A luz da manhã invadia o ateliê improvisado no último andar da mansão.
O espaço não existia uma semana atrás.
Agora, as paredes estavam cobertas por telas em branco, prateleiras organizadas com tintas importadas, pincéis separados por espessura, iluminação direcionada milimetricamente. Nada ali era improvisado de verdade. Era planejado. Pensado. Calculado.
No centro da sala, Ellie observava uma tela vazia.
Dias antes, entre uma conversa distraída e outra, ela mencionara que na adolescência amava desenhar. Que a arte era seu refúgio. Que, quando pintava, o mundo silenciava.
Marlon ouviu.
Ele sempre ouvia.
Na manhã seguinte, o ateliê estava pronto.
— Você disse que gostava de pintar — ele falou, com aquele sorriso que misturava orgulho e posse. — Agora você tem seu próprio espaço. Quero que pinte o que sentir. Só quero que você seja feliz.
Ellie chorou nos braços dele.
Porque era isso que ele fazia.
Ele transformava carências em presentes. Traumas em luxo. Vazio em dependência.
E aos olhos dela, aquilo era amor.
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Descalça, com uma camisola branca fina e os cabelos presos de qualquer jeito, Ellie mergulhou o pincel no azul celeste.
Os movimentos eram leves. Instintivos.
Na tela surgia um céu aberto. Um campo vasto. Uma mulher de braços erguidos, como se estivesse finalmente livre.
Ironia c***l.
No andar de baixo, diante de uma parede de monitores, Marlon a observava.
O café ao lado dele esfriava intocado. Seus olhos não piscavam.
— Linda… — murmurou para si. — Você não nasceu pra pertencer ao mundo. Você nasceu pra pertencer a mim.
O celular vibrou.
— Fala, Gabriel.
— Tudo limpo, chefe. Nenhum rastro deixado pelo casal. Dispositivos destruídos. Nenhuma ponte feita.
Marlon continuava olhando para a tela onde Ellie sorria, suja de tinta.
— Ótimo. Agora redireciona os IPs deles. Quero atividade simulada. Postagens falsas. Movimentação digital. Que pareça que viajaram. Nada pode levantar suspeita.
— Entendido.
Ele desligou.
Subiu as escadas devagar, como se estivesse entrando em um templo.
Parou na porta do ateliê e apenas a observou por alguns segundos.
— Eu tô apaixonada por essa sensação… — ela disse, sem notar sua presença. — Parece que eu consigo respirar de novo.
— E eu sou o homem mais feliz do mundo por ver você assim.
Ela se virou e correu até ele.
— Obrigada por tudo isso. Por cuidar de mim.
Ele a abraçou, enterrando o rosto nos cabelos dela.
— Eu sempre vou cuidar.
A frase era doce.
Mas tinha peso de promessa.
E de ameaça.
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Os dias passaram.
Seis quadros finalizados.
Em todos, mulheres olhando horizontes. Campos abertos. Penhascos. Céus amplos.
Liberdade pintada por alguém que não sabia que estava presa.
Naquela manhã, Ellie trabalhava em uma nova tela — uma mulher sentada à beira de um penhasco, o véu voando ao vento.
A porta se abriu suavemente.
Jéssica entrou com uma bandeja de frutas e pães.
— Reforço pra artista mais talentosa dessa casa.
Ellie sorriu, animada.
— Você viu como esse ficou? Parece que quanto mais eu p***o, mais eu consigo respirar.
Jéssica observou a tela com atenção genuína.
— Você tem um dom. Dá pra sentir você aqui dentro.
Ellie se emocionou.
— Eu achei que nunca mais fosse sentir essa calma… desde o incêndio… desde tudo.
Ela hesitou.
— Às vezes eu sei que estou presa. Mas… eu me sinto tão protegida. Tão cuidada. E eu amo ele.
Jéssica a abraçou.
Mas, por dentro, sabia.
Sabia que aquela proteção tinha sido construída com sangue. Sabia que o mundo de Ellie era uma maquete perfeita. Sabia que o irmão não libertava nada — ele possuía.
— Então pinta isso — Jéssica disse suavemente. — Pinta essa dúvida. Esse amor. Essa confusão.
Ellie assentiu.
— Mesmo que ninguém veja… essa sou eu.
Jéssica saiu em silêncio.
Do corredor, cruzou com Marlon.
Ele não perguntou nada.
Ela também não.
Os dois sabiam.
No andar de cima, Ellie pintava liberdade.
No andar de baixo, câmeras continuavam gravando cada movimento.
A mansão era linda. Segura. Impecável.
Uma jaula de ouro.
E Ellie… sorria dentro dela.