Ele veio đŸ˜„

874 Words
O dia parecia tranquilo demais. O vento soprava leve entre as folhas do jardim, fazendo as ĂĄrvores dançarem num ritmo quase bonito. O cĂ©u estava claro, o cheiro de grama recĂ©m-cortada ainda pairava no ar. Ellie caminhava sozinha, descalça, tentando convencer o prĂłprio corpo de que aquele era um momento seguro. Precisava respirar. Precisava sentir, nem que fosse por alguns minutos, a ilusĂŁo de paz. Ela parou. NĂŁo foi um som. NĂŁo foi um movimento claro. Foi uma sensação. O coração travou no peito, como se tivesse reconhecido o perigo antes mesmo da mente processar. Um arrepio cortou sua espinha. O ar pareceu pesado demais para entrar nos pulmĂ”es. Ela virou devagar. E o mundo desabou. Marlon estava ali. Parado a poucos metros dela, imĂłvel, elegante, o olhar cravado nela como o de um fantasma que se recusa a desaparecer. NĂŁo parecia ofegante, nĂŁo parecia apressado. Parecia
 satisfeito. O ar sumiu dos pulmĂ”es de Ellie. As pernas ficaram fracas. Os olhos se arregalaram, cheios de terror. — Eu disse que viria
 — ele sussurrou, a voz baixa, venenosa. — NĂŁo
 nĂŁo
 nĂŁo
 nĂŁo
 — Ellie balbuciou, recuando, o pĂąnico tomando cada cĂ©lula do corpo. Antes que pudesse correr, sombras surgiram por todos os lados. Homens. De dentro da casa. Do jardim lateral. Da entrada. Um deles a segurou pelos braços com brutalidade, os dedos se cravando em sua pele. — MARLON! NÃO! MINHA MÃE! — Ellie gritou, se debatendo em desespero. — NÃO FAZ NADA COM A MINHA MÃE! EU IMPLORO! Marlon nĂŁo piscou. — VocĂȘ me empurrou pra isso. — disse, frio. Um dos capangas ergueu a arma e apontou diretamente para a mĂŁe de Ellie, que estava imĂłvel, paralisada de medo. — NÃO! — Ellie berrou, o grito rasgando a garganta. — ME LEVA! ME LEVA NO LUGAR DELA! EU PROMETO! EU VOU COM VOCÊ! MAS NÃO TOCA NELA! — NÃO, ELLIE! — a mĂŁe gritou, chorando. — NÃO FAZ ISSO! — ME LEVA, MARLON! — Ellie soluçava, o corpo inteiro tremendo. — FAZ O QUE QUISER COMIGO! MAS NÃO MACHUCA ELA! Marlon se aproximou lentamente, o rosto endurecido pela raiva. — VocĂȘ vai comigo de qualquer jeito. — rosnou. — Calma
 ou vocĂȘ vai passar m*l. — ME LEVA! — Ellie gritava, desesperada. — NÃO FAZ NADA COM ELA! Foi entĂŁo que Gustavo chegou. Armado. Determinado. Os olhos em fĂșria. Mas tarde demais. O cerco jĂĄ estava fechado. Os homens de Marlon avançaram sobre ele. Gustavo lutou, gritou, mas foi dominado, empurrado para o chĂŁo. — CHEGOU A HORA, ELLIE. — Marlon disse, os olhos frios como gelo. — E VOCÊ VAI ASSISTIR. — NÃO, MARLON! NÃO! — Ellie gritava, sendo segurada com força. — NÃO FAZ ISSO! PELO AMOR DE DEUS! Os homens se posicionaram. Armas erguidas. — PARA! PARA! — Ellie gritava, em colapso. Marlon levantou a mĂŁo. Tudo congelou. — Me escuta
 — Ellie tremia, caindo de joelhos. — Eu prometo
 eu nĂŁo vou fugir
 eu fico com vocĂȘ
 As mĂŁos tremiam tanto que m*l conseguia se apoiar. — Eu faço tudo
 fico em casa
 faço o que vocĂȘ quiser
 sĂł nĂŁo machuca eles
 nem minha mĂŁe
 nem ele
 por favor
 Marlon a segurou pelos braços com força. — O homem que vocĂȘ ama sou eu! — gritou. — EU SEMPRE TE AMEI! — Por favor
 — Ellie soluçava. — A culpa Ă© minha
 — Ou vocĂȘ salva sua mĂŁe
 — ele sussurrou. — Ou salva ele. O mundo parou. — NÃO ME FAZ ESCOLHER! — Ellie gritou, com a alma. — EU MORRERIA PELOS DOIS! — EntĂŁo morre. — ele respondeu, irĂŽnico. Ellie correu. Viu a arma caĂ­da no chĂŁo. Pegou. — NÃO! — ela gritou, apontando para a prĂłpria barriga. — NÃO ME OBRIGA A ESCOLHER! — VOCÊ TÁ LOUCA?! — Marlon berrou. — EU PREFIRO MORRER DO QUE VIVER NESSE CATIVEIRO EMOCIONAL! — ISSO NÃO É AMOR! É DOENÇA! — VOCÊ É MINHA! — EU NÃO SOU SUA! — ela tremia. — EU ESCOLHI! ESCOLHI O GUSTAVO! Ela destravou a arma. — OU SOLTA OS DOIS
 OU EU DISPARO! Marlon tremeu. Desmoronou. — Solta
 — Ellie ordenou. — Agora. Os homens soltaram a mĂŁe. Depois Gustavo. — Vem. — Marlon estendeu a mĂŁo. — VocĂȘ prometeu. Ellie respirou fundo. — Eu prometi. Olhou para a mĂŁe. — Eu te amo. Olhou para Gustavo. — VocĂȘ Ă© o amor da minha vida. — NÃO! — eles gritaram. O disparo ecoou. Um trovĂŁo. O mundo congelou. Ellie caiu. Sangue. Gritos. Desespero. Marlon a pegou nos braços, em choque. — NÃO! NÃO! — gritava. — EU VOU SALVAR ELA! O hospital virou caos. — SOCORRO! ELA TÁ MORRENDO! No chĂŁo, pegadas de sangue. — Eu
 cumpri
 a promessa
 — Ellie sussurrou. — NÃO MORRE! — Marlon implorava. Ela foi levada. Cirurgia. Gritos. Horas. — PARADA CARDÍACA! — CHOQUE! — VOLTOU! O mĂ©dico saiu. — Ela estĂĄ em coma
 — disse. — E
 ela estĂĄ grĂĄvida. O mundo acabou ali. Gustavo caiu. A mĂŁe gritou. Marlon ouviu. — GRÁVIDA
 — ele berrou, em desespero. Mais tarde, fugiu. Covarde. Derrotado. Na mansĂŁo, destruiu tudo. Chorou. — VOCÊ TÁ GRÁVIDA
 — DO FILHO DELE
 Caiu no chĂŁo. — EU VOU TE TER DE VOLTA
 Prometeu. Com Ăłdio. Com loucura. Com obsessĂŁo.
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