Vejo o imponente prédio em frente a mim, sentindo meus nervos à flor da pele. Leio cuidadosamente o nome da empresa e sorrio ao reconhecê-la. Ela é relativamente nova, mas o seu crescimento no mercado foi, sem dúvida, enorme. Posicionando-se como a rede de lojas de departamento número um de todo o país, com mais de cem filiais distribuídas por todos os Estados Unidos. Pelo menos no Tennessee há duas disponíveis e, inclusive, eu comprei nelas.
Eu não sei quem é o CEO, ou os diretores executivos, mas sem dúvida são uns gênios, porque, pelo pouco que eu conseguia ouvir da boca do meu ex-chefe, esse homem veio para ficar.
E agora, ele será quem irá pagar minhas contas a partir de hoje.
Já fiquei sem dinheiro, tudo o que recebi gastei em um pequeno apartamento que a Caroline me ajudou a conseguir. Quando liguei para ela no mesmo dia em que recebi aquela ligação para informá-la que eu voltaria para Nova York, ela gritou, se emocionou e me ofereceu sua ajuda.
Sua espontaneidade fez muita falta para mim nesses cinco anos. Embora muitas vezes ela tenha implorado para deixá-la me visitar, eu recusei. Primeiro, porque eu estava muito m*l física e emocionalmente para recebê-la, e segundo, porque eu não queria que me encontrassem. Eu não sei nada sobre eles, sobre a família deles e nem sobre ele mesmo. Durante cinco anos, eu desapareci do olho público, das redes sociais e até mudei de número de telefone. Assim como de imagem.
Decidi reconstruir minha vida e isso implicou em deixar para trás tudo o que me aproximava dele. Incluindo minha amiga Caroline. Embora as ligações esporádicas tenham existido, não a afastei completamente, apenas mantive um pouco de distância pela minha própria saúde mental, ela respeitou e entendeu muito bem.
Eu contei para ela que a razão pela qual voltei para a cidade foi porque minha mãe vai se casar com o Kevin, o que também a deixou feliz, mas não falei nada sobre esse emprego, sobre essa entrevista. Em sua mente, eu voltei para não ficar sozinha no Tennessee, e sinceramente, prefiro que ela continue pensando isso até eu assinar meu contrato de trabalho.
Prometi que nos veríamos depois que saísse daqui, então esta noite será nosso primeiro encontro de amigas depois de não nos vermos por cinco anos. Nesta mesma noite eu vou contar sobre esse emprego e quão empolgada estou por ter um bom salário que possa sustentar a mim e ao afilhado dela sem nenhum problema. Ela o batizou em uma videochamada e até jogou água no boneco com a foto do Chris e não teve nada que eu pudesse fazer.
— Aqui vamos nós, Babi... — Murmuro para mim mesma, me encorajando — Vamos para essa entrevista.
Entro no imponente prédio sentindo os batimentos do meu coração se descontrolarem um pouco. Fico um pouco surpresa ao ver quão elegante é a recepção, quão limpo e brilhante é o chão onde estou pisando com meus saltos agulha e quão iluminado tudo está. Há homens e mulheres completamente elegantes entrando e saindo, e eu vou direto para a recepção e, quando me apresento à simpática mulher, ela me entrega um crachá de visitante indicando o andar onde fica o escritório de recursos humanos, em que a senhorita Miranda está me esperando.
Empolgada, com um grande sorriso, entro no elevador e aperto o número indicado. As duas portas se fecham na minha frente, imediatamente me viro para me ver no espelho atrás de mim e arrumo meu cabelo, me certificando de que minha maquiagem esteja intacta.
Eu não sou mais loira, desde que cheguei ao Tennessee e superei a depressão, deixei de ser. Agora meu cabelo está escuro, deixei crescer um pouco mais, fazendo minha pele parecer mais branca e a cor dos meus olhos mais marcante. Minhas feições parecem mais duras e pintar meus lábios de vermelho carmesim com um delineado fino nas pálpebras me faz parecer imponente e até intimidante. Embora seja eu quem está intimidada. Pode ser que não pareça, mas minhas pernas estão tremendo como gelatina neste momento.
O elevador para, as portas se abrem e eu saio segurando minha bolsa com força, caminhando em busca do escritório da senhorita Miranda.
— Olá, desculpe incomodar, mas você poderia me indicar onde fica o escritório de recursos humanos?
Pergunto a uma morena alta de cabelos fartos. Ela sorri para mim e me aponta qual é o escritório, agradeço com um grande sorriso e vou diretamente até lá. Dou dois toques na porta e ouço a voz que falou comigo ao telefone dias atrás.
— Bom dia... — É a primeira coisa que digo ao entrar e fechar a porta atrás de mim — Sou...
— Bárbara Collins — Ela termina minhas palavras com um grande sorriso, levantando-se de sua cadeira. Ela me estende a mão para cumprimentar e não hesito em fazer o mesmo — Estava te esperando.
— Espero não ter chegado atrasada.
Ela faz um gesto com a mão ao soltar a minha, me pede que eu me sente e fique à vontade. Eu achei que ela seria mais velha, mas me enganei. A gerente tem pelo menos a minha idade ou um pouco mais.
— Você chegou na hora certa, senhorita Collins.
— Estou nervosa — Comento com sinceridade.
— Não deveria, o cargo é seu. Esta reunião é apenas protocolar, mas veja, já tenho seu contrato pronto para ser assinado.
Não sei se estou alucinando ou se tudo está acontecendo muito rápido. A prima de Aarón parece desesperada para que eu assine e comece a trabalhar logo. Claro que assinei o contrato depois de dar uma olhada e até pedi uma cópia para que Kevin o revise. O mínimo que desejo é ser escrava de um CEO exigente.
Aarón foi um amor comigo, mas isso foi por causa dos sentimentos dele por mim, então não posso esperar que depois de ser tratada com respeito e bons benefícios, que o mesmo aconteça aqui. Por esse motivo, prefiro levar uma cópia para lê-la com mais determinação junto com um profissional.
Ouço atentamente a senhorita Coleman me falar sobre meus dias de folga, que estão sujeitos ao contrato. Basicamente, se meu chefe não precisar de mim nos fins de semana, serão meus dias de descanso, mas se ele precisar, então terei que trabalhar. Isso não me assusta, porque com Aarón eu até mesmo viajava nos fins de semana para alguns congressos, então posso tolerar. Meu horário de entrada é às sete da manhã, o que significa que devo estar na frente do chefe no escritório com tudo já pronto para ele: café, arquivos, mesa arrumada e uma lista com meu caderno para ler sua agenda do dia.
A mesma coisa que eu fazia no Tennessee.
Meu horário de saída será às oito da noite, mas mesmo assim devo manter meu celular e laptop sempre à mão, caso meu chefe me ligue para perguntar algo importante. Devo viajar com ele se ele pedir, comparecer às reuniões, congressos, eventos e até mesmo eventos de gala se minha presença for necessária e exigida. Nada de outro mundo, tudo o que uma assistente pessoal executiva deve fazer.
Estou ciente de tudo, não faço perguntas e nem mesmo dúvidas passam pela minha cabeça. Eu tenho experiência para isso e ela sabe disso, por isso está tão sorridente.
— Muito bem, senhorita Collins, vamos. Vou levá-la à presidência para mostrar seu escritório e, finalmente, apresentá-la ao chefe, está pronta?
— Mais do que pronta — Respondo entusiasmada.
Ambas nos levantamos e, animadas, saímos do escritório diretamente para o elevador. Agora me sinto mais segura, mais tranquila e mais confiante. Farei algo em que sou boa, algo em que já tenho experiência e espero ganhar ainda mais.
— Vou te dizer uma última coisa para que você tenha em mente — Ela me diz, deixando de lado toda a formalidade — Digamos que o chefe é um pouco difícil de lidar, mas não é um mau chefe. Sei que meu primo Aarón foi um amor de chefe com você, mas aqui com esse chefe, será o oposto, Bárbara.
E assim é como toda a minha segurança vai por água abaixo.
— Ele é realmente exigente?
— Bastante.
— Por isso você estava ansiosa para que eu assinasse, não é? Por isso você me ligou me oferecendo o emprego por telefone — Ela me mostra um sorriso forçado e assente com um pouco de vergonha. Neguei com um sorriso nos lábios contendo meus nervos, tentando ser o mais profissional possível — Eu sei muito bem que chefes como Aarón são um em um milhão, não se preocupe. Não estou brava, pelo contrário, obrigada por me informar isso, Miranda.
Ela suspira aliviada.
Não há mais nada que eu possa fazer. Já assinei meu contrato e estou plenamente ciente de que nem todos os magnatas, chefes, empresários, CEOs ou como quer que sejam chamados, serão como meu ex-chefe Aarón Miller, por isso não me incomoda o que ela fez. Além do mais, o salário é muito bom e isso com certeza tem a ver com o fato de o homem ser exigente, mas acredito que conseguirei suportar.
Já passei por coisas piores em minha vida em tão pouco tempo, então um chefe exigente não é algo que deva me abalar, muito menos me derrubar.
As duas portas se abrem, me permitindo ver um escritório imponente. A cor vermelha predomina sobre o preto e branco. O chão brilha, a recepcionista sentada atrás da sofisticada mesa de recepção sorri nos dando boas-vindas. Miranda nos apresenta, informando que eu serei a nova assistente pessoal do chefe e o olhar da morena não passa despercebido para mim.
— Sim, aparentemente sou a próxima vítima — Comento com um riso baixo.
Ambas riem do meu comentário, mas o que elas não sabem é que não é apenas uma piada.
— Bem-vinda ao olimpo, Bárbara Collins.
Miranda revira os olhos e n**a. Aparentemente, o comentário da colega não lhe causou graça ou ela simplesmente prefere não dar importância. Ela me pede para segui-la e assim faço.
Chegamos diante de duas portas em um vermelho escuro com o indicador CEO em dourado se destacando ao lado do sobrenome.
Franzo a testa ao ler isso, engulo em seco e mantenho meu sorriso. Deve ser uma simples coincidência. O sobrenome dele é muito comum na cidade, então não deve ser ele. Embora, ele poderia muito bem ser o CEO de tudo isso.
“Não, não, não.”
— Bárbara? Está tudo bem?
— Sim... — Me apresso a responder — Desculpe-me, houve uma confusão.
— Tem certeza? Você está pálida...
Sorrio e afasto da minha mente as más lembranças. Respiro fundo e peço a ela que bata na porta, que não se preocupe, que são apenas os nervos do momento de conhecer o grande chefe. Ela concorda, não muito convencida, mas ainda assim dá duas batidas na porta.
— Pode entrar.
Uma voz madura, grave, firme e intimidante faz com que uma corrente elétrica me atinja desde a nuca, percorrendo minha espinha até os meus pés. Ele me pede para entrar primeiro e eu faço isso, tentando manter meu sorriso, mas ele desaparece imediatamente quando o vejo. Meu pulso dispara, sinto que tudo está acontecendo em câmera lenta.
Ele está de pé, olhando para alguns documentos com muito interesse, ignorando completamente a nossa presença. Miranda chama sua atenção profissionalmente e quando ele levanta a cabeça e fixa seu olhar escuro em mim, sinto que me falta ar.
Atrás de uma imponente mesa há um homem alto, de cabelos negros, robusto, com o paletó pendurado atrás da cadeira e as mangas da camisa dobradas. Ele arqueia a sobrancelha, olhando para mim detalhadamente, sei que Miranda o está saudando, mas por alguma razão, sua voz soa distante. Ela me apresenta como sua nova assistente, informando que, a partir deste momento, começarei a trabalhar na empresa, exatamente ao lado dele.
Estou petrificada, as palavras não saem e sinto que a alma que pude recuperar em mim deseja deixar meu corpo e me abandonar mais uma vez.
— É muda? — Ele pergunta com irritação — Acaso ela não pode se apresentar sozinha, Miranda?
— Eu... eu me chamo... — Gaguejo, presa pelo pânico.
Ele para de me olhar como se minha presença o incomodasse e fico em silêncio imediatamente. Ele continua revisando os documentos em suas mãos, deixando-me paralisada sem saber o que fazer ou dizer. Sinto-me presa em um ciclo, ou pior, sinto que estou caindo em um buraco sem fim. Meu corpo treme, meus batimentos cardíacos estão descontrolados e cada ferida que tanto me custou a curar, sinto que estão se abrindo novamente dentro do meu coração.
“É ele... o CEO da empresa é Cedric Reed, meu marido, que, pelo visto, nunca conseguiu se lembrar de mim.”
— Vá embora — Ele ordena bruscamente sem me olhar — Não tenho tempo para isso. Quando parar de agir como um cervo assustado e começar a agir como uma profissional, volte aqui, se apresente e comece seu trabalho, pois foi contratada para isso, não para ficar calada e imóvel. Saia do meu escritório e volte amanhã, senhorita Bárbara.
— Bárbara? — Pergunto em um fio de voz.
Ele para de ler os documentos, levanta seu olhar escuro e o fixa em mim novamente.
— Acaso seu nome não é esse? — Não respondo, apenas assinto sem conseguir falar — Então não tenho nada do que me desculpar. Vá embora e volte amanhã. Não vou repetir.
“Eu não sou Bárbara. Eu sou sua Babi, Cedric!”