Na manhã seguinte, Ellie despertou envolvida pelos braços de Gustavo. O calor do corpo dele a ancorava à realidade, como se fosse a prova viva de que tudo aquilo não era um sonho. A luz do sol entrava tímida pelas frestas da janela, desenhando linhas douradas sobre a pele dos dois. Eles ficaram assim por longos minutos, em silêncio, apenas respirando juntos.
A paz depois de tanto caos era quase desconcertante. Ellie ainda não sabia exatamente como agir diante dela.
Quando se levantou, caminhou descalça pelo corredor, sentindo o chão frio sob os pés. Ao chegar à cozinha, viu a mãe de costas, mexendo algo no fogão. O cabelo grisalho preso de qualquer jeito, os ombros levemente curvados — marcas de quem carregava dores demais.
Ellie não pensou. Apenas correu.
Abraçou a mãe por trás com força, enterrando o rosto em seu ombro, inspirando profundamente aquele cheiro familiar que havia imaginado tantas vezes durante o cativeiro. A mãe levou alguns segundos para reagir, até que sentiu o corpo da filha tremer contra o seu. Então largou tudo, virou-se e a apertou de volta.
As duas ficaram ali por horas. Sem palavras. Sem perguntas. Como se o tempo tivesse suspendido sua marcha, concedendo a elas um intervalo sagrado.
Mais tarde, já sentadas à mesa do café da manhã, Gustavo se juntou a elas. Não havia luxo exagerado, nem ostentação. Apenas café quente, pão, silêncio e emoção.
A mãe de Ellie foi a primeira a falar.
— Minha filha… — a voz saiu baixa, embargada — me conta. Como foi… como foi aquele tempo?
Ellie respirou fundo. As mãos envolveram a xícara com força, como se precisasse daquele calor para se manter firme.
— Mãe… no começo foi um inferno.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu estava assistindo a um filme com o Inácio. Do nada, uma explosão. Um barulho ensurdecedor. Quando acordei, estava tudo escuro, fumaça por todos os lados. Eu sentia ardor no peito. Do meu lado… o Inácio não se mexia.
A mãe levou a mão à boca.
— Eu tentei levantar, mas alguém veio por trás e aplicou uma injeção no meu pescoço. Apaguei na hora.
Ellie engoliu em seco.
— Quando acordei de novo, estava numa cama enorme. Bonita. Cara. Mas era uma prisão. Uma prisão disfarçada de paraíso. Closet cheio de roupas caras, bolsas, joias, maquiagem… piscina, academia, empregados. Mas sem portas abertas. Sem celular. Sem mundo. Sem você.
A voz dela falhou.
— Nos primeiros dias eu m*l comia. Só o mínimo pra não morrer. Eu não falava com ele. Não olhava pra ele. Tentei fugir várias vezes.
— Fugir como? — a mãe perguntou, quase sem voz.
— Um dia fiquei mais de cinco horas escondida embaixo de uma van de segurança. Fraca, com fome, tremendo. Achei que ia conseguir. Mas me encontraram.
A mãe começou a chorar.
— Depois tentei escalar o muro. Caí. Quebrei a perna, o braço, machuquei o ombro, o rosto… fiquei destruída.
— Meu Deus… — a mãe sussurrou, em choque.
— Depois disso, ele passou meses cuidando de mim. Ele e a irmã. Me davam comida na boca, ajudavam no banho… — Ellie respirou fundo. — Foi aí que começou a Síndrome de Estocolmo. Ele parecia gentil. Paciente. Carinhoso. Eu me envolvi, mãe… me apaixonei.
O silêncio ficou pesado.
— A gente virou um casal. Assistíamos filmes, conversávamos… até que um dia ele me levou pra jantar fora.
— Jantar fora? — a mãe arregalou os olhos.
— Sim. Foi nesse jantar que conheci os pais dele. A dona Roberta e o senhor Anderson. Eles choraram ao me ver. Disseram que achavam que eu tinha morrido. Mas eu… menti. Tive medo. Havia seguranças armados lá fora. Um motorista esperando. Quando perguntaram se minha mãe sabia que eu estava viva, eu respondi: “Eu tenho mãe?”.
A mãe apertou os lábios, tomada pela raiva.
— E enquanto isso… — disse ela, com a voz trêmula — eu estava internada, dopada, pra não fazer perguntas…
Ellie segurou a mão dela.
— Pelo menos a senhora não teve o mesmo fim deles.
— Fim? — a mãe franziu o cenho.
Gustavo falou, a voz firme, carregada de verdade:
— Marlon mandou matar os pais. Simulou um assalto. Eles estavam investigando o desaparecimento da Ellie.
A mãe desabou em lágrimas silenciosas.
— Mas agora isso acabou — Gustavo continuou. — Vocês estão seguras.
Ellie retomou, com o olhar distante:
— Depois disso, vivíamos numa falsa normalidade. Até que um dia… ele foi c***l. Sádico. Na cama. Eu fiquei machucada, cheia de dores, m*l conseguia andar. Tive medo. Medo real.
Ela respirou fundo.
— Conversei com a irmã dele. Ela me apoiou. Ele pediu desculpas, fingiu que nada tinha acontecido. Mas pouco tempo depois, encontrei seis embalagens de camisinha usadas no bolso dele.
— Seis?! — a mãe se espantou.
— Ele dizia ter uma “amiga de cama” há 12 anos. Disse que comigo seriam só duas vezes por semana. Como se eu fosse um acordo. Foi ali que algo em mim quebrou. E acordou.
Ela olhou para Gustavo.
— Foi quando comecei a me aproximar dele. Ele nunca me assediou. Nunca forçou nada. Só cuidou. Me respeitou. Me fez sentir segura. E eu despertei. Nunca mais deixei aquele homem tocar em mim.
A mãe respirou fundo.
— Vocês arriscaram tudo…
Gustavo segurou a mão de Ellie e depois a da mãe dela.
— Eu planejei cada passo. Descobri onde a senhora estava antes de qualquer coisa. Porque se Ellie fugisse sem isso, Marlon usaria a senhora como isca. Eu não podia permitir.
Ellie assentiu.
— A senhora precisava estar segura primeiro.
Gustavo então falou com firmeza absoluta:
— Eu não sou exatamente um mafioso… mas tenho poder, recursos e inimigos. E ninguém vai encostar em vocês. Aqui vocês estão protegidas. Ellie pode estudar, trabalhar, ser enfermeira. A senhora pode viver. Vocês não estão presas. Nunca estarão.
Ele olhou para Ellie.
— E você tem ao seu lado um homem que te ama. Que te protege. Mas que jamais vai te manter em uma jaula.
Ellie sentiu algo que não sentia havia muito tempo.
Futuro.