Quando o trono é testado sem um único tiro.
A sala não parecia uma sala. Parecia um tribunal antigo disfarçado de elegância. Madeira escura nas paredes, lustres pesados que davam a sensação de luz controlada, um tapete grosso o bastante para engolir passos e, ainda assim, não conseguia engolir a tensão. Havia silêncio, mas não era calma. Era contenção. Como se todos ali estivessem segurando a mão que queria ir direto para a arma.
A mesa central tinha o tamanho de uma sentença. Longa, sólida, com cadeiras distribuídas como se cada lugar fosse um território. De um lado, os russos, postura mais rígida, olhos mais frios, vozes que pareciam nascer de dentro da garganta com peso histórico. Do outro, os italianos, elegantes, venenosos, mais teatrais na forma, mas não menos perigosos. E, no meio de tudo, uma presença que não precisava anunciar poder.
Luana. Vestida de preto, tecido impecável, corte que não pedia permissão ao ambiente. O cabelo preso de forma firme, sem romantismo, sem delicadeza ensaiada. O rosto limpo, maquiagem mínima, olhos claros que pareciam enxergar mais do que o espaço mostrava.
Ela estava ali como se a sala fosse dela. Porque, de certa forma, era. Mesmo que metade dos homens ali desejasse vê-la fora, mesmo que a outra metade tolerasse por conveniência, mesmo que a história toda tivesse sido escrita por mãos masculinas.
Ao lado dela, Mário.
A diferença entre os dois era tão evidente que doía. Ele estava bem arrumado, sim, e isso já era parte da blindagem que ela havia construído desde cedo. Tinha no corpo a roupa certa, o corte certo, o ajuste certo. Mas havia algo que a roupa não mudava. A energia dele era humana demais. Ele não parecia um predador. Parecia um homem tentando respirar num aquário.
O olhar dele varreu a sala como quem procura uma porta de saída, mesmo sabendo que não vai usá-la. Ele sentiu a pressão das presenças como mãos invisíveis encostando no peito. E sentiu outra coisa também, mais íntima, mais c***l. O peso de estar ali por causa de um erro que nasceu do amor, e agora precisava virar sobrevivência.
Dionísio vinha dois passos atrás, com a postura de quem não entra num lugar, ocupa. A mão dele descansava perto do coldre, sem parecer ameaça, mas sendo. Os olhos dele passavam pela sala como lâmina. E, por um segundo quase imperceptível, ele olhou para Mário com a mesma mensagem de sempre, silenciosa e territorial.
Você não pertence.
Luana não reagiu. Ela não precisava reagir. A reação dela era continuar andando.
Do outro lado da mesa, Afonso Castellano já estava sentado. Terno claro, postura controlada, rosto sem emoção. Um homem que tinha aprendido cedo a não demonstrar o que sente, porque sentir, naquele mundo, era fraqueza. Ao lado dele, Estela.
Estela parecia menor do que o vestido que usava, mesmo sem estar de vestido de noiva. O cabelo impecável, a maquiagem bonita, mas havia uma rigidez no corpo dela, como se a pele estivesse vestindo um papel que não era confortável. Os olhos dela evitavam se fixar em alguém por tempo demais. Principalmente em Mário.
Mário viu.
E o impacto foi físico, não poético.
O coração dele deu um salto bruto, como se a realidade finalmente tivesse encontrado o peito dele com as duas mãos. A garganta secou. A palma das mãos começou a suar. Ele não percebeu de imediato que estava apertando os dedos contra a própria coxa, tentando segurar uma tremedeira que não tinha nada a ver com medo de arma, e tudo a ver com três anos de ausência.
Ele tinha imaginado esse encontro. Mil vezes. Em sonhos, em raiva, em noites m*l dormidas. Mas nunca imaginou assim. Nunca imaginou estar ao lado de uma mulher que todos chamavam de Rainha, e olhar para a mulher que ele amou como se ela fosse um fantasma que ainda respirava.
Estela, por sua vez, levantou o olhar por instinto. E, no momento em que viu Mário, o rosto dela perdeu cor por um segundo curto demais para alguém notar, mas longo o bastante para ele sentir.
Ela congelou por dentro.
O olhar dela desceu rápido, como se tivesse tocado fogo. E, ainda assim, ela não conseguiu evitar outra olhada. Pequena. Furtiva. Como quem confirma que não está delirando.
Luana percebeu tudo.
Não com emoção exposta. Com precisão.
Ela sentiu como uma onda silenciosa atravessar o corpo de Mário. Viu a mudança no maxilar dele. Viu a respiração dele falhar. Viu o suor que ele tentou esconder, passando discretamente a mão na calça como se fosse só nervosismo comum. E Luana, que passava a vida inteira lendo homens, reconheceu na hora.
Aquilo não era só memória. Era ferida aberta.
Ela não se mexeu. Apenas ajeitou-se na cabeceira da mesa com um gesto simples, como se fosse natural que aquele lugar fosse dela. Mário sentado ali ao lado, não atrás. Ao lado. E isso já foi um insulto para alguns e uma provocação para outros.
Os homens na mesa não precisavam falar para mostrar o desconforto. O desconforto já estava nos olhos.
Um dos russos, mais jovem, com arrogância de quem não viveu o suficiente para temer, inclinou-se para a frente e bateu a mão na madeira.
O som ecoou.
— Você está atrasada.
Luana levantou os olhos devagar. O tipo de devagar que não pede desculpa. O tipo de devagar que faz o outro lembrar que a pressa é sinal de ansiedade.
— Não estou atrasada, ela respondeu, voz baixa. Vocês começaram antes da minha chegada. Isso é diferente.
O russo apertou a mandíbula, irritado com a calma dela.
— Estamos aqui por causa do que aconteceu no casamento.
Outro homem russo, mais velho, mas ainda inflamado, falou por cima.
— O acordo foi quebrado.
Um italiano tossiu uma risada curta e sem humor.
— Quebrado por quem? perguntou, com a elegância venenosa de quem sabe onde cortar. Pelo homem que fugiu do altar.
O nome Victor circulou na sala como se fosse uma faísca. Para alguns, vergonha. Para outros, justificativa. Para outros, oportunidade de atacar Luana sem citar Luana.
Stefano, sentado a uma distância estratégica, inclinou-se com calma, a voz articulada como se estivesse em um jantar de empresários, e não num conselho de criminosos.
— O acordo era claro. O casamento era a assinatura. Victor saiu. Ele escolheu sair. Ele permitiu ser levado. Isso é deserção de acordo. Não é quebra da Rainha. É quebra do noivo.
— Você fala como advogado, não como homem, disparou um russo do lado oposto.
— Eu falo como alguém que entende contrato, Stefano respondeu, sem alterar o tom. E contrato não tem gênero. Tem assinatura.