TERRITÓRIO

1220 Words
Quando o silêncio marca mais que palavras. A casa ainda estava mergulhada naquele silêncio pesado que fica depois de uma tempestade. O quarto tinha cheiro de pele, de vinho esquecido na respiração e de algo que não era mais disputa, era posse. Luana abriu os olhos primeiro. Por um segundo não se moveu. Sentiu o peso do braço de Mário sobre a cintura. Sentiu a respiração dele na curva do pescoço. Sentiu o próprio corpo ainda sensível, aquecido, saciado. Não era fraqueza. Era escolha. Ela se desvencilhou devagar, sem acordá-lo. Pegou a camisa preta que ele havia usado mais cedo. Vestiu. O tecido largo desceu até o alto das coxas. Não escondia. Não precisava. Ela prendeu o cabelo num coque despretensioso. Nenhuma maquiagem. Nenhuma armadura. Desceu. A cozinha ainda estava com luz baixa. Ela abriu a geladeira, pegou água. O movimento era natural, seguro. A camisa subia quando ela esticava o braço. A pele da perna ficava exposta sem esforço. A porta principal abriu. Dionísio entrou. Ele não fazia barulho quando caminhava. Nunca fazia. Parou no corredor. Os olhos dele encontraram Luana de costas, apoiada na bancada. A camisa. As pernas. O cabelo preso de qualquer jeito. Algo diferente no ar. Ele percebeu. Não era sobre roupa. Era sobre energia. — Minha rainha. A voz saiu controlada, mas mais baixa do que o habitual. Luana virou o rosto lentamente. — Dionísio. Alguma movimentação? Ele manteve os olhos no rosto dela. Forçou isso. — Nenhuma anormalidade durante a madrugada. Mas houve ruído interno depois que a reunião terminou. Antes que ela perguntasse, passos ecoaram na escada. Mário desceu. Descalço. Calça leve. Sem camisa. Parou no último degrau. Viu Dionísio. Viu o olhar. E viu exatamente onde ele estava olhando segundos antes. Diferente da primeira vez, ele não fechou a expressão. Não se irritou. Desceu o restante da escada com calma. Foi até Luana. Sem pedir licença. Sem olhar para Dionísio. A mão dele pousou na cintura dela. Não firme demais. Não agressiva. Mas clara. Luana sentiu. Dionísio também. O gesto não era s****l. Era territorial. — Bom dia, disse Mário, a voz tranquila demais. Dionísio não respondeu ao “bom dia”. Respondeu ao gesto. — Precisamos conversar sobre a repercussão da reunião. Mário puxou Luana levemente para mais perto, quase imperceptível. — Então conversa. Eu estou aqui. O silêncio ficou espesso. Dionísio avaliou. Não havia arrogância em Mário. Havia afirmação. Isso incomodava mais. Luana cruzou os braços. — Fale. Dionísio desviou o olhar por um segundo. Voltou para ela. — O núcleo russo está dividido. Alguns acreditam que o casamento com o Victor ainda poderia ser retomado caso ele reapareça. Mário sentiu o músculo da mandíbula travar. Luana não reagiu. — Ele não reaparecerá para retomar nada. — Eles não veem assim. Mário apertou a cintura dela um pouco mais. Dionísio viu. Anotou mentalmente. — E o que você sugere? Luana perguntou. — A cúpula vai exigir demonstração de estabilidade. Querem saber quem lidera de fato. Mário olhou para Luana. Ela sabia. Ela já estava três passos à frente. — Eu lidero, respondeu ela, simples. Dionísio respirou fundo. — Eles querem prova. O silêncio caiu novamente. Mário então falou. — E vão ter. Dionísio virou o rosto para ele. — Como? Mário sustentou o olhar. — Da mesma forma que sempre tiveram. Ordem. Resultado. Sem hesitação. Dionísio estudou aquele homem por alguns segundos. Não havia medo. Havia desconhecimento do perigo. E isso podia ser coragem ou loucura. Luana se afastou suavemente de Mário. — Preparem o escritório. Em trinta minutos eu desço. Dionísio assentiu. Mas antes de sair, lançou um último olhar para a camisa dela. Depois para a mão de Mário ainda tocando a cintura dela. Saiu. O ar ficou diferente. Mário soltou devagar. — Ele não gosta de mim. Luana pegou o copo de água. — Ele não gosta de dividir. — Você é território dele? Ela virou o rosto lentamente. — Eu sou território de ninguém. Mário se aproximou. — Ontem você não parecia tão neutra assim. Um quase sorriso surgiu no canto da boca dela. — Você também não. Ele se inclinou levemente. — Eu não gosto de homem circulando pela sua casa enquanto você anda assim. Ela ergueu o queixo. — Você não gostava. Ele não negou. — E agora? — Agora eu sei que quando ele olha, ele sabe que você é minha. O silêncio que veio depois não era leve. Era perigoso. Luana sustentou o olhar. Algo nela reagiu. Não como rainha. Como mulher. Mas ela virou primeiro. — Vou me trocar. Subiu as escadas. Mário ficou parado na cozinha alguns segundos. Depois passou a mão no rosto. Não era só desejo. Era responsabilidade. Minutos depois, ela desceu diferente. Terno claro. Cabelo solto agora escovado. Maquiagem leve, estratégica. A rainha tinha voltado. Mário vestiu uma camisa simples. Não formal demais. Eles desceram juntos para o escritório. Os cinco homens já estavam posicionados. James com tablet aberto. Stefano em pé perto da janela. Clóvis sentado, observando tudo. Damião encostado na estante. Dionísio ao lado da porta. Mário sentiu o peso real. Aquilo não era sala de jantar. Era centro de comando. Luana sentou na cabeceira. Mário à direita. Não atrás. Não de pé. Ao lado. O gesto não passou despercebido. — Relatório completo, ela ordenou. James começou. — Movimentação financeira estabilizada. Nenhuma retirada suspeita. Porém, dois membros do conselho russo exigiram reunião paralela. Stefano completou. — A ala italiana declarou oficialmente que Victor quebrou o acordo ao abandonar o altar. Damião falou em seguida. — Logística intacta. Nenhum vazamento externo ainda. Clóvis ergueu os olhos. — Mas haverá. É questão de horas. O silêncio se adensou. Luana cruzou as mãos sobre a mesa. — Então nos antecipamos. Mário observava. Ela não falava alto. Não ameaçava. Mas cada frase dela encerrava debate. — Preparem comunicado interno. O casamento está consolidado. A liderança permanece intacta. Qualquer questionamento será tratado como insubordinação. Dionísio falou então. — E se houver teste de força? Ela olhou para ele. — Então haverá resposta. Mário percebeu algo. Ali não havia espaço para dúvida. Só estratégia. James virou-se para Mário pela primeira vez. — E quanto ao senhor? A pergunta não era cordial. Era cálculo. Mário não desviou. — Quanto ao quê? — Sua posição. Mário respirou uma vez. — Eu estou onde ela está. Simples. Sem discurso. Sem promessa. Dionísio observou. Aquilo não era arrogância. Era escolha. Luana encerrou. — A cúpula acontecerá conforme previsto. Ninguém se move antes da minha ordem. Os homens assentiram. Um por um, saíram. Dionísio foi o último. Parou ao lado de Mário. — Você ainda não entende o tamanho disso. Mário sustentou o olhar. — Talvez não. Mas eu aprendo rápido. Dionísio inclinou levemente a cabeça. — Espero que sim. Saiu. A porta fechou. O silêncio voltou. Luana permaneceu sentada alguns segundos. Mário olhou para ela. — Está doendo? Ela não respondeu de imediato. Depois levantou. — Está ficando interessante. Ele se aproximou. — Isso é bom ou r**m? Ela parou diante dele. — Depende de quem sobreviver. Ele quase sorriu. — Então eu vou sobreviver. Ela ergueu o queixo. — Vai ter que merecer. E naquele instante ficou claro: A rivalidade com Dionísio não tinha começado. Ela tinha sido oficializada. E o império não tinha apenas um novo marido. Tinha uma nova variável.
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