O Retorno e a Entrega

885 Words
Cheguei a Londres ainda com o corpo pesado da viagem, mas a mente já em estado de alerta. Naquele mundo, cansaço não era desculpa — era fraqueza. E eu não podia me dar ao luxo de parecer fraco. Bastou entrar na sala de reuniões para entender a dimensão do problema. A empresa do meu pai estava afundada. Dívidas acumuladas, salários atrasados, funcionários à beira do colapso. Vi nos olhos deles o mesmo medo que já vi em territórios prestes a ruir. Não havia plano B. Assumi o controle. Foram dias de reuniões intermináveis, negociações duras com bancos, conversas frias com possíveis investidores. Tudo era calculado. Cada palavra, cada silêncio. Dormia pouco. Comia quando lembrava. E, no meio do caos, a saudade dela crescia como uma obsessão silenciosa. Sempre que conseguia alguns minutos, ligava. A voz de Ellie era o único ponto de calma naquele inferno corporativo. Ela dizia sentir minha falta. Dizia que a casa estava estranhamente silenciosa sem mim. Três semanas haviam passado. Três semanas longe da mulher que, sem perceber, já era o meu eixo. Consegui a primeira vitória: os salários atrasados foram pagos. A empresa respirou novamente. Mas isso não bastava. Eu precisava garantir o futuro. Precisava de aliados fortes. Foi quando meus irmãos apareceram. Bruna e Marcelo. Fazia tempo que não nos víamos. Almoçamos juntos, como nos velhos tempos — mas agora, adultos, conscientes do peso do sobrenome que carregávamos. Contei sobre Ellie. Sobre a mudança dela. Sobre Jéssica. Eles ouviram atentos, mas não sem reservas. — Irmão… — Marcelo foi direto — tudo o que você fez pra ficar com ela foi perigoso demais. Você podia ter sido preso. Foi longe demais. Assenti. — Eu sei. Mas agora não forço nada. Não tocamos nesse assunto. Dei tempo. Dei espaço. E ela veio até mim. Marcelo me encarou com seriedade. — E se ela estiver fingindo? Só esperando você baixar a guarda? — Pensei nisso — respondi sem hesitar. — Mas eu vejo nos olhos dela. E nada acontece naquela casa sem que eu saiba. Tudo é monitorado. Bruna cruzou os braços. — E a Jéssica? — perguntou. — Não tá se aproveitando? Suspirei fundo. — Vocês não sabem o que ela passou. Contei tudo. O telefonema desesperado. O rosto dela deformado pelos hematomas. O marido bêbado, rindo no sofá. — Foi ele? — Bruna perguntou, chocada. — Foi. — Minha voz saiu baixa. — Eu perdi o controle. Resolvi o problema. Ele nunca mais tocou em ninguém. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Por que você nunca contou isso pra gente? — Marcelo perguntou. — Porque ela não quis. Tinha vergonha. Disse que ele a isolou de tudo desde o orfanato. Tirou celular, estudo, dignidade. — Que inferno… — murmurou Bruna. — Agora ela está segura. Trabalha comigo. Recomeçou. Bruna respirou fundo. — E a Brenda? — Não a vejo há meses. — pausei — Houve um último encontro. Eu estava fraco. Com raiva. Foi a última vez. Marcelo resmungou. — Eu sei. Mas depois disso tudo mudou. Quando Ellie caiu, quando se machucou… minha atenção se voltou só pra ela. Eu não quero mais ninguém. Bruna sorriu, emocionada. — Você tá apaixonado. — Estou. E vou esperar o tempo que for. Ficamos em silêncio. — Preciso resolver os investidores — comentei. Foi quando eles sorriram. — Você já resolveu — disse Bruna. — Tá olhando pra dois deles. Assinei os contratos naquele mesmo dia. Quatro semanas depois, a empresa estava de pé novamente. Forte. Respeitada. Deixei tudo organizado, coloquei meu primo como vice-presidente e voltei para casa. --- Retorno ao território Cinco horas depois, pisei em solo conhecido. O motorista já me esperava. Quando cheguei à mansão, Ellie estava na porta. Ela correu até mim e pulou no meu colo. O beijo foi intenso, cheio de saudade, de alívio. Ficamos assim por longos segundos, em silêncio. Depois veio Jéssica. O abraço foi forte. — Que saudade, irmão. Ellie sorriu. — Ela me contou tudo. Eu não poderia ter uma cunhada melhor. Subimos juntos. Ela desfez minhas malas com cuidado. Tomei banho. Quando voltei, deitei na cama e suspirei. — Que saudade da minha cama… Ellie sorriu daquele jeito provocante. — Só da cama? Ri e a puxei. Os beijos vieram naturais, carregados de desejo represado. Ela subiu sobre mim, os olhos brilhando. — Você me fez tanta falta… — Tá acontecendo mesmo? — provoquei. — Agora você é meu — sussurrou. O toque dela era diferente. Não era pressa. Era entrega. Quando me deu prazer, perdi o controle do próprio corpo. Nada do que vivi antes se comparava àquilo. Depois, ela se entregou a mim. Tomei as rédeas com firmeza, mas sem brutalidade. Beijei, conduzi, senti. Os gemidos dela eram verdadeiros. Quando pedia para não parar, eu entendia: não era submissão. Era desejo. Parei antes do limite. Com ela, eu queria mais que prazer. Depois, deitados juntos, ela sussurrou: — Você é incrível… — Eu esperei muito por isso — respondi. — Queria que fosse perfeito. Ela me olhou fundo. — Eu nunca deveria ter noivado. Nunca deveria ter ido até o altar. Com você… foi a primeira vez que me senti completamente satisfeita. Beijei sua testa. — Comigo, você sempre será. Ela sorriu. E naquele momento, soube: Ela não estava mais presa. Ela tinha escolhido ficar.
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