A noite estava silenciosa, envolta em um conforto raro — quase perigoso de tão perfeito. O quarto era banhado por uma luz quente e suave vinda dos abajures, criando sombras delicadas nas paredes. Ellie estava deitada de bruços na cama, completamente relaxada, os cabelos soltos escorrendo pelos ombros nus. A respiração dela era lenta, profunda, como a de alguém que finalmente se permitia descansar.
Gustavo estava sentado ao lado dela, concentrado em cada movimento. Suas mãos firmes, treinadas para a violência quando necessário, agora eram apenas cuidado. Ele massageava lentamente as costas de Ellie, polegar por polegar, como se estivesse desfazendo, camada por camada, cada trauma que o corpo dela ainda guardava.
— Ai, meu amor… ele murmurou, com um sorriso baixo e sincero. — Isso é melhor do que eu imaginei, sabia?
Ellie soltou um suspiro longo, quase um gemido relaxado.
— Nem me fala… — respondeu com a voz macia. — Estar finalmente livre com você… — virou o rosto de leve, buscando os olhos dele — eu escolhi você, Gustavo. Escolhi ser feliz. Poder sair na rua, entrar numa loja sem medo, rir com minha mãe… fazer o que eu quiser. Não tem sensação melhor.
Ele se inclinou e depositou um beijo demorado no ombro dela, sentindo a pele quente sob os lábios. As mãos continuaram o percurso lento, descendo pelas laterais do corpo dela enquanto os dois conversavam em tom baixo, riam de lembranças bobas do shopping, falavam sobre coisas simples — cortinas, móveis, sabores de sorvete — como se aquele cotidiano fosse um luxo recém-descoberto.
Ellie então se virou de frente, apoiando-se nos cotovelos, encarando os olhos castanhos dele com uma intensidade calma, segura.
— Eu te amo, Gustavo.
Ele não hesitou um segundo.
— Eu também te amo, Ellie — respondeu com uma sinceridade que não precisava ser provada.
O beijo que veio depois foi lento, profundo, carregado de tudo que eles não precisavam mais dizer. Gustavo desceu os beijos pelo pescoço dela com cuidado, explorando sua pele como quem reconhece um território sagrado. Ellie suspirou, se entregando sem medo.
As mãos dele percorreram cada curva com paciência, como se tivesse o tempo do mundo. Quando desceu pelas coxas dela, Ellie arqueou o corpo involuntariamente, os gemidos baixos preenchendo o quarto. Não havia pressa. Não havia brutalidade. Apenas desejo misturado com respeito.
Depois foi a vez dela.
Ellie assumiu o controle, beijando o corpo dele com devoção, como se estivesse marcando aquele homem não com posse, mas com escolha. Quando o tocou com ousadia, Gustavo perdeu o fôlego, murmurando o nome dela entre respirações irregulares, completamente entregue.
Quando ele a penetrou, o fez com ternura e fome contida. Os movimentos eram profundos, íntimos, sincronizados. Não era só sexo. Era cura. Reconstrução. Era o corpo dela reaprendendo que o toque podia ser seguro.
Gustavo a amava como quem protege.
E Ellie se entregava como quem finalmente encontrou abrigo.
Depois, ficaram abraçados sob os lençóis amassados. O peito dele servia de travesseiro, os braços envolvendo-a com força suficiente para protegê-la de qualquer pesadelo.
— Eu nunca me canso de ser sua… — ela murmurou, os olhos fechados.
Ele sorriu, beijando a testa dela.
— Você é maravilhosa, meu amor. Maravilhosa…
O silêncio voltou, denso e confortável, até que Ellie respirou fundo.
— Eu não queria falar disso agora… hesitou — mas ele já deve ter voltado, né? O Marlon… Ele deve estar surtando. Procurando tudo sobre você.
Gustavo a olhou com firmeza tranquila, segurando o rosto dela.
— Não pensa nisso agora. Aqui você tá segura. Ele não tem acesso a mim. Essa cidade inteira trabalha comigo. Cada rua, cada sistema… tudo passa por mim.
— Mesmo assim… a voz dela tremeu — eu tenho medo. Não quero sair de casa por enquanto.
— Então não sai ... ele respondeu sem hesitar. — O ritmo é seu. Eu tô aqui. Sempre.
Ellie se aninhou no peito dele. Mas, no fundo, sabia: aquela paz tinha prazo. A tempestade vinha.
Cinco meses.
Cinco meses de dinheiro queimado, contatos comprados, ameaças feitas.
Até que finalmente… uma pista.
— Chefe… o segurança entrou apressado — achamos algo. Câmera de shopping. Outra cidade. Ela aparece sozinha.
Marlon levantou devagar. O sorriso que surgiu não era de alegria. Era de caça.
— Me diga onde.
O shopping estava cheio, barulhento, vivo. Ellie caminhava tranquila, de vestido preto elegante, analisando uma vitrine de joias.
Até ouvir a voz.
— Oi, Ellie.
O mundo parou.
Ela virou devagar. O coração congelou.
Marlon estava ali. Impecável. Olhar frio. Sorriso ensaiado.
— Fugiu de mim, foi?
— Não… — ela recuou — por favor… não…
— Calma — ele disse com doçura falsa — eu não vou te levar. Ainda.
Ela tentou respirar.
— Eu tô feliz… — sussurrou.
Ele riu.
— Feliz? Com outro mafioso?
— Você matou pessoas… — ela disse, quebrada — destruiu minha vida…
— E mesmo assim você me amou — ele respondeu, a voz dura.
— Foi síndrome…
O olhar dele escureceu.
— Não mente pra você mesma.
Ele tocou o rosto dela.
— Você vai voltar pra mim.
E foi embora.
Ellie desabou.
Quando Gustavo chegou, encontrou apenas uma mulher tremendo, quebrada.
— O Marlon… ela conseguiu dizer antes de se agarrar a ele como se fosse a própria vida.
Em casa, cercada pela mãe e por Gustavo, Ellie chorou.
Mas desta vez, mesmo com medo…
Ela não estava mais sozinha.