O Corpo e a Dor

816 Words
Aquela manhã parecia comum. Encontrei Brenda por acaso, em um café discreto da cidade. Lugar neutro. Seguro. Conversávamos sobre banalidades — a vida, o cansaço, ausências que não se explicam. Ela me observava com aquele olhar que sempre soube ler minhas falhas. Sentou-se mais perto. A mão deslizou pela minha coxa, lenta, calculada. A voz veio baixa, íntima: — Marlon… você tá tão tensa. Deixa eu te fazer esquecer um pouco. Só um momento nosso. Você também precisa… assim como eu. — Não, Brenda. Não… — respondi, já sem convicção. Ela não recuou. Fez um biquinho provocador, encostou o rosto no meu. — Por favor… eu sei que você tá implodindo por dentro. Só um pouco. E ela estava certa. Eu estava exausto. De negar. De fingir controle. De tentar convencer Ellie a me amar enquanto ela só me devolvia desprezo. Cedi. --- Fomos para o meu antigo apartamento. Um território velho, impregnado de lembranças, cheiros, marcas que o tempo não apaga. Ali, nos entregamos à mesma loucura de sempre — crua, intensa, sem freios. Eu amarrei Brenda com precisão. Vendando seus olhos. Tudo técnico. Tudo controlado. Havia raiva, havia desejo, havia um passado que ainda queimava sob a pele. Ela gemeu meu nome como se o tempo não tivesse passado, como se ainda fôssemos nós. Ficamos ali o dia inteiro. Parávamos por horas. Ríamos de nervoso. Ela massageava minhas costas. E então… voltávamos ao prazer. Um ciclo vicioso. Familiar. Em um desses intervalos, com os dedos desenhando círculos no meu ombro, ela sussurrou: — Você não desiste, né? — Você sabe, Brenda. Eu amo ela. A Ellie vai ser minha. Ela só precisa parar de fugir. — Marlon… você tirou o marido dela. Tirou a vida, o trabalho, a liberdade. As pessoas devem achar que ela morreu. Você acha mesmo que ela te atacou? Ela só queria respirar. — Eu sei. — Minha voz saiu baixa. — Mas ela tá segura comigo. Dei tudo do melhor. — Segurança não é luxo — ela respondeu. — Nem tudo é dinheiro. Não respondi. Adormeci horas depois, o corpo rendido, a mente em guerra. --- O celular me arrancou do sono. — Senhor, é urgente. A senhorita Ellie se feriu tentando fugir. Está machucada. Levantei num salto. Vesti qualquer coisa. Liguei para o médico no caminho. Quando cheguei, ele já a examinava. Fraturas. Perna. Braço. Escoriações na barriga, na perna esquerda, no rosto, no ombro. Ela tentou escalar o muro. Sozinha. No escuro. Fiquei em silêncio enquanto o médico concluía. Agradeci. Acompanhei até a porta. Voltei para o quarto. Ellie estava ali. Quebrada. Frágil. Mas com o mesmo olhar de guerra. — Quando você vai parar, Ellie? — falei baixo. — Olha como você tá agora. Como vai tomar banho sozinha? Comer? Você não aceita ajuda minha, nem da Jéssica… como pretende sobreviver assim? A voz dela saiu embargada, mas firme: — Se você não tivesse me tirado da minha vida, isso não teria acontecido. Você não tinha esse direito. Minha mãe deve achar que eu tô morta. Você me tirou meu trabalho, meus pacientes, meu marido… minha vida. Aquilo acertou. Mesmo assim, tentei sustentar o controle: — Eu esperei você por oito anos, Ellie… — Eu não pedi isso! — ela explodiu. — A gente se conheceu numa festa. Eu gostei de você, sim. Mas você se afastou. Quando nos reencontramos, eu já estava noiva. Eu fui clara. Nunca te iludi. Mas você… você calculou tudo. Esperou eu casar. Esperou eu viver. E depois me tirou tudo! Silêncio. — Vai me forçar a te amar? — ela continuou. — Vai me obrigar a me entregar? — Não — respondi. — Nunca. Mas um dia você vai me amar por vontade própria. Vai sentir falta de mim. Vai entender que tudo o que eu fiz… foi pra te proteger. Ela virou o rosto. — Você precisa descansar — finalizei. — Repouso absoluto. Vou ficar essa noite. — Não quero você. — Então deixa a Jéssica cuidar de você. Ela respirou fundo. — Tá. Que seja. — Eu vou dormir aqui — avisei. — Só pra garantir que você fique bem. Ela não respondeu. --- Os dias passaram assim. Jéssica dava banho nela com cuidado extremo. Eu alimentava, dava os remédios, ajeitava os travesseiros, observava cada cicatriz. Ellie dormia muito. Cinco meses. Cinco meses até o corpo se recompor. O gesso saiu. As marcas foram sumindo, lentas. E então… algo mudou. O olhar dela já não era só ódio. Havia hesitação. Um reconhecimento involuntário. Como se enxergasse que, por trás da obsessão, existia algo mais profundo. Desequilibrado. Doentio. Mas amor. Ela nunca tocava no closet. Jéssica levava as roupas até o quarto. Ela me observava diferente. Ainda com raiva — contida, silenciosa. E eu entendia. Ela queria a vida de volta. E eu só queria que ela visse… que, no fundo, tudo o que eu fiz foi por amor.
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