CINCO DIAS DEPOIS
Fico dentro do carro olhando a entrada da casa dos Reed, sentindo minhas mãos suadas. Caroline me trouxe aqui porque não consigo dirigir. Embora meu braço já não esteja enfaixado, ainda tenho pontos na perna e os manterei por pelo menos mais uma semana.
— Ainda não entendo como o trouxeram aqui sem te avisar — Ela murmura com raiva, segurando o volante e fixando os olhos na enorme porta de carvalho — Meus pais ainda estão tão surpresos como eu, inclusive discutiram intensamente com Wanda ontem à noite por não terem te comunicado, mas ambos alegam que tudo aconteceu tão rapidamente que não tiveram tempo de te avisar.
— Tento compreendê-los, os dois, Cedric foi quem mais se machucou, Caroline. Ele não estava com o cinto de segurança e foi quem sofreu o maior impacto...
— Mas você é esposa dele, Babi — Retruca — Você tinha todo o direito de saber que iriam tirar seu marido da clínica.
— Mas ela é mãe dele, amiga... Nós duas sabemos o quanto ela sempre foi superprotetora com Cedric. Estou começando a entender, sabe? Eu estava muito desconfiada com o mini Reed também...
Dou um sorriso conciliador para acalmá-la um pouco.
— Vou te esperar aqui, porque não pretendo entrar lá e encarar minha tia.
— Você não deveria ter brigado com ela por minha causa.
— Eu fiz por nós três, e embora eles não saibam que você está grávida, eu sei. Por isso não pude ficar calada naquele dia, Bárbara. Tive que contar a verdade e dizer quão injustos foram em não te dizer nada, então não me peça para te ajudar a chegar até a porta porque não farei isso. Se eu a vir, perderá o pouco respeito que tenho por ela, e não quero decepcionar meu pai por ter batido em sua cunhada.
Tão franca como sempre.
— Relaxa, eu vou.
— Se ela disser algo, só levante essa muleta e estarei lá para bater na cabeça dela.
— Caroline! — Repreendo.
Ela encolhe os ombros, sem se importar com a minha repreensão. A discussão com os Reed deve ter sido muito intensa para que minha melhor amiga tenha se desentendido com eles novamente e queira bater em sua tia mais uma vez.
Isso não me agrada em nada, não gosto de ser sempre a causa das discussões entre meus sogros, Cedric e Caroline. Não acontecia isso há anos, e por algum motivo, sinto que essas asperezas que tanto custei a limar estão voltando à tona, tudo por um descuido que não foi intencional.
Me recuso a acreditar que meus sogros tenham saído naquele dia sem me avisar de propósito, muito menos que tenham esquecido conscientemente a aliança de casamento de Cedric. Tudo deve ter acontecido tão rápido quanto a própria senhora Reed disse. Talvez ela estivesse feliz em levar seu único filho de volta para casa e, por esse motivo, não tenha se lembrado de mim. Tenho certeza de que nesses cinco dias que passaram eles estiveram tão ocupados com um Cedric alterado que não me ligaram por conta disso.
Sei que estou sendo abusiva ao vir sem avisar, sei que é algo que a senhora Reed não gosta, mas Caroline está certa em uma coisa: eu sou sua esposa e tenho o direito de saber sobre ele.
Um pouco agitada, finalmente chego à enorme porta de carvalho, me apoio da melhor maneira possível nas duas muletas e toco a campainha. Espero pacientemente que a governanta venha me receber com o mesmo sorriso de sempre, mas para minha surpresa, é a própria Wanda Reed quem abre a porta.
— Bárbara, o que está fazendo aqui?
— Senhora Reed, boa tarde... — Tento manter meu sorriso — Sei que não avisei, mas...
— Claro, Caroline deveria ter te trazido — Interrompe, olhando para o carro e voltando sua atenção para mim.
— Fui eu que pedi — Informo com um pouco de vergonha — Na verdade, eu a obriguei a me trazer — Minto — Vim ver meu marido, senhora Reed. Foi uma surpresa para mim ir até seu quarto e descobrir que ele não estava mais lá.
Minha sogra respira fundo, solta o ar e me convida a entrar. Faço isso o mais rápido que posso e, quando ouço a porta se fechar, me viro para olhá-la.
— Bárbara, serei o mais breve possível para evitarmos uma conversa longa e dolorosa, tudo bem?
— Não entendo...
— O médico responsável pelo caso de Cedric nos pediu para não o expor à realidade de uma só vez. Nós, como pais, sempre zelaremos pelo bem de nosso filho, é ele quem realmente importa. Em seu estado, ele se tornou agressivo, rude e irracional. Não quer saber nada de nós, não quer saber quem somos e muito menos da sua vida antes do acidente. Ele está no seu próprio mundo e vai levar muito tempo para sair dele.
— Mas eu sou sua esposa... talvez se eu entrar e conversar com ele...
— Lamento, mas não posso deixar que você o veja, Bárbara.
— Por quê? — Olho para ela com medo de uma explicação — Eu sou sua esposa...
— E eu sou sua mãe — Ela corta de forma brusca — E isso me dá o direito de te negar isso. Não vou expor meu único filho a um estresse por sua causa. Você é a esposa da qual ele nem faz ideia, acha mesmo que sou uma mãe tão r**m a ponto de expô-lo a uma notícia dessas, quando ele está apenas processando que é nosso filho?
— Não disse que você é uma má mãe, senhora Reed, apenas que eu...
— Você precisa se afastar, Bárbara. Cedric não se lembra de você, duvido que vá se lembrar, e como pais, não pretendemos contar sobre sua existência ainda. Ele tem trinta anos de vida para conhecer, então não espere que falemos de você enquanto ele ainda está processando o fato de ser um Reed.
— E o que se supõe que eu faça? — Pergunto com um nó na garganta — Estou...
— Você está abalada e eu entendo, mas precisa se colocar no lugar de Cedric também. Ontem ele nos disse que, se tiver uma namorada, não deseja vê-la, que não lhe digamos o nome dela, muito menos se ele estiver casado ou com filhos... não estou mentindo, Bárbara. Cedric não é o mesmo homem com quem você se casou, e considero que é o mais saudável agora dar um pouco de espaço para que ele se recupere completamente. Você o ama, não é?
— Com todo o meu ser, senhora Reed — Lágrimas escorrem pelo meu rosto — Quero o melhor para ele, quero que ele fique bem, mas não quero que, por causa de seu estado, ele me despreze...
— Ele fará isso se você o abordar agora, mas você precisa ir embora e dar tempo a ele.
— Quanto tempo?
— O tempo que for necessário para que ele comece a se conhecer, conhecer seus trinta anos de vida e tudo o que nós, seus pais, somos para ele. Quando ele se conhecer, eu mesma irei te chamar para apresentar você ao nosso filho como sua esposa. Prometo estar ao seu lado e não te deixar sozinha nesse dia, Babi...
Ela me abraça e é impossível não começar a chorar. Sinto suas mãos acariciando minhas costas e ouço suas palavras de consolo, que me fazem chorar ainda mais.
— Vá para casa, Babi, recupere-se para poder conhecer seu marido mais uma vez.
— Já se passaram três meses e ela não recebeu nenhuma ligação, Caroline — Murmura minha mãe, com uma expressão irritada e preocupada — Três meses em que Babi não dorme, não come a menos que seja obrigada, e não para de chorar. Quanto tempo mais isso vai durar?
— Não sei, senhora Collins... Wanda e Ryan se afastaram completamente do meu pai, não atendem às ligações, e Wanda proibiu visitas à mansão. Nem eu pude vê-lo...
— Não posso ficar vendo minha filha se consumir de tristeza enquanto espera que essa bruxa... que a Wanda a chame.
— Ela tem que fazer isso, não pode simplesmente afastar a esposa de seu próprio filho — Diz indignada — Talvez, se ela souber da gravidez, ela...
— Está proibido de mencionar minha gravidez — Falo finalmente, levantando-me da cama — Prometam que não vão contar aos Reed nada sobre meu filho.
— Mas, Babi... talvez, se eles souberem, eles possam te chamar para...
— Ela nunca vai me ligar, Caroline — Afirmo com firmeza. Meus dias na cama me ajudaram a entender muitas coisas — A senhora Reed nunca vai me ligar, ela nunca quis. Ela me deixou de lado de propósito só para me afastar de seu filho. É o que ela sempre quis, e agora ela tem a desculpa perfeita para fazer isso — Ando direto para o banheiro, passando ao lado dela — Wanda Reed nunca quis que essa camponesa do Tennessee com sangue mexicano fosse a esposa de seu único filho. Ela nunca quis que a plebeia se casasse com o príncipe.
— Babi... não diga isso...
Não respondo, entro no banheiro e fecho a porta, finalmente me atrevendo a olhar para o espelho.
Meu rosto está magro, tenho olheiras enormes, meu cabelo loiro está emaranhado, e meus olhos estão vermelhos, inchados e sem vida. Os ossos da minha clavícula estão muito aparentes, mesmo que eu tenha comido um pouco, acho que perdi pelo menos cinco quilos de peso, e embora saiba que não devo deixar de comer, simplesmente não sinto vontade.
Não tenho vontade de nada, só quero dormir e acordar em outra realidade, onde tudo isso seja um pesadelo amargo e não algo real, mas em uma realidade em que Cedric e eu estamos em nosso lar, pendurando novas fotos, decorando o quarto do nosso bebê, fazendo amor em cada canto da nossa casa. Não essa realidade que é minha desgraça, que é amarga, fria e cheia de dificuldades.
Mais uma vez, desabo em choro com as minhas costas encostadas na parede, e me jogo no chão cobrindo o rosto.
Ouço a porta ser aberta, mas não me levanto, sinto os braços da minha melhor amiga me envolvendo, pedindo para eu me acalmar, para eu me levantar, mas eu não faço isso. Eu só choro amargamente por aquilo que agora é minha vida, por aquilo que agora sou na vida de Cedric. Eu não sou nada, ninguém, e isso tem sido difícil de assimilar durante esses três meses trancada em nosso quarto.
— Preciso tirá-la daqui, Caroline — Diz minha mãe, mas não tenho forças para recusar, apenas para chorar — Ela está deprimida há três meses, chorando há três meses, e eu não vou suportar mais vê-la definhar à espera de uma ligação que jamais virá! — Sua voz quebra.
— Eu apoiarei qualquer decisão que você tomar, senhora Collins.
— Eu a levarei de volta para o Tennessee — Minha mãe sentencia com severidade — Não quero tê-la nem mais um dia nesse apartamento cheio de lembranças que a estão matando aos poucos. Lamento, Caroline, mas não posso ficar esperando nem mais um dia.
Ambas planejam sem me perguntar, falam como se eu não existisse aqui. Como se minha opinião não importasse, como se não fosse minha vida que estão organizando agora. E eu também não posso refutar, negar ou dizer a elas o que desejo fazer porque meu lamento é tão grande, que só posso chorar no peito da minha melhor amiga.
Só dou razão a elas em uma coisa, e é que Wanda Reed nunca vai me ligar. E o que mais me dói e está sendo difícil de aceitar é que ele nunca vai se lembrar de mim, então não tenho outra escolha a não ser ir embora, mesmo que eu não queira, me afastar, mesmo que doa, e esperar o dia em que Cedric se lembre de mim e me procure.
[...]
CINCO ANOS DEPOIS
— Não posso acreditar que fiquei sem emprego — Murmuro, olhando meu pagamento escrito em um cheque — Foram quatro anos de trabalho árduo e agora está tudo resumido nesse papel.
— Babi, querida, você teve a opção de ir para a Europa com ele, então tecnicamente foi você quem desistiu.
— Mãe, como eu ia passar um ano trabalhando e deixar vocês aqui? — Olho para ela com raiva — Eu não conseguiria trabalhar em paz estando tão longe de você e do Christopher...
— Eu sei, querida... — Ela se aproxima e me abraça — Pelo menos, seu chefe disse que te recomendou para uma grande empresa, não é?
— Sim... ele só me disse que a responsável pelo departamento de recursos humanos é prima dele e enviou meu currículo com ótimas referências, prometendo que em breve vão me ligar, é isso — Bufo.
— Se o Sr. Miller prometeu, eu acredito nele. Ele tem sido muito bom com você, então vamos confiar em sua palavra.
Ela beija minha cabeça e se levanta do sofá.
Penso em Aarón e um sorriso aparece em meus lábios. Minha mãe está certa, ele sempre cumpriu com sua palavra. Quando nos conhecemos, eu estava com oito meses de gravidez e terminando minha graduação em casa, só precisava fazer algumas provas, mas isso não importou para ele, ele me ofereceu a vaga de sua assistente pessoal. Ele me prometeu que eu teria a posição assim que desse à luz e cumprisse minha licença maternidade.
Quando o Christopher completou seis meses e pude dar mamadeira para ele, eu o procurei sem muita esperança, até pensei que ele tinha me esquecido, mas não. Aarón Miller me recebeu com um grande sorriso, me assessorou pessoalmente em tudo e, depois de não saber de nada, passei a administrar a agenda completa de um magnata dando o meu melhor.
Até hoje...
Ele precisa viajar para a Europa por um ano a trabalho e, inclusive, me pediu para ir com ele, na verdade, era meu dever como sua assistente pessoal ir com ele, mas não pude fazer isso. Com o coração apertado, apresentei minha renúncia e ele a aceitou, entendendo minha posição. Não é a mesma coisa viajar pelo país com ele para eventos e reuniões por dois ou três dias, do que ir para a Europa por um ano inteiro deixando minha mãe e meu filho aqui.
Ele se ofereceu para levá-los, pagar uma casa para os três em nome da empresa, pagar também a educação do Christopher, mas eu recusei. Recusei categoricamente porque não está nos meus planos mudar drasticamente a vida do meu filho. Ele é uma criança de cinco anos prestes a começar a escola primária e está muito animado, como eu poderia dizer a ele que vamos nos mudar para outro continente por causa do meu trabalho? Não tive coragem para isso.
Agora, estou sentada na sala da nossa pequena casa olhando meu pagamento, pensando no que farei com o dinheiro e com a minha vida.
— A coisa boa é que uma má notícia é seguida de uma boa. Toma — Comenta minha mãe, oferecendo uma xícara de chocolate quente.
Seguro a xícara nas minhas mãos e dou um sopro para poder beber um pouco.
— Não entendo — Ela penteia o cabelo, passa a mão no rosto ainda sorrindo para mim — Mãe, conte.
— Acho que não preciso dizer o óbvio.
— Desculpe, mas não estou vendo esse “óbvio” — Ela leva a xícara aos lábios, levantando a sobrancelha. Olho para ela com atenção e quando percebo o diamante no seu dedo, abro a boca, grito e coloco a xícara na mesa — Ele te pediu em casamento!? Kevin te pediu em casamento!?
— Sim! Você acredita!? — A abraço, digo quão feliz estou por ela, o quanto me orgulho dela por ter decidido avançar e reconstruir sua vida. Choro de alegria e não paro de admirar o lindo anel — Isso é graças a você, Babi... ver você avançar, crescer e deixar tudo para trás foi um exemplo para mim, minha filha... eu pensei: se ela conseguiu superar tudo, eu também posso. E olha, aceitei me casar com o Kevin.
— Eu tive um novo motivo para ser feliz, mamãe, e foi graças ao Chris... agora você tem isso com o Kevin, e sei que ambos serão muito felizes.
Ela assente, enxugando as lágrimas dos olhos.
— Tem outra coisa que não te contei.
— Estou toda ouvidos.
— Ele me pediu para morar com ele em Nova York... Você sabe que o escritório dele fica lá e que ele só viajava para o Tennessee nos fins de semana por minha causa. Vamos nos casar e é óbvio que devemos morar juntos, mas se você me disser que...
— Nunca vou ser um obstáculo para a sua felicidade, mãe — Interrompo suas palavras e apresso-me em segurar suas mãos — Kevin realmente te ama e é compreensível que ele queira viver lá e não aqui. Aqui, você só o tem a ele, mas lá está toda a vida dele, seu trabalho e essa família maravilhosa que te aprecia muito... não se preocupe conosco, estaremos bem e prometo que agora Christopher e eu iremos viajar todos os fins de semana para te ver.
— Você não tem emprego, Bárbara, não posso ir embora e te deixar assim, só.
— Mas tenho, ou bem, tinha um excelente chefe que assinou um generoso acordo que me servirá para ficar tranquila por alguns meses ou pelo menos até encontrar um emprego de meio período. Além disso, lembra que estou esperando aquela ligação que ele me prometeu? Então, vamos chorar, mas de felicidade e alegria pelos novos começos, mãe. Temos um casamento para organizar e não quero tristezas, por favor... já tivemos bastante disso.
— Tem razão... Sejamos felizes e alegres.
— Isso é o que eu queria ouvir, futura senhora Miller.
Dou a ela outro abraço e beijo sua cabeça, como tantas vezes ela fez comigo, escondendo com todas as minhas forças a tristeza que me invade por tudo isso. Mas ela merece uma nova chance, merece ser feliz, e eu nunca, por medo de ficar sozinha novamente, vou segurá-la comigo para sempre.
Kevin realmente a ama, e a amou desde que a conheceu em uma de suas viagens. Eles se conheceram no hotel onde minha mãe era recepcionista e desde então começaram um relacionamento platônico por ligações, até que, ao longo dos meses, tudo se tornou mais sério, mais estável, e depois de um ano e meio desse amor à distância, finalmente eles vão se casar.
Eu nunca poderia ficar triste com essa linda notícia, mas apenas pensar que ela logo irá embora faz a opressão no meu peito se manifestar.
— Vamos à sala dizer ao Chris que o Kevin agora será oficialmente seu avô?
Minha mãe solta uma grande gargalhada, animada se levantando do sofá. Desde que meu filho conheceu o Kevin, ele o chamou de avô assim, simplesmente. No começo, minha mãe sentia vergonha e até teve um colapso, mas ao ver Kevin maravilhado, ela começou a aceitar a situação.
Chegamos à sala e eu o vejo colorindo, concentrado, sentado em sua pequena cadeira, com muitas cores sobre sua pequena mesa. Ao nos ver chegar, ele começa a nos mostrar emocionado tudo o que coloriu e não consigo parar de sorrir e me surpreender com cada desenho feito. Para quem tem cinco anos, ele é muito bom, embora ainda precise aprender a respeitar um pouco as linhas.
Ver o Christopher é como ver seu pai. Ambos são tão idênticos que, no começo, eu tinha dificuldade de conseguir olhar para o rosto dele sem chorar. Já superei isso e, falando a verdade, fico feliz que ele se pareça muito com ele, porque no final das contas, Chis é a prova daquele sentimento que tivemos, a prova do que fomos e o resultado do amor que tivemos até o dia em que nos casamos.
— A sua avó tem algo para te contar... — Chamo sua atenção — Uma notícia muito importante que te deixará muito feliz.
Ele abre os olhos desmesuradamente, olha para a minha mãe e o brilho em seu rosto é indescritível. Minha mãe dá a notícia, fazendo com que o grito de felicidade que ele solta por sua garganta seja tão agudo quanto ensurdecedor. Ambas rimos, comemoramos e choramos ao ver a felicidade de nosso pequeno pelo casamento.
— Então, nós vamos nos mudar para Nova York com o Kevin, mamãe!?
Minha mãe me olha com os olhos bem arregalados, eu fico com um sorriso petrificado nos lábios sem saber o que dizer. Ambas nos olhamos sem saber o que fazer enquanto ele espera minha resposta.
O celular dentro do meu bolso toca, chamando minha atenção, e como se fosse salva pelo gongo, decido atender.
— Já volto — Digo a ele. Saio da sala deslizando o dedo sem olhar quem está me ligando — Alô?
— Estou falando com Bárbara Collins? — Pergunta do outro lado e eu respondo com um sim — Um prazer falar com você. Sou Miranda Coleman Miller, a gerente de recursos humanos, prima do Aarón.
Abro a boca ao ouvi-la.
— O prazer é meu, senhorita Miranda — Eu me apresso em dizer — Você não faz ideia da felicidade que me dá receber essa ligação.
— E você não sabe a felicidade que me dá em ter sua resposta — Ambas rimos — Tenho lido seu currículo e, de acordo com as excelentes recomendações do meu primo em nome da empresa dele, considero que você é a melhor para essa vaga... — Meus olhos se cristalizam ao ouvi-la falar sobre o emprego, o horário e o salário, principalmente o salário — O cargo é seu, senhorita Collins, mas, mesmo assim, por questões de protocolo, preciso entrevistá-la, você poderia vir na segunda-feira às oito da manhã?
— Claro que sim! — Digo animada — Pode me passar o endereço?
Ela concorda e peço uns segundos para buscar algo para anotar e quando anuncio que ela pode ditar, franzo a testa e paro de escrever.
— Isso é no Tennessee?
— Tennessee? Não, senhorita Collins, a empresa fica em Nova York, não foi isso que meu primo te informou?
— Sim, sim, claro... — Minto — Fiz uma confusão. Pode me passar o endereço, por favor.
Começo a escrever o mais rápido que posso, planejando em minha cabeça tão rápido quanto minha mão se move. Agradeço à senhorita Miranda por sua gentileza e me despeço, prometendo que estarei lá na segunda-feira cedo. Encerro a ligação e guardo meu celular, pensando na maior loucura que farei na minha vida desde que me tornei mãe. Voltar para Nova York depois de cinco anos, depois de prometer a mim mesmo nunca mais fazer isso.