Dois dias haviam se passado desde a última conversa intensa com Ellie. Para Gustavo, o tempo parecia se arrastar em um ritmo diferente, marcado apenas pelos batimentos constantes das máquinas do hospital e pelo subir e descer suave do peito da mulher que ele amava.
Ele permanecia ali, incansável. Dormia pouco, comia quando lembrava, mas não se afastava dela nem por um segundo. Cuidava de Ellie com o mesmo zelo silencioso de sempre, atento a cada movimento, a cada respiração.
Naquela manhã, Ellie dormia profundamente, o rosto sereno apesar de tudo que havia enfrentado. O celular de Gustavo vibrou em seu bolso. Ele imediatamente se levantou com cuidado, ajeitou o lençol sobre ela e saiu discretamente do quarto antes de atender.
— Senhor Gustavo — informou a voz do outro lado da linha, profissional e respeitosa. — Está tudo pronto. A casa foi adquirida conforme solicitado. Já está totalmente mobiliada, com todos os pertences que o senhor mandou transportar. Fica em um condomínio de altíssimo padrão, extremamente seguro, com vigilância armada e monitoramento vinte e quatro horas. Localizada em um estado vizinho, exatamente como o senhor pediu. Tudo foi instalado seguindo suas instruções.
Gustavo fechou os olhos por um instante e soltou um suspiro lento. Um alívio contido percorreu seu peito. Aquilo não era apenas uma casa. Era um escudo.
— Perfeito — respondeu com firmeza. — Mantenham tudo em sigilo absoluto.
Ao desligar, ficou alguns segundos parado no corredor, olhando para o nada. Era o primeiro passo concreto para manter Ellie e o bebê fora do alcance de Marlon.
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Mais tarde, saiu para tomar um pouco de ar. O hospital estava mais silencioso naquele horário. No jardim lateral, encontrou a mãe de Ellie sentada em um banco, levemente balançando o corpo, como se tentasse acompanhar o movimento do vento. Os olhos estavam fechados, mas a tensão em seus ombros denunciava que não descansava de verdade.
Gustavo se aproximou devagar e sentou-se ao lado dela.
— Minha sogra… — chamou com suavidade. — A nossa nova casa já tá pronta.
Ela abriu os olhos imediatamente, virando-se para ele com uma mistura de esperança e medo.
— A gente vai se mudar pra outro estado, aqui pertinho — continuou ele, calmo. — Um condomínio fechado, muito seguro. Casa grande, no mesmo padrão da que morávamos… só que muito mais protegida. Já providenciei a mudança e coloquei a antiga casa à venda. Não vamos mais voltar pra lá.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, que ela tentou conter.
— Gustavo… — a voz saiu trêmula. — Mas esse homem… será que ele não consegue achar a gente mesmo assim? Eu tenho tanto medo… medo até de sair na rua.
Gustavo segurou as mãos dela com firmeza, encarando-a com convicção.
— A senhora pode confiar em mim. — A voz dele era baixa, mas inabalável. — A senhora, a Ellie e o nosso bebê são tudo pra mim. Eu vou proteger vocês com a minha própria vida, se for preciso. Ele nunca mais chega perto dela. Nem do nosso filho. Eu juro.
Ela respirou fundo, sentindo a segurança nas palavras dele.
— Eu… eu queria ir até a casa. Ver se tá tudo certo, se chegou tudo direitinho…
— Claro — respondeu de imediato. — Vou chamar meus seguranças agora. Eles levam a senhora com todo o conforto e segurança. A senhora pode ficar lá o tempo que quiser. Quando quiser voltar, é só avisar.
Ela o abraçou, emocionada.
— Obrigada, meu genro… você tem sido um anjo pra minha filha.
Gustavo sorriu, mas por dentro permanecia alerta. Ele sabia: Marlon ainda não tinha feito seu último movimento.
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No fim da tarde, uma van preta, de vidros escuros, estacionou discretamente na entrada lateral do hospital. Dois seguranças desceram, cumprimentaram Gustavo com um aceno firme e abriram a porta para a sogra dele.
Ela olhou uma última vez para o hospital. Pensou na filha grávida, frágil, lutando para se recuperar. Levou a mão ao peito e murmurou uma oração silenciosa antes de entrar no veículo.
— Pode ficar tranquila, senhora — garantiu um dos seguranças. — Vamos direto para o condomínio. Lá já tem equipe aguardando.
Durante o trajeto, ela observava a cidade pela janela, em silêncio. Cada quilômetro percorrido parecia deixá-la mais distante da dor que Marlon havia causado. Quando os portões altos do condomínio se abriram, ela prendeu a respiração.
A casa era imensa. Moderna, imponente. Cercada por muros altos, câmeras por todos os lados, jardins bem cuidados. Não era apenas um lar — era uma fortaleza.
Ao entrar, encontrou tudo no lugar. Os móveis, os quadros da família, o quarto do bebê decorado com cuidado, em tons suaves. O cheiro de madeira nova misturava-se ao perfume leve de lavanda.
Ela caminhou devagar, tocando cada objeto como se precisasse se certificar de que aquilo era real. Ao entrar no quarto do casal, viu as roupas organizadas, um porta-retrato com Ellie sorrindo ao lado de Gustavo… e ali desabou.
Sentou-se na cama e chorou baixinho. Chorou pela filha. Pelo neto. E pela esperança de um recomeço.
Ligou para Gustavo, com a voz embargada.
— A casa tá linda… tá tudo perfeito. Obrigada… por cuidar da minha menina como ninguém nunca cuidou.
— Fico feliz que a senhora gostou — respondeu ele, aliviado. — Pode ficar aí o tempo que quiser.
— Vou passar a noite aqui… organizar umas coisas… deixar tudo com a cara da Ellie.
— Fica à vontade. Eu fico com ela aqui. Tá tudo bem.
Naquela noite, ela dormiu naquele novo lar sentindo, pela primeira vez em muito tempo, um pouco de paz.
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De madrugada, o quarto do hospital estava em silêncio. Apenas a luz azulada das máquinas iluminava o ambiente. Gustavo dormia na cadeira, com a cabeça apoiada na cama, segurando a mão de Ellie.
Um gemido baixo o despertou.
— A… ai…
Ele ergueu a cabeça imediatamente.
— Oi, meu amor… tá doendo?
— Tá… dor…
— Calma. Eu tô aqui.
Chamou as enfermeiras, que entraram rapidamente e aplicaram a medicação. Durante todo o tempo, Gustavo permaneceu ao lado dela, acariciando sua testa, sussurrando palavras suaves até vê-la relaxar novamente.
Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu o quarto. Ellie acordou devagar. Gustavo abriu os olhos no mesmo instante.
— Bom dia, minha princesa… tá melhor?
— Sim…
— E a mãe? — perguntou ela, com dificuldade.
— Tá bem. — Ele sorriu, segurando a mão dela. — Tá na nossa nova casa. Segura, protegida. Descansando. Tudo do jeito que você merece.
Os olhos de Ellie se encheram de lágrimas silenciosas.
— Obrigado… amor…
Gustavo beijou sua testa, sentindo o peso da responsabilidade — e do amor — que carregava.
E a guerra ainda nem tinha começado.