Passou mais um ano.
Eu completei trinta.
Ellie, vinte e sete.
O closet dela estava completo. Roupas, joias, perfumes. Cada peça escolhida com precisão cirúrgica. Não era vaidade. Era preparo. Antecedência. Destino organizado.
Os muros da mansão foram reforçados. Novos seguranças contratados. Turnos dobrados. Rotas mapeadas. Tudo coordenado como uma operação militar. Eu tinha um objetivo claro: arrancá-la de uma vida que, aos meus olhos, a consumia lentamente.
A casa dela precisava desaparecer.
Ela, não.
Ela sairia viva. Intacta.
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Naquela noite, o estrondo soou como libertação.
Os seguranças a retiraram antes da explosão. Outros confirmaram o que precisava ser confirmado: o marido dela… não sobrevivera.
Ellie acordou durante a evacuação. Confusa. Em choque. Um sedativo leve foi aplicado — o suficiente para acalmar, não para apagar. Eu mesmo a levei até a mansão.
Dei banho nela. Com cuidado. Sem pressa.
Mesmo vulnerável, o corpo dela exalava força. Resistência. Eu não a toquei além do necessário. Não por falta de desejo — mas por excesso de sentimento.
Eu a amo demais para isso.
Quero que ela fique porque quer.
Que me deseje porque sente.
Não por medo. Não por imposição.
Vesti-a com um babydoll de seda e esperei.
Horas depois, ela acordou.
— Onde estou? — a voz saiu trêmula. Os olhos, arregalados de pavor. — O que você fez? Que roupa é essa? Cadê o meu marido? Você… você o matou!
— Calma, Ellie — respondi, firme. — Você está bem. Está segura agora. Essa é sua nova casa.
— Nova casa? — ela gritou. — Você está louco! Eu não vou ficar aqui!
Correu até a janela. Quando viu a segurança reforçada, o desespero tomou forma. Chorou. Desabou no chão, abraçando os próprios joelhos.
Ela estava perdida.
— Vou te deixar sozinha por enquanto — falei. — Por favor, coma alguma coisa.
Saí. Fechei a porta. Deixei o silêncio trabalhar.
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No corredor, encontrei Jéssica.
— Como ela está? — perguntou, tensa.
— Assustada. Mas viva.
— Irmão… por que você fez isso com ela?
— Porque eu precisava. Porque eu a perdi para o trabalho, para a rotina, para o descaso. Agora eu tenho tempo. Todo o tempo do mundo para ela.
— E vai obrigá-la a te amar?
— Nunca. — Minha voz foi seca. — Quero que ela me escolha.
Aproximei-me. — Jéssica, você vai cuidar dela. Como funcionária. Não diga que é minha irmã. Conquiste a confiança dela. Ela vai precisar de você.
Ela assentiu, ainda em conflito.
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No caminho para o escritório, a lembrança veio nítida.
Jéssica machucada. O rosto inchado. O medo nos olhos. O marido dela jogado no sofá, bêbado, rindo.
Eu não pensei. Apenas fiz.
Ele nunca mais tocaria em mulher nenhuma.
Desde então, Jéssica vive comigo. Tornou-se governanta da mansão. Leal. Forte. E agora… essencial.
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No fim da tarde, o telefone tocou.
Brenda.
Estava na cidade.
Nos encontramos em um bar discreto. Ela me olhou como quem já sabia de tudo.
— Você enlouqueceu, Marlon. A Ellie? Ela não vai aguentar. Você é sádico, lembra?
— Com ela, não. — respondi. — Ela é minha cura. Com ela, eu sou outro homem.
— Você matou o marido dela.
— Foi necessário.
— Isso não é amor. É obsessão.
— Você vai ver. Eu serei o melhor para ela.
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Voltei para casa.
Ellie estava sentada, assistindo a um filme. Silenciosa. Imóvel.
— Boa noite — disse. — Como você está?
Ela não respondeu. Apenas desviou o olhar.
Tomei banho em silêncio. Mais tarde, Jéssica levou o jantar.
— Coloquei aqui, Ellie. Coma quando quiser. Boa noite.
Observei tudo pelas câmeras.
Demorou. Mas ela comeu. Depois dormiu.
Linda. Até em seus pesadelos.
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Os dias passaram.
Ela não falava comigo. Mas comia. Respirava. Se mantinha viva.
Era um começo.
Meses depois, nada havia mudado. Fria. Silenciosa. Nunca me olhava nos olhos. Nunca perguntava nada.
Mas eu sabia: ela esperava.
Ellie não era mulher de se conformar. Nem mesmo em uma prisão luxuosa.
E eu não era burro.
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Sensores em todas as portas. Janelas blindadas. Seguranças armados nas rotas de saída.
Mesmo assim… ela tentava.
Sempre.
Na primeira vez, fingiu dormir no sofá. Esperei. À meia-noite, como previsto, levantou-se descalça e correu para a garagem.
Quando tocou na maçaneta, dois seguranças a interceptaram.
Gritou. Chutou. Tentou morder.
Foi inútil.
Jéssica a encontrou no corredor, ofegante. Os olhos em chamas.
Ela cuspiu no chão ao me ver.
— Você é doente! Psicopata!
— Você é livre para me odiar — respondi. — Mas não para fugir.
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Na segunda tentativa, usou um clipe de cabelo para desativar o alarme do corredor.
Inteligente.
Quase conseguiu.
O sistema travava em três pontos. Ela não sabia.
Foi pega no último portão, já perto do jardim. Caiu de joelhos, chorando.
Eu não disse nada. Apenas mandei reforçar a segurança.
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Na terceira, tentou se esconder sob um dos carros, no compartimento da van de serviço.
Ficou ali por quase cinco horas.
Foi descoberta pela respiração ofegante.
Saiu fraca. Tremendo. Desidratada.
E ainda assim… cheia de ódio.
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Ela me odiava.
E tudo bem.
Eu suportaria o ódio dela.
Desde que estivesse viva.
Desde que estivesse ali.
Perto.
Jéssica insistia: — Ela vai enlouquecer. E você também.
— Ela só precisa entender que está segura — respondi. — Que eu não vou machucá-la. Tudo o que fiz foi por amor.
— Isso não é amor. É controle.
Talvez fosse.
Mas eu era o único que não a machucava de verdade.
O marido dela, sim.
O mundo, sim.
Eu… eu apenas a mantinha viva.
Protegida.
Intacta.
Até que decidisse me olhar de outra forma.
Até que percebesse…
Que ninguém jamais a amaria como eu.