Tela viva

697 Words
O silêncio da madrugada envolvia a mansão como um véu espesso. Apenas o som distante do vento batendo contra as árvores quebrava a quietude. Ellie dormia profundamente, encolhida entre os lençóis, o rosto sereno, alheia a tudo que se movia ao redor dela. Marlon estava acordado. Sentado na poltrona próxima à cama, ele observava cada detalhe do rosto dela como se estivesse gravando sua imagem na memória. O brilho suave do abajur desenhava sombras em suas feições, tornando-o ainda mais fechado, mais impenetrável. Em uma das mãos, o celular; na outra, um copo de uísque intocado. A tela exibia relatórios. Gráficos. Nomes codificados. Países diferentes. Interessados demais. O sucesso de Ellie tinha sido mais rápido do que ele havia previsto. — Dez mil visitas… — murmurou para si mesmo. — Não. Isso já passou de admiração. Ele deslizou o dedo pela tela, lendo mensagens de colecionadores que pediam contato direto com a artista, convites velados para eventos privados, propostas “exclusivas”. Nada passava despercebido. Nada ficava sem resposta — pelo menos, não sem passar primeiro pelo filtro dele. Marlon fechou o celular lentamente e voltou o olhar para Ellie. Ela se mexeu na cama, suspirou baixinho e apertou o travesseiro contra o peito, como se procurasse algo em sonho. Ele se levantou, caminhou até a beira da cama e passou os dedos com cuidado pelos cabelos dela, num gesto quase devoto. — Você não faz ideia do que despertou… — sussurrou. Ele não sentia ciúme comum. Não era insegurança. Era posse. Proteção levada ao extremo. O mundo não sabia lidar com coisas belas sem tentar corrompê-las, tocar, tomar. E ele não permitiria. Nunca. No dia seguinte, Ellie acordou com o cheiro de café fresco e pão quente. A luz do sol invadia o quarto, suave, dourada. Ela sorriu antes mesmo de abrir os olhos. Na cozinha, Marlon já estava impecável, camisa branca, mangas dobradas, o semblante sereno demais para alguém que havia dormido tão pouco. — Bom dia — ela disse, se aproximando e deixando um beijo rápido em seu rosto. — Bom dia, minha artista — respondeu ele, servindo café para os dois. Ela sentou-se à mesa animada, pegando o tablet. — Você viu? — disse, empolgada. — Tem um crítico francês que comentou uma das telas. Ele escreveu que minha arte “transborda silêncio e tensão”. Isso é tão… eu. Marlon sorriu, mas seus olhos ficaram atentos. — Vi, sim. Já cuidei da resposta. — Cuidou? — Claro. Mantive tudo profissional. Distante. Seguro. Ela assentiu, confiando sem questionar. Nunca questionava. — Sabe — disse Ellie, depois de um gole de café — às vezes eu penso em como minha vida seria diferente se eu estivesse lá fora… vivendo tudo isso de outra forma. Ele apoiou o cotovelo na mesa, observando-a com calma. — E você sente falta disso? Ela pensou por alguns segundos. — Não exatamente. Aqui eu me sinto… protegida. Livre do jeito que dá. Ele se levantou, contornou a mesa e parou atrás dela, apoiando as mãos em seus ombros. — Liberdade não é sobre onde você está — disse, baixo. — É sobre quem cuida de você enquanto o mundo tenta te devorar. Ellie fechou os olhos por um instante, sentindo o toque dele, acreditando em cada palavra. — Então eu sou livre — murmurou. Marlon sorriu. Mas não respondeu. --- Em outro ponto da cidade, Otávio analisava novos relatórios. Um nome chamou sua atenção. Um investidor americano insistente demais. Curioso demais. Ele digitou algumas linhas, puxou históricos, cruzou dados. — Hm… — murmurou. — Isso pode virar um problema. Pegou o telefone e discou a linha segura. — Marlon, temos um possível risco. Nada concreto ainda, mas alguém começou a fazer perguntas demais. Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos. — Elimina o interesse — respondeu Marlon, por fim. — Antes que vire intenção. Otávio assentiu, mesmo sem ser visto. — Entendido. Ao desligar, ele olhou novamente para a tela. Ellie estava brilhando. E tudo que brilha… atrai sombras. Mas, enquanto Marlon estivesse no controle, nenhuma delas chegaria perto o suficiente para tocá-la. Mesmo que, para isso, ele precisasse apagar o mundo ao redor.
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