O silêncio da madrugada envolvia a mansão como um véu espesso. Apenas o som distante do vento batendo contra as árvores quebrava a quietude. Ellie dormia profundamente, encolhida entre os lençóis, o rosto sereno, alheia a tudo que se movia ao redor dela.
Marlon estava acordado.
Sentado na poltrona próxima à cama, ele observava cada detalhe do rosto dela como se estivesse gravando sua imagem na memória. O brilho suave do abajur desenhava sombras em suas feições, tornando-o ainda mais fechado, mais impenetrável. Em uma das mãos, o celular; na outra, um copo de uísque intocado.
A tela exibia relatórios. Gráficos. Nomes codificados. Países diferentes. Interessados demais.
O sucesso de Ellie tinha sido mais rápido do que ele havia previsto.
— Dez mil visitas… — murmurou para si mesmo. — Não. Isso já passou de admiração.
Ele deslizou o dedo pela tela, lendo mensagens de colecionadores que pediam contato direto com a artista, convites velados para eventos privados, propostas “exclusivas”. Nada passava despercebido. Nada ficava sem resposta — pelo menos, não sem passar primeiro pelo filtro dele.
Marlon fechou o celular lentamente e voltou o olhar para Ellie.
Ela se mexeu na cama, suspirou baixinho e apertou o travesseiro contra o peito, como se procurasse algo em sonho. Ele se levantou, caminhou até a beira da cama e passou os dedos com cuidado pelos cabelos dela, num gesto quase devoto.
— Você não faz ideia do que despertou… — sussurrou.
Ele não sentia ciúme comum. Não era insegurança. Era posse. Proteção levada ao extremo. O mundo não sabia lidar com coisas belas sem tentar corrompê-las, tocar, tomar. E ele não permitiria.
Nunca.
No dia seguinte, Ellie acordou com o cheiro de café fresco e pão quente. A luz do sol invadia o quarto, suave, dourada. Ela sorriu antes mesmo de abrir os olhos.
Na cozinha, Marlon já estava impecável, camisa branca, mangas dobradas, o semblante sereno demais para alguém que havia dormido tão pouco.
— Bom dia — ela disse, se aproximando e deixando um beijo rápido em seu rosto.
— Bom dia, minha artista — respondeu ele, servindo café para os dois.
Ela sentou-se à mesa animada, pegando o tablet.
— Você viu? — disse, empolgada. — Tem um crítico francês que comentou uma das telas. Ele escreveu que minha arte “transborda silêncio e tensão”. Isso é tão… eu.
Marlon sorriu, mas seus olhos ficaram atentos.
— Vi, sim. Já cuidei da resposta.
— Cuidou?
— Claro. Mantive tudo profissional. Distante. Seguro.
Ela assentiu, confiando sem questionar. Nunca questionava.
— Sabe — disse Ellie, depois de um gole de café — às vezes eu penso em como minha vida seria diferente se eu estivesse lá fora… vivendo tudo isso de outra forma.
Ele apoiou o cotovelo na mesa, observando-a com calma.
— E você sente falta disso?
Ela pensou por alguns segundos.
— Não exatamente. Aqui eu me sinto… protegida. Livre do jeito que dá.
Ele se levantou, contornou a mesa e parou atrás dela, apoiando as mãos em seus ombros.
— Liberdade não é sobre onde você está — disse, baixo. — É sobre quem cuida de você enquanto o mundo tenta te devorar.
Ellie fechou os olhos por um instante, sentindo o toque dele, acreditando em cada palavra.
— Então eu sou livre — murmurou.
Marlon sorriu.
Mas não respondeu.
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Em outro ponto da cidade, Otávio analisava novos relatórios. Um nome chamou sua atenção. Um investidor americano insistente demais. Curioso demais.
Ele digitou algumas linhas, puxou históricos, cruzou dados.
— Hm… — murmurou. — Isso pode virar um problema.
Pegou o telefone e discou a linha segura.
— Marlon, temos um possível risco. Nada concreto ainda, mas alguém começou a fazer perguntas demais.
Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos.
— Elimina o interesse — respondeu Marlon, por fim. — Antes que vire intenção.
Otávio assentiu, mesmo sem ser visto.
— Entendido.
Ao desligar, ele olhou novamente para a tela.
Ellie estava brilhando.
E tudo que brilha… atrai sombras.
Mas, enquanto Marlon estivesse no controle, nenhuma delas chegaria perto o suficiente para tocá-la.
Mesmo que, para isso, ele precisasse apagar o mundo ao redor.