Quando o passado pesa chamando a verdade.
— Você sabia, ele rebateu, e a voz dele ganhou um peso que não tinha antes. Você sabia o tempo inteiro que eu estava aqui para falar com Estela. Você não foi enganada.
Luana respirou pelo nariz, lenta, como se aquilo não a atingisse. Mas atingiu. A rigidez do maxilar dela denunciou.
— Eu não aceito dividir, Mário.
— Você não dividiu nada, ele respondeu, e a dor que ele tentou esconder vazou por uma fresta. Eu só olhei. Eu precisava olhar.
Luana se aproximou mais um passo, e o olhar dela era um aviso.
— Hoje você dorme no quarto de hóspedes.
Mário piscou, sem entender se era ordem, castigo ou teste. O peito dele apertou. Não era orgulho apenas. Era um tipo de humilhação que ele não aceitava bem, principalmente por sentir que estava sendo punido por algo que ela sempre soube.
Ele subiu as escadas com passos duros. Parou no meio do caminho e olhou para baixo, a voz saindo alta o suficiente para preencher o vão da escada.
— Eu sou seu marido, não sou seu filho. Não me trate como criança.
Luana não respondeu. A ausência de resposta dela era parte do castigo. Mário sentiu a garganta fechar, e mesmo assim entrou no quarto de hóspedes, fechando a porta sem bater, mas com força o bastante para o som existir.
A noite passou pesada. Não havia paz. Havia distância.
Quando amanheceu, a casa parecia maior. O silêncio parecia mais nítido.
Mário desceu cedo, o rosto fechado, a barba por fazer denunciando que ele não tinha dormido como deveria. Fez café por hábito, por necessidade de ocupar as mãos. Quando Luana desceu, estava impecável demais para alguém que tinha vivido a mesma noite. A postura era reta. O olhar era frio. A camisa dele não estava nela. Isso, por si só, era um recado.
Sentaram-se à mesa como dois aliados forçados, não como casal. O café tinha cheiro bom, mas nenhum dos dois parecia sentir.
Mário mexeu a xícara sem beber.
Luana tomou um gole pequeno, sem pressa.
O silêncio virou provocação.
— Você dormiu? ele perguntou, seco.
— Dormi o suficiente, ela respondeu.
Mário soltou o ar, cansado.
— Eu não entendo como você vive, Luana.
Ela ergueu o olhar para ele.
— Você vai se acostumar.
Mário riu sem humor.
— E se eu não me acostumar?
— Então você vai viver um inferno, ela disse, simples. E ninguém quer viver assim.
Ele encostou a xícara na mesa.
— Você não precisa me expulsar para me lembrar que isso é o seu mundo.
Luana apoiou os dedos no tampo da mesa, como se organizasse a própria paciência.
— Eu não expulsei. Eu delimitei.
Mário inclinou o corpo para frente.
— Delimitou por quê?
Luana sustentou o olhar dele por um segundo longo. E então fez a pergunta que ela vinha evitando desde a noite anterior, porque sabia o tamanho da explosão.
— Você ainda ama Estela?
O peito de Mário apertou como se alguém tivesse puxado uma corda por dentro. A resposta não vinha limpa. Porque não era uma resposta simples. Era um lodo de três anos.
— Eu não sei responder isso sem saber o que aconteceu, ele disse, e a sinceridade dele doeu mais do que qualquer mentira. Eu preciso entender. Eu preciso colocar um ponto final.
Luana ficou imóvel, mas o olhar dela escureceu um grau.
— Ela está casada com outro homem.
— Eu sei.
— E você não conhece a mulher que você perdeu há três anos atrás, Luana disse, e a voz dela foi baixa, firme, como se fosse um diagnóstico. Você está apaixonado por uma memória.
Mário se levantou, o gesto impulsivo. Aproximou-se dela, e por um segundo o corpo dele esqueceu prudência. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, como quem segura uma verdade que pode escapar.
— Então me conte, ele disse, a voz rasgando. Quem é a mulher que eu perdi há três anos atrás?
Luana tirou as mãos dele do rosto com uma calma que não combinava com a intensidade do gesto. Não foi brusca. Foi definitiva. O toque dela era frio, mas não frágil.
— Não seria mais fácil você esquecer o passado? ela perguntou, sem ironia. Sem doçura. Apenas com a frieza de quem acredita nisso de verdade.
Mário ficou olhando para ela, respirando pesado, como se a pergunta fosse uma prisão invisível.
Luana se levantou devagar. Passou por ele sem esbarrar, mas perto o suficiente para o perfume dela ficar no ar e incomodar.
Antes de sair da sala, ela parou e olhou por cima do ombro, os olhos azuis firmes, a voz limpa.
— Então pare de olhar para trás.
Luana subiu as escadas com passos duros.
Não correndo. Não descontrolada.
Mas cada salto no mármore denunciava que a tranquilidade da Rainha tinha rachado.
A porta do quarto bateu.
Lá embaixo, Mário ficou parado no meio da sala, olhando para o nada. O café ainda estava na mesa. A conversa ainda estava no ar. A frase dela ecoava como martelo.
Você não conhece a mulher que perdeu há três anos.
Ele passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro como um animal preso dentro de um território que ainda não entende.
O que ela quis dizer com isso?
Ele parou na mesa, apoiou as mãos no tampo e ficou olhando para a madeira como se ali estivesse alguma resposta.
Estela não é a mulher que você conheceu.
Por que ela se casou com Afonso?
Por que parecia mais que ela temia o marido do que o respeitava?
Por que não olhou para ele como antes?
Por que havia medo no olhar dela?
O peito dele apertou.
O que está acontecendo que eu não estou vendo?
Ele respirou fundo. Uma vez. Duas.
Não aguentou.
Subiu as escadas quase correndo.
A porta do quarto estava aberta. Luana estava de pé perto da janela, de costas, olhando para o jardim como se nada pudesse atingi-la.
— Luana.
Ela não se virou.
— Eu disse para parar de olhar para trás.
Ele entrou e fechou a porta atrás de si.
— Me conta.
Silêncio.
— Me conta o que você sabe.
Ela respirou devagar.
— Você não está pronto.
Ele deu dois passos até ela.
— Não decide isso por mim.
Ela virou o rosto lentamente. O olhar azul estava frio, mas havia tensão ali, algo que não era indiferença.
— Você quer saber por que ela se casou, por que ela tem medo, por que parece diferente?
Ele assentiu, firme.
— Eu preciso acabar com isso.
Luana sustentou o olhar dele por um segundo longo demais.
— Você precisa decidir primeiro onde está.
Ele franziu a testa.
— Eu estou aqui.
— Está? A voz dela saiu baixa. Ou está dividido?
Ele se aproximou mais.
— Eu sou seu marido.
Ela deu um passo atrás.
Ele encurtou a distância e a encostou na parede. Não com violência, mas com necessidade, com urgência.
— Me fala.
A respiração dos dois mudou.
— Eu preciso encerrar isso. Preciso saber o que aconteceu.
Ela olhou direto nos olhos dele.
— Eu só vou contar quando você parar de olhar para o passado.
A mandíbula dele tensionou.
— Não é assim que funciona.
— É exatamente assim que funciona, ela respondeu firme. Quando você tiver certeza de que é só meu. Quando não houver mais sombra nos seus olhos. Quando eu souber que você não vai correr atrás dela depois que descobrir a verdade.