O TEMOR DE UM HOMEM

1104 Words
Quando temer uma mulher vira uma ameaça. Mário ficou quieto, mas a cabeça dele girava. Ele tentava acompanhar a lógica, mas era como ouvir uma língua que ele não dominava, mesmo entendendo as palavras. Aliança, acordo, deserção, trono, Rússia, Itália. Era como se o casamento que ele fez por impulso tivesse virado um documento internacional que agora decidia vidas. Luana observava sem pressa. Ela não estava ali para convencer emocionalmente. Ela estava ali para dominar a narrativa. James, o russo operador financeiro, falou com a voz mais fria de todas. A frieza de quem mede pessoas em risco. — A quebra do acordo gerou instabilidade no eixo russo. Há células na Rússia que estavam esperando essa união para se reerguer sob Victor. Agora temos um buraco. Buracos atraem predadores. O homem jovem que tinha batido na mesa riu, como se fosse coragem. — Predadores? O predador é o próprio trono com uma mulher sentada nele. O ar ficou mais pesado. Mário sentiu o estômago afundar. Ele olhou para Luana por um segundo, esperando reação. Ela não deu. Ela apenas encarou o homem com uma espécie de tédio gelado. — Diga com clareza o que você quer dizer, ela falou. — Eu quero saber onde está o líder russo, disse outro, mais agressivo, o rosto vermelho de raiva. Quero saber por que ele não aparece. Quero saber se ele está vivo. O silêncio que veio depois dessa frase foi diferente. Não era mais debate. Era provocação direta. Damião, francês, mexeu a cabeça como quem reconhece que o fogo finalmente encostou no barril. Clóvis, da inteligência, permaneceu imóvel, mas os olhos dele acompanharam cada microexpressão da sala. Ele não olhava para quem falava. Ele olhava para quem reagia. Porque era ali que a traição nascia. Mário ouviu “líder russo” e sentiu a garganta apertar. Ele não sabia exatamente o que significava, mas a forma como falaram parecia um desafio à própria existência de Luana ali. E ele, sentado ao lado dela, era parte da provocação agora. Afonso continuava quieto, como se estivesse assistindo a uma reunião empresarial. Mas Estela, ao lado, parecia menor a cada segundo, e Mário não conseguia impedir o olhar de voltar para ela. Ele odiou isso em si mesmo. Odiou a fraqueza. Odiou o fato de estar ao lado de Luana e, ainda assim, sentir o peito responder ao passado. Luana percebeu a mão dele fechar em punho embaixo da mesa. Percebeu o suor. Percebeu o olhar que ele tentava conter. E aquilo acendeu nela um tipo de irritação que ela não gostava de nomear. Porque irritação, ela dominava. Ciúme, não. Ela não admitia ciúme. Ciúme era sensação. E ela tinha dito que não sentia. Mas o corpo dela, em silêncio, discordava. Dionísio ficou de pé discretamente, não como ameaça aberta, mas como aviso. O gesto dele foi mínimo, mas a mensagem era clara. Se alguém tentar encostar, vai morrer. O homem russo mais velho apontou o dedo para Luana. — Você devia obediência ao conselho. Você devia obediência ao sangue russo. Luana inclinou o rosto um milímetro. — Eu não devo obediência a homens que só lembram de tradição quando precisam esconder covardia. O som de cadeiras se mexendo começou. Pequeno. Sutil. Aquele tipo de movimento que antecede violência. O jovem russo sorriu, como quem quer o caos. — Então você confirma que não se casou com Victor. Confirma que nos desafiou. Stefano ia falar, mas Arkady Sergeyevich Mikhailov, o ancião, levantou apenas a mão. A mão tremia levemente pelo peso da idade, mas a sala inteira parou como se fosse uma arma apontada. Arkady estava sentado mais ao fundo, numa cadeira que parecia mais alta do que deveria. Não por design. Por reverência. Ele era velho o suficiente para ter sido temido quando o mundo ainda tinha outras guerras. O rosto dele era sulcado de tempo, mas os olhos, apesar da idade, tinham a lucidez c***l de quem já enterrou homens mais jovens do que todos ali juntos. Ele não gostava de Luana. Isso era conhecido, mesmo sem ele dizer. Não por ela ser incapaz. Mas por ela ser mulher. Porque, dentro dele, ainda havia o machismo antigo, o mesmo que constrói impérios e chama isso de ordem. E, ainda assim, Arkady sabia o valor do trono. Sabia o valor da estabilidade. Sabia reconhecer força, mesmo odiando admitir. A voz dele saiu baixa. — Onde está Victor? A pergunta foi simples. Mas era uma armadilha. Luana não desviou. — Foragido. Arkady inclinou a cabeça. — Com quem? — Com Nádia Petronik. Um murmúrio atravessou a ala russa como um veneno espalhado em água. Arkady continuou, sem alterar o tom. — E por que ele saiu do altar? Um russo tentou responder por ela, inflamado. — Porque ela armou tudo. Luana virou os olhos lentamente para aquele homem, depois voltou para Arkady. — Porque ele escolheu não sustentar o acordo quando foi testado. — Testado por uma amante armada, ironizou um dos russos, rindo. Luana não riu. Ela não ironizou. Ela matou a ironia com calma. — Uma amante armada não sequestra um homem que não quer ser levado. Stefano assentiu discretamente, como quem confirma o óbvio. Arkady ficou em silêncio por alguns segundos. O tipo de silêncio que mede. Mário sentiu o ar faltar um pouco. Porque aquela frase de Luana tinha peso demais. E, pela primeira vez, ele percebeu que Victor não tinha sido vítima do caos. Victor tinha usado o caos. Aquilo era traição de acordo. Mas também era estratégia. E se era estratégia, a guerra não tinha começado hoje. Ela já estava em curso. Um russo bateu na mesa de novo. — Nós não aceitamos isso. O acordo era com Victor. Outro completou. — O trono russo precisa de um homem. A palavra homem ficou pendurada no ar como ofensa. Luana não piscou. — O trono russo precisa de alguém que sustente o trono. O jovem russo riu, debochado. — E você sustenta com o quê? Com charme? Com alianças? Com beleza? Luana olhou para o homem. A frase tentou humilhá-la. Como se beleza fosse o único poder que uma mulher pudesse ter. Luana inclinou-se levemente para a frente. — Eu sustento com o que vocês têm medo de sustentar. Consequência. Cuidado pois o que você quer está muito claro. Você queria o lugar de Victor, e agora o lugar de Mário. E acho que não é só por minha beleza. O homem engoliu em seco. Afonso via e ouvia tudo em silêncio. Até parecia ser invisível. Não defendia o irmão, pois entendia o jogo e só precisava mostrar para Victor a decisão de Luana.
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