Um novo sentimento no ar

756 Words
Uma nova manhã, um novo olhar Acordei antes do sol terminar de nascer. A casa ainda estava em silêncio, daquele tipo que não é vazio, mas vigiado. Eu já estava sentado no sofá, um livro aberto nas mãos apenas por hábito. Meus olhos não saíam dela. Ellie dormia profundamente. Os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro como se tivessem vida própria. O rosto sereno — perigoso. A paz nela sempre me fazia esquecer, por segundos, tudo o que precisei fazer para tê-la ali. Ela se mexeu devagar. Abriu os olhos com dificuldade. A voz saiu baixa, sonolenta. — Bom dia, Marlon. Sorri. Um sorriso raro. Controlado. — Bom dia, princesa. — pausei — Vejo que hoje você acordou de bom humor. Ela sorriu de leve. Pequeno gesto. Mas, para mim, foi um sinal claro: alguma coisa tinha mudado. Não era rendição. Era transição. — Hoje você vai ter uma surpresa — disse, fechando o livro e me levantando. — Já passou da hora. Ela franziu a testa, curiosa. Ajudei-a a se levantar com cuidado. A venda veio depois. Não como imposição. Como ritual. Conduzi Ellie lentamente pelo corredor. Cada passo era calculado. Meu coração batia firme — não por nervosismo, mas por antecipação. Parei. Tirei a venda. Ela ficou imóvel. O closet se abriu diante dela como um território inteiro moldado ao seu redor. Bolsas alinhadas com perfeição cirúrgica. Saltos organizados por altura, cor, função. Uma bancada extensa com maquiagens, joias, perfumes raros. E, ao fundo, roupas. Muitas. Desde vestidos longos e elegantes até peças confortáveis, feitas para o dia a dia. Tudo pensado. Tudo escolhido. — Nossa… — a voz dela falhou. — Que lindo, Marlon. Ela me abraçou. Um abraço real. Não defensivo. Retribuí sem força, sem posse. Apenas presença. — Isso é só o começo — murmurei ao ouvido dela. — Você merece isso. E muito mais. Saí e a deixei ali. Algumas coisas precisam ser absorvidas sem testemunha. --- Tomei banho, tomei café e fui para a empresa. O dia foi produtivo. Reuniões, decisões, contratos. Mas uma exigia minha presença em Londres. Uma viagem inevitável. Nos dias seguintes, Ellie mudou. Não abruptamente. Mas de forma perceptível. Falava mais. Perguntava. Sorria. Às vezes, esquecia de manter a distância. E cada vez que isso acontecia, eu sentia que o cerco emocional se fechava — não por força, mas por escolha. Jéssica também percebia. As duas criaram uma ligação silenciosa, quase instintiva. Aquilo me tranquilizava. Eu não precisava estar sempre presente para controlar tudo. A casa sabia se manter. --- Cheguei mais cedo em um desses dias. Ellie estava à beira da piscina, deitada na espreguiçadeira. Usava um biquíni vermelho. Simples. Mas calculado. O sol desenhava sua pele clara. Os cabelos ruivos, molhados, caíam sobre os ombros como provocação involuntária. Troquei de roupa e fui até ela. — Você está linda — disse baixo. Ela sorriu. E, pela primeira vez, foi ela quem me puxou. O beijo veio quente, direto. Sem medo. — Eu estava entediada — confessou. — Quis aproveitar o sol… e quis me sentir bonita. — Conseguiu — respondi. Entramos na piscina. Ela nadava com leveza, mergulhava, ria. Cada movimento dela parecia mais confiante. Mais solta. Em determinado momento, se aproximou. O olhar era firme, mas não agressivo. — Sabe, Marlon… — respirou fundo — eu não te culpo mais por tudo o que fez pra me ter aqui. Meu corpo ficou imóvel. — Foi difícil. Muito difícil. — continuou — Mas talvez… tudo tenha acontecido como tinha que acontecer. Hoje, eu estou feliz de estar aqui. Silêncio. — Precisei quebrar uma perna e um braço pra enxergar o homem atencioso, dedicado… completamente apaixonado que você é — ela disse. — E eu não vou mais lutar contra isso. O beijo veio de novo. Mais intenso. Mais consciente. Não houve pressa. Apenas conexão. Depois a cozinha. Depois risos baixos. Beijos demorados. Nenhuma entrega completa. Ainda não. Mas o acordo silencioso já existia. --- Naqueles dias, cada sorriso dela era uma vitória silenciosa. Cada toque, um avanço. Cada olhar sustentado, uma confirmação. Jéssica estava radiante. E eu sabia: sem ela, nada daquilo teria sido possível. Mas o dia da viagem chegou. Fui até o quarto. Ellie estava sentada na cama, lendo. — Preciso ir a Londres resolver assuntos da empresa — disse, segurando as mãos dela. — Mas eu volto. Ela me beijou com calma. — Se cuida. Assenti. Saí levando a mala… e a certeza. Pela primeira vez, Ellie não parecia alguém que esperava uma chance de fugir. Parecia alguém que escolhia ficar.
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