- O quê? Pedro é casado? - questiono. - Isso é impossível! Estamos namorando há seis meses.
- Não se faça de sonsa, como se não soubesse, todas às vezes que liguei pra ele você estava ao lado dele! - ela diz batendo a mão no balcão.
- Ele sempre dizia ser um cliente...- digo questionando todas às vezes que isso aconteceu.
Como pude ser tão burra? Os meus olhos se enchem de água, eu acreditava poder contar com ele, pelo ou menos um pouco.
- Ai! - minhas pernas cedem á dor de cabeça repentina, fazendo o meu corpo se encontrar com o chão frio e xadrez da biblioteca. - Está doendo tanto...
- Não seja dramática! O tapa nem foi tão forte assim.
- Por favor ajude-me, pegue o remédio que estar na minha bolsa. - digo e com as duas mãos na cabeça, a minha visão estava turva é como se ela fosse explodir.
- Por quê eu deveria ajudar você? - ela questiona.
- Eu juro...não sabia que o Pedro era casado e que a senhora estava esperando um filho dele, se eu soubesse jamais estaria envolvida com ele...por favor ten piedad!
- Qual destes? - ela questiona revirando a minha bolsa e colocando todos os remédios para fora.
- É o vidro azul escuro...- digo balançando a cabeça, precisava voltar ao normal
Deus, por favor me ajude.
- Aqui está! - ela entrega um comprimido e engulo rapidamente.
O remédio faz efeito cinco minutos depois, a dor é aliviada e consigo recuperar os sentidos e levantar-me do chão.
A mulher estava perante a mim e com um olhar curioso, aposto que ela se questionava no quê ocorreu minutos atrás. Já eu só conseguia pensar que todos os momentos felizes ao lado do Pedro foram uma mentira, eu era à amante de um advogado boa pinta, é humilhante e revoltante pensar que fui um brinquedo para um homem francês casado.
- Você está melhor? - ela questiona com o rosto entristecido.
- Sim, eu peço desculpas... Na verdade, a senhora vai ser a primeira pessoa que vou dizer isso. - sorrio de leve. - Eu tenho um tumor na cabeça que vai me matar em breve, o médico estimou 100 dias de vida.
- Ah...eu.
- Sente muito? O meu médico disse o mesmo. - respiro fundo. - Eu não sabia que o Pedro era casado, estou arrasada de coração...Eu não amava ele, mas gostava da sua companhia. - enfio a mão na minha bolsa e agarro um colar dourado, com um pingente de estrela e detalhes prata. - Foi ele que me deu isso, pode entregá-lo e dizer que ele é um salaud, con, qui va pourrir en enfer ! (desgr.açado, vagabu.ndo, que vai apodrecer no infe.rno.)
- Não se preocupe e espero que não o procure mais! - ela agarra o colar e pisa fundo em direção a saída e assim batendo a porta de vidro com toda força.
- Fique tranquila, só tenho três meses de vida, procurar um babaca feito o seu marido para passar os dias, seria um pecado. - sorrio sozinha na biblioteca.
Agarro o meu celular que estava no bolso esquerdo e bloqueio o número do mesmo. Que dor foi essa sentida antes? Ela veio mais forte que as outras e durou mais tempo. Vou sentir isso com frequência? Não vou saber disfarçar com facilidade se sentir isso na frente da Vanessa.
Estou com tanto medo, existem inúmeras conquistas que eu gostaria de realizar, na verdade, eu queria encontrar o amor da minha vida nas ruas de Paris, sentir o gosto de ter um amor verdadeiro, porém com o acontecimento do Pedro, pensar que o amor existe nesta cidade romântica é quase impossível.
Respiro fundo e pego a caderneta para avaliar os livros que precisam de uma reforma, saio andando pelos corredores da biblioteca averiguando e anotando. Com o decorrer do tempo os clientes foram chegando e agarrando o seu livro favorito, é bom saber que ainda existem amadores que preferem livros com capa dura ao invés de ficar em casa com o smartphone.
Eles se sentavam nas mesas separadas e começavam a sua leitura com os fones de ouvido.
- Bom dia Camille! - Andrea à funcionária responsável pela cafeteria da biblioteca acabará de chegar com o seu visual extravagante como sempre.
Andrea tinha 22 anos, ela cuidava dos lanches da biblioteca, tinha cabelos cacheados e escuros, ela era n***a com os olhos castanho claro e adorava vestir roupas um pouco chamativas demais. Hoje ela estava usando uma calça de zebra rosa, com cropped amarelo e uma jaqueta de couro azul.
- Bonjour Andrea! - sorrio vendo ela correr para o café, já que estava dez minutos atrasada.
- Como foi no hospital? - ela questiona de longe vestindo o seu avental e agarrando o cardápio para oferecer aos clientes.
- Ah...- esqueci completamente que havia mencionado minha consulta de hoje, a morena tem a memória de um elefante. - Bom, os exames estavam todos certos, minha saúde está ótima. - sorrio vendo ela passar por mim em direção aos clientes.
- Fico aliviada com a notícia. - ela sorri. - Bonjour, bienvenue dans la bibliothèque Life Books and Coffee, comment puis-je vous aider ? ( Olá, seja bem-vindo à biblioteca Life Books and Coffee, em que posso ajudá-lo?).
Jean
- Letícia, apenas encerre a sua vida, eu cuidarei e guiarei a sua alma até a divindade da reencarnação, só precisa deixar tudo para trás e me seguir. - abaixo ficando com um joelho no chão enquanto observava uma menina de cinco anos, ela chorava com a dor de sofrer pneumonia em Serra Leoa na África, uma cidade de extrema pobreza.
- Se eu seguir o senhor, eu vou para um lugar aonde não existe à dor? - ela questiona secando às lágrimas.
- Sim, eu prometo que você não vai sofrer mais. - sorrio retirando um lenço branco do meu terno preto e assim limpando o nariz da pobre criança desnutrida.
- Está bem, eu vou. - ela sorri de leve ainda suspirando.
- Apenas feche os olhos e não se preocupe com mais nada. - sorrio demonstrando confiança para a pequena.
Em instante retiro do meu bolso o punhal do além e enfio com força no peito da criança, retirando assim a sua alma do seu corpo e a matando.
Esse é o meu poder, eu assim como milhares de ceifeiros ou ceifadores como preferir, somos criaturas sobrenaturais que exercem a função de guiar a alma dos seres humanos após a morte, tanto para o lago de fogo (inferno) ou para o lar celestial (céus).
A partir de agora, a alma dessa menina será guiada até a minha casa, um lugar místico que posso acessar em qualquer ponto do mundo, ao entrarmos nela, a pequena garota tomará o chá da reencarnação, às memórias dolorosas que ela sofreu nesta vida se apagará e a divindade da vida fará ela reencarnar novamente.
- Vamos? - questiono estendendo minha mão.
- Sim. - ela agarra minha mão com toda força e entramos na minha casa. - Uau! - a mesma se surpreende com o tamanho do lugar. - Essa é sua casa?
- Sim, bonita, não é? - questiono preparando o chá para a criança.
- Ela é enorme! - ela sai correndo pelo local verificando cada cômodo.
- Não é enorme, você apenas foi criada na miséria e na triste realidade deste mundo. - coloco o chá na xícara de porcelana azul sob a mesa de vidro no centro da sala de jantar. - Beba o chá, a Vida já está aqui para te buscar. - escuto a porta da entrada ser aberta pela a divindade.
- Parabéns Jean, sua alma 4999 sendo guiada em menos de uma semana, seu novo recorde? - a mesma questiona sorrindo.
A Lara (a vida) é uma das doze divindades, ela recolhe as almas boas e as fazem reencarnar, já as ruins se reencarnam como animais feito o porco, é assim que todas as doze mantém o equilíbrio até que o nosso ''Deus'' retorne ao planeta. Ela era parda, tinha cabelos castanho claro e ondulado, com os olhos azuis que demonstravam uma serenidade impressionante, o seu rosto era jovem, a Lara devia ter 27 anos quando assumiu o posto de divindade, assim congelando o seu envelhecimento.
- Qual será a alma 5000? - ela questiona entregando o chá para a criança que toma devagar.
- Uma mulher de 25 anos, ela mora atualmente em Paris, mas sua nacionalidade é espanhola. - sorrio de leve.
- Ela é tão jovem, o que ela tem?
- Nós éramos jovens também e mesmo assim não sobrevivemos no mundo humano. - sorrio de leve. - Ela tem um tumor, cem dias de vida é o estimado. - digo tomando um gole de café.
- Pronto tia, já acabei. - a menina sorri entregando a xícara vazia para a Lara.
- Já vamos, tenho muitas almas para designar hoje. - ela sorri me entregando a xícara.
- Se despeça do Jean. - ao ouvir isso a menina levanta a mão direita e acena com um sorriso banguela.
- Até mais pequena Letícia. - aceno de volta vendo as mesmas saírem pela porta. - Camille Sánchez...- sorrio de leve. - O seu nome é bonito, será que é digna dele?
Antes de partir para Paris, me teletransporto até o hospital Albert Einstein, localizado em São Paulo no Brasil, precisava visitar a divindade que adoro encher o saco. Alicia, uma jovem com o rosto de 17 anos, cabelo preto curto que bate até os ombros, sua pele parda e seus olhos pretos como uma jabuticaba, ela vivia no hospital já que era a divindade da criação.
Alicia é responsável pelo equilíbrio, é a criadora e responsável por todas as divindades, inclusive de escolher pessoas destinadas para cada cargo sobrenatural, ela sabe de tudo e sente tudo.
A mesma não pode ficar longe do hospital, já que ela absorve os pecados cometidos pelos seres humanos para a remissão, e sofre no lugar deles em formato de doenças graves e mortais. Ela morre doente e ressuscita doente, eu vi isso se repetir por mil e trezentos anos, tenho pena de como é a vida dela.
- Está aqui mais cedo que o esperado. - ela sorri sentada na cama do hospital num quarto particular.
- Pensei que estivesse com saudade. - sorrio entregando uma rosa vermelha.
- Uma flor? Obrigada. - ela se levanta com cautela agarrando o presente.
- Alicia, vale a pena? - questiono com um sorriso sarcástico. - Você sofre dores intensas, por seres humanos que cometem pecados diariamente, por quê não destrói tudo e acaba de uma vez com o seu sofrimento? - sorrio.
- Ficaria menos rancoroso se eu fizesse isso? - ela questiona colocando a rosa em um vaso de vidro com água.
- Rancoroso? Eu? - gargalho com a pergunta da mesma.
- Você é rancoroso, por isso te escolhi para ser um ceifeiro. - a mesma se vira encarando os meus olhos. - Você anseia em descobrir como morreu, afinal era um mortal como ''esses seres humanos'' , lamento não facilitar as coisas te entregando as lembranças da sua vida passada.
- Eu não ligo pra quem eu era, eu só sei que sou um espetáculo como ceifador! - sorrio convicto.
- Em breve recordará de suas lembranças do passado. - ela sorri de leve. - Após se lembrar de tudo terá duas escolhas: esquecer ou aceitar o seu fim. - ela levanta os dois dedos encenando a situação com um sorriso. - Muitos ceifeiros escolhem a primeira opção, mas você é diferente e isso deixa-me ansiosa pela sua escolha.
- Eu escolherei a terceira opção. - sorrio levantando o dedo do meio. - Mandar o mundo se fe.rrar! Você é patética, Alicia. - digo me aproximando da rosa que dei a mesma e arrancando uma pétala.
- Por quê não destruo tudo e acabo com o meu sofrimento? - ela questiona olhando a janela do seu quarto. - Porque são as mais belas criações já feitas por mim, não conseguiria destruir a minha obra de arte. - a mesma sorri largo tocando com o seu dedo indicador esquerdo na rosa e assim fazendo outra pétala surgir no mesmo lugar. - No meio de pecadores, existem pessoas valiosas e gratas por existirem.
- Tirou isso de um comercial? - questiono com um sorriso irônico.
- Camille Sánchez. - ela se vira encarando os meus olhos. - Cuide bem da alma desta jovem, se fizer a escolha errada, ela será a última alma que você guiará.
- Não se preocupe, eu não sou idi.ota ao ponto de errar uma escolha simples como esta. - saio do quarto com um sorriso largo enquanto apontava o meu dedo do meio pra mesma.
- Isso é o que vamos ver. - escuto ela responder em voz baixa.