Quando o silêncio marca mais que palavras.
A casa ainda estava mergulhada naquele silêncio pesado que fica depois de uma tempestade.
O quarto tinha cheiro de pele, de vinho esquecido na respiração e de algo que não era mais disputa, era posse.
Luana abriu os olhos primeiro.
Por um segundo não se moveu. Sentiu o peso do braço de Mário sobre a cintura. Sentiu a respiração dele na curva do pescoço. Sentiu o próprio corpo ainda sensível, aquecido, saciado.
Não era fraqueza.
Era escolha.
Ela se desvencilhou devagar, sem acordá-lo. Pegou a camisa preta que ele havia usado mais cedo. Vestiu. O tecido largo desceu até o alto das coxas. Não escondia. Não precisava.
Ela prendeu o cabelo num coque despretensioso. Nenhuma maquiagem. Nenhuma armadura.
Desceu.
A cozinha ainda estava com luz baixa. Ela abriu a geladeira, pegou água. O movimento era natural, seguro. A camisa subia quando ela esticava o braço. A pele da perna ficava exposta sem esforço.
A porta principal abriu.
Dionísio entrou.
Ele não fazia barulho quando caminhava. Nunca fazia.
Parou no corredor.
Os olhos dele encontraram Luana de costas, apoiada na bancada.
A camisa.
As pernas.
O cabelo preso de qualquer jeito.
Algo diferente no ar.
Ele percebeu.
Não era sobre roupa. Era sobre energia.
— Minha rainha.
A voz saiu controlada, mas mais baixa do que o habitual.
Luana virou o rosto lentamente.
— Dionísio. Alguma movimentação?
Ele manteve os olhos no rosto dela. Forçou isso.
— Nenhuma anormalidade durante a madrugada. Mas houve ruído interno depois que a reunião terminou.
Antes que ela perguntasse, passos ecoaram na escada.
Mário desceu.
Descalço. Calça leve. Sem camisa.
Parou no último degrau.
Viu Dionísio.
Viu o olhar.
E viu exatamente onde ele estava olhando segundos antes.
Diferente da primeira vez, ele não fechou a expressão.
Não se irritou.
Desceu o restante da escada com calma.
Foi até Luana.
Sem pedir licença.
Sem olhar para Dionísio.
A mão dele pousou na cintura dela.
Não firme demais. Não agressiva.
Mas clara.
Luana sentiu.
Dionísio também.
O gesto não era s****l.
Era territorial.
— Bom dia, disse Mário, a voz tranquila demais.
Dionísio não respondeu ao “bom dia”. Respondeu ao gesto.
— Precisamos conversar sobre a repercussão da reunião.
Mário puxou Luana levemente para mais perto, quase imperceptível.
— Então conversa. Eu estou aqui.
O silêncio ficou espesso.
Dionísio avaliou.
Não havia arrogância em Mário.
Havia afirmação.
Isso incomodava mais.
Luana cruzou os braços.
— Fale.
Dionísio desviou o olhar por um segundo. Voltou para ela.
— O núcleo russo está dividido. Alguns acreditam que o casamento com o Victor ainda poderia ser retomado caso ele reapareça.
Mário sentiu o músculo da mandíbula travar.
Luana não reagiu.
— Ele não reaparecerá para retomar nada.
— Eles não veem assim.
Mário apertou a cintura dela um pouco mais.
Dionísio viu.
Anotou mentalmente.
— E o que você sugere? Luana perguntou.
— A cúpula vai exigir demonstração de estabilidade. Querem saber quem lidera de fato.
Mário olhou para Luana.
Ela sabia.
Ela já estava três passos à frente.
— Eu lidero, respondeu ela, simples.
Dionísio respirou fundo.
— Eles querem prova.
O silêncio caiu novamente.
Mário então falou.
— E vão ter.
Dionísio virou o rosto para ele.
— Como?
Mário sustentou o olhar.
— Da mesma forma que sempre tiveram. Ordem. Resultado. Sem hesitação.
Dionísio estudou aquele homem por alguns segundos.
Não havia medo.
Havia desconhecimento do perigo.
E isso podia ser coragem ou loucura.
Luana se afastou suavemente de Mário.
— Preparem o escritório. Em trinta minutos eu desço.
Dionísio assentiu.
Mas antes de sair, lançou um último olhar para a camisa dela.
Depois para a mão de Mário ainda tocando a cintura dela.
Saiu.
O ar ficou diferente.
Mário soltou devagar.
— Ele não gosta de mim.
Luana pegou o copo de água.
— Ele não gosta de dividir.
— Você é território dele?
Ela virou o rosto lentamente.
— Eu sou território de ninguém.
Mário se aproximou.
— Ontem você não parecia tão neutra assim.
Um quase sorriso surgiu no canto da boca dela.
— Você também não.
Ele se inclinou levemente.
— Eu não gosto de homem circulando pela sua casa enquanto você anda assim.
Ela ergueu o queixo.
— Você não gostava.
Ele não negou.
— E agora?
— Agora eu sei que quando ele olha, ele sabe que você é minha.
O silêncio que veio depois não era leve.
Era perigoso.
Luana sustentou o olhar.
Algo nela reagiu.
Não como rainha.
Como mulher.
Mas ela virou primeiro.
— Vou me trocar.
Subiu as escadas.
Mário ficou parado na cozinha alguns segundos.
Depois passou a mão no rosto.
Não era só desejo.
Era responsabilidade.
Minutos depois, ela desceu diferente.
Terno claro. Cabelo solto agora escovado. Maquiagem leve, estratégica.
A rainha tinha voltado.
Mário vestiu uma camisa simples. Não formal demais.
Eles desceram juntos para o escritório.
Os cinco homens já estavam posicionados.
James com tablet aberto.
Stefano em pé perto da janela.
Clóvis sentado, observando tudo.
Damião encostado na estante.
Dionísio ao lado da porta.
Mário sentiu o peso real.
Aquilo não era sala de jantar.
Era centro de comando.
Luana sentou na cabeceira.
Mário à direita.
Não atrás.
Não de pé.
Ao lado.
O gesto não passou despercebido.
— Relatório completo, ela ordenou.
James começou.
— Movimentação financeira estabilizada. Nenhuma retirada suspeita. Porém, dois membros do conselho russo exigiram reunião paralela.
Stefano completou.
— A ala italiana declarou oficialmente que Victor quebrou o acordo ao abandonar o altar.
Damião falou em seguida.
— Logística intacta. Nenhum vazamento externo ainda.
Clóvis ergueu os olhos.
— Mas haverá. É questão de horas.
O silêncio se adensou.
Luana cruzou as mãos sobre a mesa.
— Então nos antecipamos.
Mário observava.
Ela não falava alto.
Não ameaçava.
Mas cada frase dela encerrava debate.
— Preparem comunicado interno. O casamento está consolidado. A liderança permanece intacta. Qualquer questionamento será tratado como insubordinação.
Dionísio falou então.
— E se houver teste de força?
Ela olhou para ele.
— Então haverá resposta.
Mário percebeu algo.
Ali não havia espaço para dúvida.
Só estratégia.
James virou-se para Mário pela primeira vez.
— E quanto ao senhor?
A pergunta não era cordial.
Era cálculo.
Mário não desviou.
— Quanto ao quê?
— Sua posição.
Mário respirou uma vez.
— Eu estou onde ela está.
Simples.
Sem discurso.
Sem promessa.
Dionísio observou.
Aquilo não era arrogância.
Era escolha.
Luana encerrou.
— A cúpula acontecerá conforme previsto. Ninguém se move antes da minha ordem.
Os homens assentiram.
Um por um, saíram.
Dionísio foi o último.
Parou ao lado de Mário.
— Você ainda não entende o tamanho disso.
Mário sustentou o olhar.
— Talvez não. Mas eu aprendo rápido.
Dionísio inclinou levemente a cabeça.
— Espero que sim.
Saiu.
A porta fechou.
O silêncio voltou.
Luana permaneceu sentada alguns segundos.
Mário olhou para ela.
— Está doendo?
Ela não respondeu de imediato.
Depois levantou.
— Está ficando interessante.
Ele se aproximou.
— Isso é bom ou r**m?
Ela parou diante dele.
— Depende de quem sobreviver.
Ele quase sorriu.
— Então eu vou sobreviver.
Ela ergueu o queixo.
— Vai ter que merecer.
E naquele instante ficou claro:
A rivalidade com Dionísio não tinha começado.
Ela tinha sido oficializada.
E o império não tinha apenas um novo marido.
Tinha uma nova variável.