desejava viver, desejava enfim ser livre. Mas como ela seria livre se as algemas que ela usava ela mesma tinha forjado? Não existe escapatória quando as amarras estão em sua mente. Não existe força nesse universo capaz de te salvar de você mesmo e de suas escolhas. E essa é a verdade, sinto muito que seja tão visceral! Sinto que a verdade seja terrível! Sinto ter começado a nossa história com aquela narrativa terrível, mas esse mundo carece de verdade. Você que está lendo carece de verdade! Alguém tem que dizer a vocês que não são especiais da forma como vocês vem pensando, por que da forma como vocês agem, você são os grandes reis desse universo, quando a realidade é que são baratas. Na verdade a relevância da barata é muito maior... Ou vocês nunca ouviram aquele papo de que quando a terra for atacada por um asteroide, ou alguma ameaça os únicos serem que sobrarão serão as baratas? Pensem nisso só por um momento... Vocês colocam a própria vida em um pedestal, e aí um ser que vocês desprezam possui uma capacidade muito maior de sobrevivência que vocês. Bem, eu considero isso terrivelmente humilhante, vocês não? Verena era mais insignificante que uma barata, por que ela tinha todo o poder de viver uma vida sublime mas havia escolhido simplesmente...não viver. Foi desistindo no meio do caminho, e apesar da pouca idade já se comportava como alguém entregue a mim. Vamos apresentar para que vocês conheçam ela mais profundamente do que por um simples café da manhã. Verena era uma moça alta, seu corpo escultural chamava atenção de todos, ela sabia que era bonita, mas sempre se escondia atrás de roupas que não demonstravam isso da forma correta. Eu sei o que vocês estão pensando "ah mas ela é bonita então, fresca demais!" Mas não era nem assim, não podia ser demais, nada ali podia ser demais. Sem maquiagem demais Sem muita demonstração de afeto genuíno Sem barulho demais Sem vontade de mais Então estava sempre com um Jeans e uma camiseta branca, prendia o cabelo longo e loiro em um coque desses que vemos nessas frescas do Tumblr, no maior estilo padrão que eu chamo de "por que caralhos está todo mundo igual" Verena escondia o rosto com um óculos que não estava na moda fazia uns bons anos. Apesar de toda a riqueza e todo o dinheiro que sua família ostentava ela se permitia ficar com os pés no chão! ou ser relaxada em tradução livre. Verena estudava administração de empresas, a sugestão foi do seu pai, que planejou um futuro brilhante para a filha á frente dos negócios da família. Por mais que ela quisesse fazer história, ela se rendeu as vontades do pai... Aceitou de bom grado aquele destino, afinal de contas, não podia reclamar de nada! Estava “feliz” em sua gaiola apática de ouro. Ela se arrastava até a faculdade, se arrastava até a industria de sua família, se arrastava a até a sua casa. Se perdia em livros, ela os amava por que podia viajar o mundo inteiro sem nem ao menos sair do seu quarto. Seu pai achava que ela era sonhadora demais, e sempre que podia a puxava para a realidade. Mas sempre para a realidade dele, nunca uma realidade do ponto de vista do umbigo de outra pessoa. Verena, era cumpridora de suas obrigações, sempre que podia ajudava á todos sem esperar NADA em troca. Era o muro de arrimo emocional de sua família, que desde a morte de sua mãe já não era a mesma. A propósito eu busquei Helena em uma linda tarde de inverno, ela já não aguentava mais o “câncer” ~ vamos chamar apenas assim ~ que a corroía. Ela tinha medo, mas chegou quase a implorar pelo meu toque. No fundo ela temia que a filha se lembrasse dela sempre assim... Doente. No dia que a história de Helena se acabou, quando caminhei pelos corredores da mansão eu vi uma garotinha loira, me olhando tão desconfiada quanto possível, os olhos brilhavam curiosos para mim. Eu podia jurar que ela havia me visto de verdade, e isso não era para acontecer, e eu nem sei por que aconteceu! Quando olhou para mim ela sorriu... Entrou para dentro de seu quarto novamente e voltou a tomar o seu chá imaginário com seus amigos imaginários. Essa menina, como vocês podem imaginar, era Verena. Tá bom, não contei como se fosse um grande mistério... não sou boa com enrolação! Ela pensou nisso durante muito tempo no tempo que se seguiu a morte de sua mãe, mas se convenceu de que aquilo não passava de um devaneio de sua cabeça. Passou pelos melhores psicólogos que o dinheiro poderia comprar, mas mesmo assim nunca esqueceu o meu rosto. Eu podia ouvir quando ela pensava em mim, é claro que ela não imaginou que eu fosse a morte. Ela pensava que eu era um anjo, que eu tinha chegado para aliviar o sofrimento de sua mãe. Verena não estava errada, inclusive era difícil que ela viesse a errar! Ela ficou agradecida pela minha visita, e quando finalmente foi anunciada a morte de sua mãe, ela não chorou e não fez birra. Ela permaneceu em silêncio, observando enquanto o seu pai perdia o controle totalmente. Helena era de fato o amor da vida de Marcos, e ele jamais seria o mesmo sem ela. Eu podia sentir os sentimentos dele quando olhava para a filha, que era uma cópia escrita de sua mãe, doía demais, mas ele ficava grato todas às vezes. Por que o pedaço dele e de Helena estava ali vivo. Quando isso aconteceu Verena tinha cinco anos de idade. Essa era a beleza dela, vocês conseguem compreender? Mesmo dentro de sua mesmice o que dava a ela o poder de me enxergar? Se é que de fato ela me viu. Helena, era uma alma tão sublime que eu fiz questão de buscar pessoalmente. Mas a realidade é que eu nunca me esqueci daquela garotinha franzina usando um vestidinho vermelho, de sorriso brilhante e olhar profundo. Ela causou um efeito em mim, assim como eu causei um efeito nela. Que d***a, eu me afeiçoei! E eu não podia me afeiçoar!
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