A CASA ONDE O SILÊNCIO MORA

1098 Words
Memórias que não vão embora e a notícia que quebra o que restava MÁRIO MACHADO ASSIS. A casa ficava no fundo, simples, dois quartos, uma sala pequena, uma cozinha que eu mantinha limpa como se limpeza pudesse organizar a cabeça. Eu acendi a luz e o silêncio veio junto, esse silêncio que sempre está aqui, esperando eu chegar. A casa arrumada não escondia o buraco. Eu larguei a mochila no sofá e, sem querer, olhei pra parede onde um dia teve uma foto nossa. Eu tinha tirado faz tempo, num acesso de raiva e vergonha. Mas a marca do prego ainda estava ali, uma cicatriz ridícula. Pequena. E impossível de ignorar. A memória veio como vem sempre, sem pedir licença. Eu e Estela no portão da oficina, numa noite que tinha cheiro de chuva. Ela sentada no balcão, as pernas cruzadas, o cabelo solto, o olhar que me desmontava fácil. Ela ria do meu jeito sério. — Você parece bravo até quando tá feliz, ela tinha dito, segurando meu rosto com as duas mãos. — Eu não sei ser diferente, eu respondi, fingindo indiferença, mas já rendido. Ela me puxou pela camisa, colou a boca na minha com uma urgência que me fazia esquecer o resto do mundo. O beijo dela tinha promessa. Tinha futuro. Tinha aquela fé louca de quem acredita que amor resolve tudo. — Eu vou ficar com você, Mário, ela falou depois, com a testa encostada na minha. Eu prometo. Eu lembro de ter rido, porque parecia óbvio. — Eu também. Você vai ser minha mulher. A palavra “minha” naquela época era só carinho, não era posse. Era a certeza. Era o jeito simples de dizer que eu já tinha escolhido. O flash da memória muda, sempre muda, e me leva pro dia em que tudo acabou. Eu cheguei na casa dela no fim da tarde, com uma sacola de pão e a cabeça cheia de planos bobos, desses que a gente faz quando está feliz. A porta estava encostada. Encostada, não trancada. Aquilo me deu um frio na barriga que eu lembro até hoje, como se o corpo tivesse sentido antes da cabeça. Eu empurrei devagar. — Estela?, chamei. Ninguém respondeu. A casa estava inteira. Os móveis, as roupas, os livros. O perfume dela ainda no ar, como se ela tivesse saído por cinco minutos. Mas tinha uma ausência ali que era física. Uma ausência que fazia o ar pesar. Eu fui até o quarto. A cama arrumada. A bolsa dela não estava. O celular não estava. Os documentos, não estavam. O resto estava. Tudo que era dela, mas não era necessário para fugir. Eu chamei de novo, a voz mais alta. — Estela! Nada. Aquele nada virou o meu inimigo. Aquele nada virou três anos. O presente me puxou de volta. Eu estava na minha sala, sozinho, com a garganta apertada. Abri a geladeira, peguei uma latinha de cerveja e fiquei olhando pra ela como se fosse resposta pra alguma coisa. Estalei o alumínio e o som ecoou pela casa vazia. Sentei no sofá, afundei o corpo nele e tomei o primeiro gole. Amargo. Frio. Sem graça. Eu fechei os olhos e a mesma frase que eu repetia há três anos veio com a força de um juramento. — Eu vou te encontrar. Eu falei baixo, como se ela pudesse ouvir em algum lugar do mundo. — Eu vou te trazer de volta. A latinha tremia um pouco na minha mão, e eu odiei isso. Odiei estar fraco. Odiei ter virado esse homem que vive de promessa e dor. O celular vibrou na mesa. Eu abri o olho devagar, como quem teme notícia r**m. No visor, o nome do meu amigo detetive. Um dos poucos que ainda me atendiam sem me olhar como se eu fosse doido. Eu atendi na hora. — Fala. A respiração dele do outro lado estava pesada, como se ele tivesse corrido. — Mário, eu achei. Meu corpo inteiro endureceu. — Achou o quê? — Achei a Estela. Eu tenho certeza dessa vez, ele fez uma pausa curta, e eu ouvi o barulho de carro ao fundo. Mas você não vai gostar. Eu sentei mais ereto, o coração batendo tão forte que parecia querer sair pela garganta. — Para com isso. Onde ela tá? — Paris. A palavra me atravessou como se eu tivesse levado um soco. A cerveja virou pedra no meu estômago. — Eu já sei. Eu… eu vou pra lá. Eu vou em três dias. — Não é só isso, ele falou, a voz mais baixa, quase uma culpa. Mário… ela vai se casar. Eu fiquei sem ar. Um segundo inteiro sem ar. Como se o mundo tivesse colocado a mão no meu pescoço. — O quê? — Em quatro dias. Eu consegui a confirmação, consegui o nome do evento, o lugar, tudo, ele engoliu seco. Ela não tá escondida, não tá presa, não tá pedindo socorro. Ela tá… se preparando pra subir no altar. Eu senti a raiva subir tão rápido que queimou. Raiva e dor se misturando como gasolina e faísca. Minha mão apertou a latinha com força demais, o alumínio amassando, o líquido derramando na minha calça, e eu nem senti frio. — Isso é mentira. — Eu queria que fosse, ele respondeu. Eu queria mesmo. Mas não é. Meu peito doeu como se tivesse rachado. Quatro dias. Quatro dias e ela se tornaria de outro. E eu, parado no sofá, numa casa simples atrás de uma oficina, segurando uma latinha amassada, tentando não desmoronar. Eu fechei os olhos e vi o rosto dela. Não o rosto do desaparecimento. O rosto do riso. O rosto do beijo. O rosto da promessa. A voz do detetive veio de novo, mais firme, mais urgente. — Mário, escuta. Você vai pra lá, mas você vai com a cabeça no lugar. Isso não é filme. Isso pode dar merda. Eu abri os olhos. Eu não tinha cabeça no lugar fazia três anos. Mas eu tinha uma coisa que ninguém conseguia arrancar de mim. Fome. Fome de verdade. Fome de resposta. Fome dela. — Me manda tudo, eu disse, a voz baixa, áspera. Agora. E quando a ligação terminou, eu fiquei ali por alguns segundos, olhando pro nada, sentindo o sangue correr rápido, o mundo girar em voltaesperava em Paris. Eu só sabia que eu ia chegar. E que, se ela fosse mesmo se casar em quatro dias, alguém ia precisar me impedir de entrar naquela igreja. E eu não estava acreditando que alguém conseguiria. de uma única certeza. Eu não sabia o que me
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD