VIAGEM AO INFERN0

1080 Words
Quando a verdade atravessa fronteiras. Mário não dormiu naquela noite. Não foi insônia comum, daquelas que cansam o corpo. Era uma vigília tensa, elétrica, como se o mundo tivesse apertado um botão dentro dele e agora tudo estivesse funcionando em alerta máximo. A mochila aberta sobre a cama parecia maior do que realmente era, como se cada peça de roupa carregasse o peso da decisão que ele estava tomando. Ele dobrava as camisetas devagar, automático, mas por dentro tudo corria. Documentos alinhados, carteira, passaporte recém-emitido sobre a cômoda. O nome impresso ali parecia pertencer a outra versão dele, um homem que atravessava oceanos não por turismo, mas por necessidade. Estela existia a um continente de distância, e a simples ideia disso fazia o peito apertar com uma mistura de esperança e dor. Ele segurou o passaporte por um segundo a mais do que precisava. O coração acelerou, não de medo, mas de urgência. Aquilo não era mais plano, era movimento. Era o ponto sem retorno. O farol de um carro iluminou o quarto pela janela. Mário fechou a mochila com um gesto firme, respirou fundo e saiu. O motorista enviado por Gabriel Dantas aguardava encostado no carro, postura profissional, olhar discreto. Mário entrou no banco traseiro e o veículo deslizou pela rua ainda silenciosa. O céu amanhecia num azul pálido, e a cidade parecia suspensa entre o sono e o despertar. Dentro do carro, o silêncio era confortável, mas a mente de Mário não parava. Cada quilômetro percorrido era uma confirmação de que ele estava indo atrás da verdade, gostasse dela ou não. Enquanto o carro com Mário avançava em direção ao hangar, o Gabriel Dantas aguardava encostado no carro, a memória se impôs com força. Meses antes, Ele estava no escritório quando o telefone tocou. A voz do outro lado era urgência pura. Acidente. Rodovia. Grave. O sangue dele gelou na mesma hora. O caminho até o local virou um borrão de buzinas, semáforos ignorados e respiração presa. Quando chegou, o mundo pareceu encolher. O carro do pai estava esmagado sob a traseira de um caminhão, o metal retorcido irreconhecível. O ar cheirava a combustível e medo. Por alguns segundos, Gabriel não ouviu nada. Nem o próprio coração. Então ele viu Mário. Coberto de sangue que não era dele, respirando pesado, forçando a porta do passageiro enquanto gritava instruções. A mãe de Gabriel estava presa, inconsciente. Mário não hesitou. Usou força, desespero e uma coragem crua para arrancá-la dali. Quando finalmente conseguiu, segurou a mão dela com firmeza, falando baixo, dizendo que ela ficaria bem. Gabriel lembrava do próprio choro engasgado ao ver o pai imóvel, da chegada dos bombeiros, da polícia isolando a área, do SAMU assumindo o controle. Pessoas filmavam. Observavam. Mas Mário só enxergava a mulher que ele estava tentando salvar. Gratidão nasceu ali, não como dívida, mas como vínculo. O carro freou suavemente no hangar. Mário desceu e encontrou Gabriel encostado no carro. O cumprimento entre eles foi breve, mas carregado de significado. Gabriel viu, por um instante, o mesmo homem sujo de sangue salvando sua mãe enquanto o mundo assistia. Aquela lembrança sustentava tudo. Dentro da aeronave, o piloto anunciou a decolagem. Gabriel lançou um olhar para Mário e sentiu de novo a força daquele momento passado. A gratidão não era obrigação. Era escolha. Ele estava ali porque queria estar. O avião subiu, rompendo as nuvens. O motor vibrava sob os pés, constante, quase hipnótico. Horas passaram entre cochilos rasos e pensamentos densos. Para Mário, o tempo não corria, pressionava. Cada minuto o aproximava de Estela e do que quer que ela tivesse se tornado. Quando a aeronave iniciou a descida, a paisagem mudou. A cidade surgiu elegante, organizada, viva. Paris se estendia como um cenário que parecia bonito demais para abrigar verdades tão duras. A Torre Eiffel apareceu ao longe, recortando o céu como um marco inevitável. Mário sentiu o impacto da distância. Aquilo era real. Não havia mais como fingir que não estava acontecendo. No hangar, Sintra aguardava. O cumprimento foi rápido. Ele conduziu os dois até o carro, falando pouco. A noite caía e as luzes douradas refletiam nas ruas molhadas. O restaurante escolhido era reservado, elegante sem ostentação. Um lugar onde conversas importantes podiam existir sem chamar atenção. Sentaram-se numa mesa afastada. O tom da conversa caiu automaticamente. Sintra inclinou o corpo levemente, a voz reduzida a um fio. — Descobri mais coisas, disse ele, sentindo o peso da informação. Estela foi trazida para cá por Nádia Petronik. Gabriel piscou, surpreso, o cérebro tentando encaixar a informação. — A namorada do Mário está envolvida com a Máfia Híbrida? Sintra lançou um olhar rápido ao redor antes de responder, consciente de que aquela palavra não era dita em voz alta. — Você sabe sobre a Máfia Híbrida? Mário franziu a testa, o desconforto evidente. — O que é isso? Máfia híbrida? Sintra baixou ainda mais o tom. — Mário… você já ouviu falar de máfia? — Cara, só em filme, ele respondeu, sentindo um arrepio percorrer a espinha. — Esses filmes são inspirados em vida real. Máfia existe. E aqui em Paris mora a líder de uma organização híbrida russo-italiana. Ela comanda as duas estruturas. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Caralh0… máfia russa e italiana juntas?, Mário perguntou, tentando assimilar. — Por isso o nome, continuou Sintra. Híbrida. Ela lidera ambas. É chamada de Rainha. Tem influência suficiente pra manter acordos silenciosos com gente poderosa. A polícia francesa prefere estabilidade a guerra aberta. Gabriel soltou o ar devagar. — A mulher é poderosa assim? — Muito. E a amiga da Estela trabalha pra ela. Foi um inferno descobrir isso. Estela está ligada a um homem da organização russa… e vai casar amanhã. O mundo pareceu encolher. O sangue de Mário subiu quente. A mão bateu na mesa antes que ele percebesse, o impacto ecoando baixo. — Não. Eu vou falar com ela antes. Os talheres vibraram. Alguns olhares curiosos surgiram, mas desapareceram rápido. Sintra manteve a voz firme e baixa. — Como você pretende fazer isso? Só antes do casamento… mas como? Mário respirou fundo. O coração martelava no peito, cada batida um lembrete de que ele não podia recuar. — Não sei. Mas vou. Não era bravata. Era promessa. Lá fora, Paris brilhava como se nada estivesse errado. Casais caminhavam, risadas ecoavam, a cidade pulsava beleza. Mas para Mário, aquele lugar agora era território de guerra. E ele tinha acabado de atravessar o mundo para entrar nela.
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