CIÚMES COM ROSTO DE UMA MULHER

1098 Words
Quando uma mulher que não sentia, comeca a sentir. O som de respirações mudou. O ambiente ficou mais quente. Não pelo clima. Pelo risco. Arkady observou como quem assiste um animal encurralado escolher se morde ou ataca. Ele tinha certeza sobre uma coisa, e isso não era segredo dentro dele. Ele sabia que Luana tinha matado o marido. Sabia que foi defesa, porque conhecia o tipo de homem que aquele líder era. Um predador que matava mulheres na primeira noite se não gostasse do gosto delas, como se esposa fosse objeto. Arkady sabia. E, por saber, desprezava Luana por ter sobrevivido de um jeito que ele chamava de desobediência, mesmo reconhecendo que teria feito o mesmo se estivesse no lugar dela. Machismo era isso também. Hipocrisia antiga com verniz de tradição. Ele continuou ambíguo. Não a derrubava. Não a coroava. Mantinha a lâmina suspensa. — Você está dizendo que tem uma solução, Rainha? Luana soltou o ar devagar, como se estivesse apenas organizando o próximo passo. — Eu tenho. O jovem russo bateu na mesa. — Então diga. Porque se não houver solução, o conselho vota. Dionísio deu um passo mínimo. A mão dele se aproximou ainda mais do coldre. James ergueu levemente o queixo, como quem calcula quantos morreriam em quantos segundos. Clóvis observou as mãos, não os rostos. Porque mãos traem intenções. Mário ouviu “vota” e sentiu o medo subir como ácido. Porque “vota” naquele mundo não era democracia. Era execução disfarçada. Luana virou o rosto, e foi aí que ela olhou de verdade para Mário. Não com carinho. Com comando silencioso. E Mário, no meio daquele pânico, percebeu uma coisa terrível. Ela não olhava para pedir ajuda. Ela olhava para incluir ele na estratégia. Como se ele fosse peça que precisava existir no tabuleiro. E aquilo o assustou mais do que qualquer arma. Ele sentiu o olhar de Estela queimando nele por um segundo, e desviou. Não por culpa. Por instinto de sobrevivência. Porque Luana estava vendo tudo. Luana levantou-se. O movimento foi simples. Mas fez todos se calarem. Ela ficou de pé sem pressa, a cadeira apenas recuando o suficiente. O silêncio se instalou como se fosse imposto por força física. Ela não levantou a voz. — Victor quebrou o acordo. Um russo tentou interromper, mas ela continuou, sem permitir. — Victor fugiu com Nádia. A ala italiana se mexeu, como quem reafirma a narrativa. A ala russa endureceu, como quem odeia ouvir. — Se vocês querem guerra, ela disse, olhando um por um, é muito simples. Luana parou. O tipo de pausa que faz o mundo prender o ar. — Levantem suas armas e atirem na minha cabeça agora. O choque foi imediato. Por um segundo, a sala inteira pareceu esquecer como respirar. Homens que batiam na mesa agora estavam imóveis. O tipo de frase que não se responde com argumento. Se responde com ato. E ato, ali, significava sangue. Dionísio ficou completamente pronto. Não teatral. Pronto de verdade. Os homens de Luana, posicionados discretamente na sala e nas portas, se tornaram presença visível sem se mexerem muito. Porque um corpo que sabe matar não precisa dançar para ameaçar. Mário ficou gelado. Ele olhou para Luana como se finalmente entendesse, de um jeito brutal, que aquela mulher não sobrevivia por sorte. Ela sobrevivia porque criava situações em que o outro precisava escolher se era corajoso o bastante para morrer. Arkady não se mexeu. Ele observou a sala como se estivesse lendo a alma de cada um. Ele sabia que nenhum daqueles homens queria morrer ali. Não por honra. Por cálculo. E ele respeitava cálculo mais do que respeitava orgulho. Depois de alguns segundos, Arkady falou, voz baixa. — E qual é sua solução, Rainha? Luana virou o rosto lentamente para Mário. O gesto não foi romântico. Foi político. E, ainda assim, naquele instante, Mário sentiu que o mundo inteiro estava tentando empurrá-lo para dentro de uma identidade que ele não tinha pedido. Luana voltou os olhos para Arkady. — Eu cumpri minha parte, ela disse, com a tranquilidade de quem fincou uma bandeira. O acordo era uma casamento, eu estou casada. E meu marido vai assumir o trono russo. Mário olhou para Luana. Estela olhou pra Afonso, depois para Mário. Um murmúrio atravessou a sala. — Nunca. Um Brasileiro no trono sem saber nem atirar? Mário sacou a arma de Luana a apontou para o homem. — Tem certeza? Mário falou sério. Todos se mexeram. Estela se assustou. Luana lia a reação de todos na sala. Arkady olhou para Mário e viu ousadia. Sorriu de canto. O jovem russo cuspiu uma risada. — Casada com um mecânico, Rainha? Que acha que atirar é matar? Luana não reagiu ao insulto. Ela reagiu ao risco por trás dele. — Eu continuo sendo Rainha, ela completou. E quem tiver alguma coisa contra isso… atire agora. A frase ficou suspensa. E ninguém atirou. Mário devolveu a arma ao coldre de Luana e se sentou. coragem é fácil quando você acha que o outro vai recuar. Mas Luana não recuava. E eles sabiam. Luana inclinou a cabeça, quase imperceptível. — Reunião encerrada. Ela se sentou, como se nada tivesse acontecido. E, um por um, os homens começaram a se levantar. Alguns saíram com raiva. Outros saíram com silêncio. Outros saíram olhando para Luana como se estivessem recalculando tudo o que acreditavam saber sobre ela. A ala italiana manteve o rosto mais controlado. A ala russa, mais amarga. Arkady permaneceu sentado, observando por último, como se dissesse com o próprio corpo que aquilo ainda não estava encerrado de verdade. Ele não validou. Não a destronou. Ficou ambíguo, como lâmina guardada. Mário permaneceu imóvel por alguns segundos, sentindo o corpo inteiro vibrar com adrenalina atrasada. Ele tinha acabado de perceber que, naquele mundo, frases eram armas. E Luana tinha uma coleção delas. Do outro lado, Estela levantou-se junto com Afonso. Afonso não foi embora de imediato. Ele parou do lado de fora da sala principal, conversando com um dos italianos, postura controlada, como se estivesse apenas ajustando logística. Estela ficou ao lado, quieta, os dedos apertando a bolsa com força demais. E antes de virar o corredor, Estela olhou de novo para Mário. Dessa vez, Mário não conseguiu evitar. Ele olhou também. Sem palavra. Sem gesto. Só o choque puro de dois passados se reconhecendo no presente errado. Luana viu. E, por trás do rosto frio, algo nela se fechou com uma força silenciosa. Porque a reunião tinha terminado. Mas a guerra, agora, tinha um rosto. E na cabeça de Luana era o rosto de Estela.
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