Quando o trono exige presença e o coração exige escolha.
A porta da sala enfim cedeu o último suspiro de tensão quando Luana saiu com a mesma calma com que tinha encerrado a reunião. Por dentro, o ar ainda vibrava como se as vozes continuassem batendo nas paredes, como se as mãos ainda estivessem prontas para alcançar armas. Por fora, o corredor amplo parecia neutro demais para o que tinha acontecido ali dentro.
Mário vinha logo atrás, rígido, o rosto ainda marcado por um choque que ele não sabia nomear. Não era só a reunião. Não eram só os homens, o ancião russo, os italianos batendo na mesa, a palavra guerra pairando como fumaça. Era a presença de Estela naquele mundo, em carne e osso, do outro lado da sala, de cabeça baixa, com o sobrenome de outro homem, e o peito dele tentando lembrar como era respirar antes daquela visão.
No hall, Afonso já estava de pé, a postura de quem não tinha sido varrido pela tempestade lá dentro e não pretendia ser agora. Estela ficou dois passos atrás dele, segurando a bolsa com as duas mãos, as unhas bem feitas cravadas no couro como se aquilo fosse a única coisa firme no planeta. O olhar dela escapava, rápido, para Mário, e fugia de novo, como se o simples ato de encará-lo por mais de um segundo fosse perigoso.
Mário chamou, sem perceber que a voz saiu mais rouca do que deveria.
— Estela.
O nome caiu no espaço como um objeto pesado.
Afonso deu um passo à frente, fechando a distância, o corpo cortando o caminho entre os dois. Ele não perguntou primeiro. Ele mediu. De cima a baixo. O terno de Mário era bom, novo, caro demais para as mãos de quem ainda carregava calos na memória. Mas havia algo que não combinava com aquele ambiente. Um tipo de verdade exposta demais no olhar.
— Você está chamando a minha esposa por quê? Afonso perguntou, o tom baixo, mas carregado de posse.
Mário segurou o impulso de avançar. Não queria briga. Não ali. Não daquele jeito. O sangue ainda fervia, e a cabeça dele não conseguia separar o homem na frente dele da ideia de que Estela tinha sido arrancada da vida dele e recolocada ali, encaixada no braço de alguém como se fosse normal.
— Eu conheço ela, Mário respondeu, tentando manter o controle. Eu não a vejo há três anos.
Afonso estreitou os olhos, como se “três anos” fosse só mais um número que não significava nada perto do que ele tinha agora. Estela baixou a cabeça com mais força, o gesto pequeno, mas suficiente para denunciar que aquilo não era confortável nem para ela.
— Não me interessa, Afonso disse, firme. Eu não quero homem se aproximando da minha mulher.
Luana parou ao lado de Mário como se tivesse calculado o ponto exato onde a presença dela seria lâmina. Ela não levantou a voz. Não precisou. O silêncio ao redor pareceu ajustar a própria postura quando ela falou.
— Então eduque sua esposa a não olhar para o meu marido.
Afonso travou por meio segundo, como quem não esperava ser atravessado daquela forma. Ele abriu a boca para reagir, mas o olhar de Luana não dava espaço para discussão. Não era ameaça explícita. Era um fato. Uma verdade posicionada como sentença.
Mário sentiu a frase bater em algum lugar estranho dentro dele. Meu marido. Não era afeto. Era domínio. Ainda assim, a palavra acendeu algo que ele não estava pronto para admitir.
Estela ergueu o rosto por um instante e, dessa vez, olhou direto para Luana. Havia pânico ali. Havia também cálculo, como se ela tentasse medir até onde podia ir sem virar alvo. O olhar dela deslizou para Mário e, nesse segundo, ele viu algo que não viu no passado. Não era só culpa. Era medo.
Afonso percebeu o movimento de Estela e a puxou pelo braço com força suficiente para ser visto, mas disfarçada o bastante para ser chamada de proteção. Estela não resistiu. Apenas se deixou conduzir, como quem já tinha entendido qual era o lugar dela naquela estrutura.
— Vamos, Afonso disse para ela, sem olhar para Mário. Agora.
Luana não se moveu. Só acompanhou com os olhos, fria, observando o recuo deles como quem observa uma peça saindo do tabuleiro na velocidade que ela mesma determinou.
Quando Mário deu um passo, a mão de Luana tocou o antebraço dele, leve, mas suficiente para travar o corpo dele por dentro.
— Não aqui, ela disse, quase sem som.
Ele engoliu seco. Não era obediência. Era consciência. Ele viu o peso do lugar. Viu os olhares. Viu que qualquer movimento errado seria usado contra os dois.
Do lado de fora, o carro já aguardava. Dionísio estava encostado na porta, postura impecável, a mão próxima demais do coldre escondido, como se o mundo fosse sempre um segundo antes de explodir. Quando Luana se aproximou, ele endireitou o corpo com reverência. Quando viu o rosto de Mário, viu também o tipo de tensão que só nasce de posse ferida.
Dionísio sorriu de canto, quase imperceptível, como se tivesse acabado de assistir a um recado silencioso que só ele entendeu por completo.
Luana entrou primeiro. Mário entrou em seguida. Dionísio fechou a porta com cuidado demais para ser só educação.
O carro deslizou pela cidade com uma normalidade c***l. O trânsito seguia. Gente atravessava ruas. Luzes acendiam. O mundo parecia insistir em ser comum, enquanto dentro daquele carro o ar era pedra.
Luana olhava para frente, o rosto imóvel, a respiração controlada. Mário tentava não olhar para o reflexo do vidro, como se ele ainda pudesse ver Estela ali, a sombra dela grudada na retina.
Dionísio dirigia sem pressa, mas atento, e o sorriso de canto tinha sumido. O que restava era uma satisfação silenciosa de quem sabia que a Rainha estava segurando algo grande demais dentro do peito.
Chegaram à mansão. O portão abriu. A casa recebeu Luana como se reconhecesse autoridade no jeito que ela pisava no chão.
Ela entrou, tirou os saltos devagar, um por vez, e deixou os sapatos no lugar exato, sem ruído. A calma dela era quase ofensiva. Mário ficou parado por um instante, como um homem que não sabia onde colocar as mãos num lugar que não era dele.
Luana foi até o bar, serviu uma bebida sem perguntar se ele queria. O líquido caiu no copo com um som baixo, limpo, preciso. Ela não olhou para ele quando levou o copo à boca. Bebeu um gole pequeno, mais por controle do que por gosto.
Mário sentiu o gelo no ambiente como se a temperatura tivesse caído.
— Você tá… bem? ele perguntou, e a pergunta saiu errada, fraca, quase infantil.
Luana demorou a responder.
— Estou funcional, ela disse.
Ele apertou a mandíbula.
— Você ficou estranha depois que a gente saiu.
Luana colocou o copo no balcão, devagar. Virou o rosto para ele com uma neutralidade que irritava mais do que grito.
— Estranha é você, Mário.
Ele tentou sustentar o olhar dela, mas a lembrança de Estela apareceu de novo, como um reflexo involuntário, e isso foi o suficiente para Luana perceber.
O silêncio se esticou.
— Quer terminar o que começou? ela perguntou, num tom baixo, perigoso.
Mário travou. O coração dele bateu forte, não por desejo, mas pelo corte embutido na frase. Ele entendeu o recado. Você quer ser meu marido ou quer ser um homem com o olhar preso em outra mulher.
— Eu não comecei nada com você por brincadeira, ele disse, a voz firme, apesar do peito confuso.
Luana deu um passo para perto, não para encostar, mas para ocupar. O espaço entre os dois ficou mais estreito.
— Então pare de me expor, ela disse. Você não estava olhando para uma mulher. Você estava demonstrando fraqueza.
A palavra fraqueza acertou Mário como tapa.