O dia parecia tranquilo demais.
O vento soprava leve entre as folhas do jardim, fazendo as årvores dançarem num ritmo quase bonito. O céu estava claro, o cheiro de grama recém-cortada ainda pairava no ar. Ellie caminhava sozinha, descalça, tentando convencer o próprio corpo de que aquele era um momento seguro. Precisava respirar. Precisava sentir, nem que fosse por alguns minutos, a ilusão de paz.
Ela parou.
NĂŁo foi um som.
NĂŁo foi um movimento claro.
Foi uma sensação.
O coração travou no peito, como se tivesse reconhecido o perigo antes mesmo da mente processar. Um arrepio cortou sua espinha. O ar pareceu pesado demais para entrar nos pulmÔes.
Ela virou devagar.
E o mundo desabou.
Marlon estava ali.
Parado a poucos metros dela, imóvel, elegante, o olhar cravado nela como o de um fantasma que se recusa a desaparecer. Não parecia ofegante, não parecia apressado. Parecia⊠satisfeito.
O ar sumiu dos pulmÔes de Ellie.
As pernas ficaram fracas.
Os olhos se arregalaram, cheios de terror.
â Eu disse que viria⊠â ele sussurrou, a voz baixa, venenosa.
â NĂŁo⊠nĂŁo⊠nĂŁo⊠nĂŁo⊠â Ellie balbuciou, recuando, o pĂąnico tomando cada cĂ©lula do corpo.
Antes que pudesse correr, sombras surgiram por todos os lados.
Homens.
De dentro da casa. Do jardim lateral. Da entrada.
Um deles a segurou pelos braços com brutalidade, os dedos se cravando em sua pele.
â MARLON! NĂO! MINHA MĂE! â Ellie gritou, se debatendo em desespero. â NĂO FAZ NADA COM A MINHA MĂE! EU IMPLORO!
Marlon nĂŁo piscou.
â VocĂȘ me empurrou pra isso. â disse, frio.
Um dos capangas ergueu a arma e apontou diretamente para a mĂŁe de Ellie, que estava imĂłvel, paralisada de medo.
â NĂO! â Ellie berrou, o grito rasgando a garganta. â ME LEVA! ME LEVA NO LUGAR DELA! EU PROMETO! EU VOU COM VOCĂ! MAS NĂO TOCA NELA!
â NĂO, ELLIE! â a mĂŁe gritou, chorando. â NĂO FAZ ISSO!
â ME LEVA, MARLON! â Ellie soluçava, o corpo inteiro tremendo. â FAZ O QUE QUISER COMIGO! MAS NĂO MACHUCA ELA!
Marlon se aproximou lentamente, o rosto endurecido pela raiva.
â VocĂȘ vai comigo de qualquer jeito. â rosnou. â Calma⊠ou vocĂȘ vai passar m*l.
â ME LEVA! â Ellie gritava, desesperada. â NĂO FAZ NADA COM ELA!
Foi entĂŁo que Gustavo chegou.
Armado. Determinado. Os olhos em fĂșria.
Mas tarde demais.
O cerco jĂĄ estava fechado.
Os homens de Marlon avançaram sobre ele. Gustavo lutou, gritou, mas foi dominado, empurrado para o chão.
â CHEGOU A HORA, ELLIE. â Marlon disse, os olhos frios como gelo. â E VOCĂ VAI ASSISTIR.
â NĂO, MARLON! NĂO! â Ellie gritava, sendo segurada com força. â NĂO FAZ ISSO! PELO AMOR DE DEUS!
Os homens se posicionaram. Armas erguidas.
â PARA! PARA! â Ellie gritava, em colapso.
Marlon levantou a mĂŁo.
Tudo congelou.
â Me escuta⊠â Ellie tremia, caindo de joelhos. â Eu prometo⊠eu nĂŁo vou fugir⊠eu fico com vocĂȘâŠ
As mĂŁos tremiam tanto que m*l conseguia se apoiar.
â Eu faço tudo⊠fico em casa⊠faço o que vocĂȘ quiser⊠sĂł nĂŁo machuca eles⊠nem minha mĂŁe⊠nem ele⊠por favorâŠ
Marlon a segurou pelos braços com força.
â O homem que vocĂȘ ama sou eu! â gritou. â EU SEMPRE TE AMEI!
â Por favor⊠â Ellie soluçava. â A culpa Ă© minhaâŠ
â Ou vocĂȘ salva sua mĂŁe⊠â ele sussurrou. â Ou salva ele.
O mundo parou.
â NĂO ME FAZ ESCOLHER! â Ellie gritou, com a alma. â EU MORRERIA PELOS DOIS!
â EntĂŁo morre. â ele respondeu, irĂŽnico.
Ellie correu.
Viu a arma caĂda no chĂŁo.
Pegou.
â NĂO! â ela gritou, apontando para a prĂłpria barriga. â NĂO ME OBRIGA A ESCOLHER!
â VOCĂ TĂ LOUCA?! â Marlon berrou.
â EU PREFIRO MORRER DO QUE VIVER NESSE CATIVEIRO EMOCIONAL!
â ISSO NĂO Ă AMOR! Ă DOENĂA!
â VOCĂ Ă MINHA!
â EU NĂO SOU SUA! â ela tremia. â EU ESCOLHI! ESCOLHI O GUSTAVO!
Ela destravou a arma.
â OU SOLTA OS DOIS⊠OU EU DISPARO!
Marlon tremeu.
Desmoronou.
â Solta⊠â Ellie ordenou. â Agora.
Os homens soltaram a mĂŁe. Depois Gustavo.
â Vem. â Marlon estendeu a mĂŁo. â VocĂȘ prometeu.
Ellie respirou fundo.
â Eu prometi.
Olhou para a mĂŁe.
â Eu te amo.
Olhou para Gustavo.
â VocĂȘ Ă© o amor da minha vida.
â NĂO! â eles gritaram.
O disparo ecoou.
Um trovĂŁo.
O mundo congelou.
Ellie caiu.
Sangue.
Gritos.
Desespero.
Marlon a pegou nos braços, em choque.
â NĂO! NĂO! â gritava. â EU VOU SALVAR ELA!
O hospital virou caos.
â SOCORRO! ELA TĂ MORRENDO!
No chĂŁo, pegadas de sangue.
â Eu⊠cumpri⊠a promessa⊠â Ellie sussurrou.
â NĂO MORRE! â Marlon implorava.
Ela foi levada.
Cirurgia.
Gritos.
Horas.
â PARADA CARDĂACA!
â CHOQUE!
â VOLTOU!
O médico saiu.
â Ela estĂĄ em coma⊠â disse. â E⊠ela estĂĄ grĂĄvida.
O mundo acabou ali.
Gustavo caiu.
A mĂŁe gritou.
Marlon ouviu.
â GRĂVIDA⊠â ele berrou, em desespero.
Mais tarde, fugiu.
Covarde.
Derrotado.
Na mansĂŁo, destruiu tudo.
Chorou.
â VOCĂ TĂ GRĂVIDAâŠ
â DO FILHO DELEâŠ
Caiu no chĂŁo.
â EU VOU TE TER DE VOLTAâŠ
Prometeu.
Com Ăłdio.
Com loucura.
Com obsessĂŁo.