APARÊNCIA DE PODER

1004 Words
Antes da cúpula, molda-se o rei. A reunião no escritório terminou pouco antes do meio-dia. O silêncio que ficou na casa não era vazio. Era preparação. Luana fechou a porta atrás dos homens e ficou alguns segundos parada no corredor. Não parecia abalada. Parecia calculando. Mário a observava com uma sensação estranha no peito. Ele ainda estava processando o que tinha ouvido. Preparado. Variável. Posicionamento. Ela virou-se para ele. — Vamos almoçar. Ele piscou. — Agora? — Sim. Antes que eu precise lidar com homens velhos tentando me ensinar como comandar o que já comando. Ele quase sorriu. — Isso é um convite? — Isso é logística. Mas havia algo leve no canto da boca dela. Eles desceram juntos. Dionísio já estava no hall, atento. O olhar dele passou de Luana para Mário. Avaliação. Medida. Mário sustentou o olhar. Não sorriu. Não provocou. Mas não desviou. Luana caminhou entre os dois como se a tensão não existisse. Entraram no carro. No trajeto, o silêncio não foi desconfortável. Foi estranho de um jeito novo. Ela olhava pela janela. Ele observava o reflexo dela no vidro. A cidade seguia normal. Como se ninguém ali soubesse que decisões capazes de mover impérios estavam sendo tomadas dentro daquele carro. Chegaram a um restaurante discreto por fora e absurdamente luxuoso por dentro. Iluminação dourada. Cristais. Talheres alinhados como se fossem instrumentos cirúrgicos. O maître reconheceu Luana sem surpresa. Mesa reservada. Privacidade garantida. Mário puxou a cadeira para ela. Não por protocolo. Por instinto. Ela sentou. Ele sentou em frente. Por alguns segundos, não falaram sobre máfia. Falaram sobre comida. Ele comentou que nunca tinha visto um cardápio tão grande e não saber o que escolher. Ela respondeu que homens que crescem rápido aprendem a escolher mesmo quando não sabem. Ele riu. Riu de verdade. E ela percebeu. O sorriso dele era diferente quando não estava defendendo território. Era aberto. Quase jovem. Ela também o analisava. A camisa clara. O jeito como segurava o copo. O modo como observava o ambiente como quem tenta memorizar tudo. Havia algo bruto nele. Mas não vulgar. Ele não tentava parecer maior do que era. E isso o tornava interessante. — Você não está nervoso? ela perguntou. — Estou. Mas se eu demonstrar, você vai dizer que preciso me acostumar. Ela arqueou levemente a sobrancelha. — Está aprendendo rápido. Ele apoiou os braços na mesa. — Eu ainda sou mecânico. Ela inclinou o corpo. — Por enquanto. Ele riu de novo. — Você fala isso como se eu fosse virar chefe da máfia russa amanhã. Ela pegou o guardanapo com calma. — É o que você vai se tornar. Ele parou de rir. — Você está brincando, né? Ela o olhou por cima do copo. — Eu tenho cara de quem brinca? Silêncio. Ele sentiu o peso. Não era piada. Ela não falava por provocação. Falava por planejamento. Ele respirou fundo. — Eu sou um mecânico de São Paulo. — E agora é meu marido. A frase veio simples. Mas enorme. A comida chegou. Eles comeram. Conversaram sobre coisas triviais. Ele contou que já teve que desmontar um motor inteiro sozinho porque não tinha dinheiro para pagar ajuda. Ela contou que, quando tinha dezesseis anos, aprendeu a atirar antes de aprender a dirigir. Ele quase engasgou. Ela não riu. Mas havia algo mais leve ali. Quando terminaram, ela disse: — Agora vamos às compras. Ele franziu o cenho. — Mas você já comprou roupas para mim. — Aquilo era para ontem. — E você precisa comprar roupas para você? Ela se levantou. — Você precisa se parecer com o que está prestes a se tornar. A loja não tinha nome na fachada. Apenas vidro e discrição. Dentro, tecidos que pareciam caros até ao toque do olhar. Mário ficou deslocado no início. Mas não por muito tempo. Ela escolhia com precisão. Terno preto. Corte italiano. Ajuste perfeito. Camisa branca sob medida. Gravata de seda discreta. Abotoaduras minimalistas. Sapato social que parecia mais obra de arte do que calçado. Ele se olhou no espelho depois de vestir. Não era mais o homem da oficina. Os ombros pareciam mais largos. A postura mais firme. Ela se aproximou por trás. Ajustou a lapela. O toque foi leve. Mas elétrico. — Melhor. Ele encarou o próprio reflexo. — Ainda sou eu. — Não por muito tempo. Voltaram para casa no final da tarde. Às vinte horas, Dionísio já estava pronto. Terno escuro. Olhar duro. Ele não cumprimentou Mário. Apenas mediu. Mário não provocou. Mas também não baixou o olhar. Luana desceu por último. Vestido preto elegante. Cabelo preso com fios soltos que suavizavam a frieza calculada do resto. Mário a viu. E sentiu. Não como homem que deseja. Como homem que entende que está ao lado de algo maior. Ela parou diante dele. Ajustou a gravata dele. — Está pronto? — Você me deixou pronto. Ela sustentou o olhar. Breve. Entraram no carro. O caminho até o local da cúpula foi silencioso. Não pesado. Concentrado. O prédio era antigo. Histórico. Discreto demais para carregar o peso que carregava. Entraram. Os corredores tinham cheiro de madeira antiga e decisões velhas. Homens já estavam posicionados. Olhares. Avaliações. Sussurros. A entrada dela não foi anunciada. Mas foi sentida. Ela caminhava no centro. Mário ao lado. Não atrás. Isso não passou despercebido. Eles atravessaram o salão principal. E então aconteceu. A porta lateral se abriu. Afonso Castellano entrou primeiro. Terno impecável. Expressão controlada. Ao lado dele. Estela. O mundo não parou. Mas desacelerou. Mário a viu. O peito saltou. Três anos. Ausência. Busca. Silêncio. E agora. Ali. Estela também o viu. Primeiro, confusão. Depois, reconhecimento. Depois, choque. Não era apenas reencontro. Era descoberta. Ele não estava sozinho. Ele estava ao lado da mulher mais poderosa daquela sala. Luana sentiu. Não precisou olhar para Mário para saber que o impacto o atingiu. Mas ela olhou. Viu o microsegundo em que o passado tentou atravessar o presente. E registrou. Sem expressão. Sem palavra. A reunião ainda nem tinha começado. E o tabuleiro já estava vivo.
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