TERRITÓRIO DE SILÊNCIO

1048 Words
Onde promessas e armas respiram juntas. A conversa não morreu quando os pratos chegaram. Ela apenas mudou de ritmo, como se cada garfada fosse uma pausa calculada entre revelações que não podiam ser ditas alto demais. Paris continuava viva do lado de fora, buzinas distantes, luzes refletindo nas vitrines, gente rindo nas calçadas. Naquela mesa, porém, o ar era outro. Mais pesado. Mais atento. Sintra mantinha o corpo levemente inclinado, os olhos varrendo o ambiente com naturalidade treinada. Quando falava, a voz saía baixa, firme, carregada de significado. — Isso que você tá entrando não é briga de bar, Mário, ele disse, apoiando os dedos na mesa. É estrutura. É gente que construiu império em silêncio. Mário sentiu a nuca esquentar. A palavra império parecia grande demais para o que ele conseguia visualizar. Ele não respondia. O cérebro tentava acompanhar enquanto o estômago se fechava. — Máfia não é só crime, Sintra continuou. É organização. Hierarquia. Território. É gente que vive por regra própria. Quem entra nesse mundo… não entra por acaso. Gabriel soltou o ar devagar, atento ao movimento ao redor. O restaurante seguia elegante, discreto, garçons circulando como se aquela conversa não existisse. — E a polícia? Gabriel perguntou. Sintra deu um sorriso curto, sem humor. — A polícia existe. Mas acordos também existem. Quando o dinheiro é grande, a linha entre lei e conveniência fica turva. E todo mundo aprende a enxergar menos do que deveria. Mário apertou o copo entre os dedos. A palavra Paris agora tinha outro peso. A cidade da Torre Eiffel, que ele sempre associou a romance e cartão-postal, se revelava território de forças invisíveis. — Então isso tudo… é real, ele murmurou. — Mais do que você imagina, Sintra respondeu. E Estela está no meio. O jantar seguiu num silêncio carregado. Mário tentou comer, mas o alimento parecia não descer. O coração batia num ritmo irregular, como se o corpo inteiro estivesse em alerta. Quando saíram, o ar frio da noite atingiu o rosto de Mário com força. O motorista abriu a porta. O carro deslizou pelas avenidas iluminadas, cruzando um bairro nobre onde portões altos, guaritas armadas e câmeras discretas denunciavam que segurança ali não era luxo, era necessidade. A mansão de Gabriel surgia imponente, fachada clássica, iluminação suave destacando colunas e jardins perfeitamente podados. O portão abriu sem demora. O carro entrou em silêncio. Mário desceu sentindo o peso do lugar. Mármore frio sob os pés, corredores amplos, luz quente que contrastava com o turbilhão interno. — Dorme, Gabriel disse, pousando a mão no ombro dele. Amanhã vai exigir cabeça. Dormir foi um ato involuntário. O corpo cedeu antes da mente. O amanhecer chegou rápido demais. A mesa do café da manhã estava posta com precisão. Frutas, pães, café forte. Gabriel e Sintra comiam em silêncio, trocando olhares breves. Mário encarava o prato sem vontade. — Come alguma coisa, Gabriel insistiu, empurrando um copo de suco. Mário respirou fundo. O líquido desceu pesado. — É só isso que vai entrar. O carro partiu pouco depois. A cidade despertava, mas o destino deles parecia viver outro tempo. Ao se aproximarem do local do casamento, o movimento denunciava poder. Homens de preto espalhados, postura rígida, escutas discretas nos ouvidos. Não eram convidados. Sintra apontou com o queixo. — Aqueles ali não vieram celebrar. Vieram garantir que ninguém estrague. O peito de Mário apertou. As mãos suavam. — Isso é loucura, Gabriel murmurou. Se ela escolheu isso, você não pode lutar contra esse mundo. — Mário, Sintra completou. Às vezes sobreviver é a vitória. Mário não respondeu. O olhar fixo na movimentação. Em outro ponto da cidade, num salão reservado e simples demais para o que representava, Estela se preparava. O vestido branco parecia um figurino que não pertencia a ela. Afonso Castellano aguardava em outro cômodo. Um casamento sem amor, sustentado por conveniência. Traições antigas mascaradas por formalidade. No buffet, num quarto reservado, Luana Gutemberg recebia os últimos retoques na maquiagem. A expressão dela era calma demais para quem pisaria num altar cercado de intenções ocultas. Do lado de fora, Dionísio respirava com dificuldade. O coração martelava no peito. Ele bateu na porta. — Entra, Luana disse. Ele entrou e parou. A visão o atingiu em cheio. — Você está linda, minha Rainha, ele falou, sentindo a garganta fechar. Luana se levantou e caminhou até ele. Os dedos tocaram o rosto dele com delicadeza. — Obrigada por tudo, Dionísio. Eu queria sentir mais… mas meu coração se fechou há muito tempo. Uma lágrima caiu. Ela a beijou com ternura. — Se isso for demais, vá. Seja feliz. — Não consigo, Lua, ele respondeu. Imaginar você desprotegida me enlouquece. Eu fico. Luana sorriu sem humor. — Uma mulher que matou os homens mais perigosos de duas máfias vai cair fácil? — Eu sei Lua, mas… preciso ficar. Você, não só salvou minha vida, você me salvou de mim, e eu não sou só grato, eu amo você. — Eu sei meu menino, como eu gostaria de amar você. Como eu gostaria de voltar a sentir, ser mulher novamente… — Você pode Lua, deixa eu te guiar, deixa meu amor aquecer você, fazer você sentir. Dionísio segurava o rosto dela com as duas mãos, trêmulas. Emoção explodindo. — Eu tento Dionísio, todos os dias, nem meu toque, meu corpo reconhece mais, eu parei de sentir, tudo. Luana responde olhando nos olhos dele. — Não Lua. Você ainda é jovem, não pode abandonar seu corpo assim. Ela o beijou. Um beijo longo, regadas pelas lágrimas dele. Testas encostadas. — Então fique. Vamos remover as pedras do meu caminho. — Sempre. E não se esqueça, eu te amo. Luana sorrir pequeno. — Oriente os homens. Nada de agir sem minhas ordem. Sem escândalo. — Sim, senhora. Ele saiu ainda tremendo. Não muito longe dali, Nádia Petronik uma mulher determinada, de 28 anos, organizava quinze homens armados. O ambiente era frio, calculado. — Tem que ser rápido, ela disse. Primeiro Dionísio. Neutraliza. Ela segura o resto. Eu pego Victor. Saímos em sequência. Os homens assentiram em silêncio. — Depois reunimos força e derrubamos essa rainha de m3rda. Paris brilhava acima deles, indiferente. Mas sob aquela luz, a guerra já respirava. E ninguém ali estava preparado para o que viria quando o primeiro movimento fosse feito.
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