Quando a esperança começa a rachar.
MÁRIO MACHADO ASSIS
Quando eu imaginava encontrando Estela, na minha cabeça era tudo diferente. Sempre foi. Em cada versão que eu construí nesses três anos, ela estava presa em algum lugar, sendo ameaçada, forçada a desaparecer. Eu me via chegando como quem salva alguém de um incêndio, quebrando portas, enfrentando quem fosse necessário. Era assim que fazia sentido. Era assim que meu coração aceitava a ausência dela.
Quando Flávio me disse que tinha ouvido de uma ex-colega dela que Estela estava em Paris, minha primeira reação foi lógica, quase automática. Certo. Quem levou ela? Por quê? O cérebro buscava um vilão, uma explicação que me permitisse continuar acreditando que ela nunca teria ido por vontade própria.
Então veio a notícia seguinte. Ela vai se casar.
Mesmo assim, eu insisti na mesma narrativa. Estão obrigando ela. Deve ser isso. Porque a alternativa… a alternativa era pesada demais pra engolir.
O coração humano é só um músculo, eu sei disso. Serve pra bombear sangue, manter o corpo vivo. Não deveria doer. Não deveria apertar. Mas quando a realidade ameaça desmontar a história que a gente construiu pra sobreviver, a dor é física. Vem como uma pressão no peito, um calor r**m na garganta, um vazio que parece puxar tudo pra baixo.
Por que é tão difícil aceitar que talvez a verdade seja outra?
Sintra foi claro. Frio, direto, quase c***l.
Ela não tá escondida, não tá presa, não tá pedindo socorro. Ela tá… se preparando pra subir no altar.
Essas palavras continuam ecoando. Mas alguma coisa dentro de mim se recusa a fechar essa porta. Eu sinto que tem mais por trás disso. Não é só teimosia. É instinto. É a voz que me diz que eu só vou entender quando estiver cara a cara com ela, ouvindo da boca dela o que realmente aconteceu.
— Mário!
A voz de Gabriel Dantas corta meus pensamentos, vindo do portão. Eu pisco algumas vezes, como se precisasse voltar pro presente.
— Já tô indo!, respondo, colocando a lata amassada na pia da cozinha.
Eu atravesso a oficina e encontro Gabriel encostado no carro, sorriso fácil no rosto.
— E aí, como tá meu bebê?, ele pergunta, olhando pro carro. — Cara… você fez xixi na roupa?
Ele começa a rir antes mesmo de terminar a frase.
Eu olho pra mancha na calça e rio sem graça.
— Não, derramei cerveja, respondo, passando a mão, tentando inutilmente limpar.
— Ah, bom. Já tava achando que a pressão era grande demais.
Eu balanço a cabeça e estendo a chave.
— Tá pronto.
Ele pega, gira entre os dedos, satisfeito.
— Me passa seu pix.
— Não precisa, eu respondo. — Você vai me levar pra Paris. Considera isso minha passagem.
Gabriel para de sorrir por um segundo, me encarando sério.
— Mário, eu te convidei pra viajar comigo. E você vai precisar de dinheiro lá. A não ser que queira ficar na minha casa.
— Você tem casa em Paris?, pergunto, surpreso.
— Meus pais têm, ele corrige. — Tá fechada desde que meu pai morreu. Minha mãe prefere ficar aqui. Ela vive dizendo que a casa é meu presente de casamento, ele dá de ombros. — Mesmo ficando lá, você vai precisar de grana pra correr atrás da sua amada.
A palavra amada bate diferente agora. Pesada.
Eu nunca saí do Brasil. Minha vida sempre foi esse bairro, essa oficina, essa rotina que eu entendia. Meu inglês é quebrado, meu francês é inexistente, e ainda assim eu tô decidido a atravessar um oceano atrás de uma mulher que prometeu ficar… e desapareceu.
O suor volta a escorrer nas minhas costas. Minha mente dispara, criando cenários absurdos. Aeroportos, ruas desconhecidas, gente falando rápido demais. E no meio disso tudo… Estela.
— Mário… Mário, você tá aqui, cara?
Eu pisco, percebendo que fiquei parado tempo demais.
— Desculpa, digo, respirando fundo. — Eu… fiquei pensando nessa situação toda. É loucura, né? Ir pra outro país assim… só com a cara e a coragem.
Gabriel cruza os braços, firme.
— Mário, me escuta. É loucura, sim. Mas eu posso te ajudar. Eu te levo, você fica na minha casa, te empresto um carro. Resolve o que tem que resolver. Quando quiser voltar, volta comigo. Ou fica lá de vez. Ninguém tá te prendendo aqui.
Eu encaro ele por um segundo, tentando entender.
— Gabriel… por que você quer me ajudar? A gente nem se conhece direito.
Ele solta o ar devagar.
— Você salvou minha mãe, cara., A voz dele perde a leveza. — Tirou ela daquele carro. Meu pai… não teve a mesma sorte. Mas você conseguiu puxar ela dali. E… você sempre me cobra barato quando meu carro dá problema. Deixa eu te retribuir.
Eu começo a falar.
— Gabriel, eu te falei que não prec…
— Eu sei, ele corta, levantando a mão. — Mas se eu posso fazer algo por você, eu vou fazer. Então pronto. Vamos pra Paris. Se quiser voltar, eu te trago. Resolvido.
Não tem espaço pra discussão no tom dele.
Gabriel entra no carro, dá partida e vai embora. Eu fico parado alguns segundos, olhando o portão aberto, sentindo o peso das coisas mudando de lugar dentro de mim.
Eu fecho a oficina devagar, cada barulho do cadeado soando mais alto do que deveria. Volto pra casa, tiro a roupa suja de graxa e entro no banho. A água quente bate nos ombros e não leva nada embora. Nem tensão. Nem saudade.
Quando me jogo na cama, o silêncio me engole.
É sempre assim.
Toda vez que fecho a oficina, a lembrança dela vem junto. Porque Estela sempre estava ali. Me esperando. Cheirosa, usando aquelas camisolas que não escondiam nada, o cabelo solto, o olhar de quem sabia exatamente o efeito que causava.
Ela me puxava pelo colarinho, ria baixo, e o mundo diminuía até caber só nós dois.
Agora… agora ela deve estar fazendo isso com outro.
A imagem me atravessa como faca. Meu peito aperta, a garganta seca. Um ciúme bruto sobe, misturado com raiva. Perguntas demais, respostas nenhuma.
Eu viro de lado, encaro o teto.
Quatro dias.
Quatro dias pra encarar a verdade que eu evitei por três anos.
Se ela estiver sendo obrigada… eu tiro ela de lá.
Se não estiver…
Eu fecho os olhos com força.
Eu ainda vou precisar ouvir da boca dela.
Só então eu vou saber se tudo que eu vivi foi amor… ou só uma história que eu contei pra mim mesmo pra não enlouquecer.