05

1515 Words
Orei na noite anterior para que a imagem daqueles olhos azuis desaparecesse da minha cabeça. Eu estava acostumada a olhos azuis. Minha mãe os tinha e Rute também e eram como um céu ensolarado. Olhos azuis doces e alegres, que jamais conseguiam esconder sentimentos nem pensamentos. Mas o azul daquele homem era profundo, quase profano. Transmitia algo com o qual eu não estava acostumada e nem queria me acostumar. Era sombrio e ao mesmo tempo sedutor; perverso e ainda assim... Triste. Eu senti aquela tristeza quando ele olhou no fundo dos meus olhos e me ouviu dizendo que sentia medo dele. Eu não menti, não tinha como mentir para ele quando eu sabia que minha alma era sondada minunciosamente por aqueles olhos perspicazes. Saí de casa e parei no portão antes de abrir e seguir meu curso para o trabalho. Tudo o que eu não queria era ver ele ali, me esperando, me sondando como se eu fosse sua caça. Quando saí, notei que não havia ninguém à minha espera. Dei graças a Deus, porém, algo dentro de mim sentiu-se um pouco decepcionado por ele ceder com tamanha facilidade. Sendo muito sincera, andar sem um guarda-costas de um metro e noventa me deixava um pouco apreensiva. Eu ainda não era conhecida no morro, não sabia exatamente quem poderia me fazer m*l ou me assaltar ali. Ter ele caminhando ao meu lado, pelo menos, me dava um pouco de paz. Todavia eu sabia que aquilo precisava acabar, já que eu não queria ser marcada como uma das mulheres do dono da comunidade. Se tinha uma coisa que eu queria evitar era ter um alvo gigante colado nas minhas costas. Que era o que acontecia normalmente, já que os traficantes de renome sempre tinham uma fila de mulheres aos seus pés. Minha vida não estava sendo exatamente fácil naquele lugar. Eu sentia vontade de voltar para minha antiga casa, meu antigo emprego e minha velha realidade. Eu caminhava apreensiva pelas ruelas numa manhã de quarta-feira, o ar permanecia gelado e um pouco de neblina ainda percorria o caminho. Eu sabia que Deus me guardaria por onde quer que eu fosse, mas minha alma era humana e minha mente também, por isso, mesmo sem querer minha cabeça trazia à tona o quão frágil era ser mulher na nossa sociedade. E em cada esquina escura um assediador poderia estar à espreita. Como estava atrasada naquele dia, já que meu plantão passou a iniciar uma hora mais cedo, resolvi pegar um atalho, que uma moradora e m****o da nossa igreja ensinou. Um barulho estranho me assustou quando caminhava pela Carneiro Lima e eu apressei o passo nervosa. Naquela parte da favela a movimentação de pessoas não acontecia antes das oito da manhã. O que deixava muito espaço para coisas ruins acontecerem. Comecei a sussurrar “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?”, para tranquilizar meu espírito e fazer com que minhas mãos não tremessem tanto. O livro de Salmos era o meu favorito e eu sempre me apegava a esse versículo quando minha alma começava a fraquejar. – Não sabia que gostava de sussurrar sozinha de madrugada. – Aquela voz rouca soou atrás de mim e eu parei de andar num susto. – Se tem tanto medo assim de andar sozinha, por que não pede seu pai pra te levar? – Meu pai tem compromissos na igreja e eu já sou adulta o suficiente para me cuidar sozinha. – Olhei para ele e o cumprimentei com a cabeça já me virando para seguir meu caminho. Eu me odiava por estar dando graças a Deus por ele ter aparecido. Agora eu me sentia segura para andar na rua, mas em compensação eu estava apavorada pela presença proeminente que ele impunha sobre tudo, inclusive em mim. – Ah sim... Tô vendo como você está confiante. Tão confiante que rezou o Pai Nosso umas dez vezes do início da Carneiro até aqui. – Ele colocou as mãos nos bolsos do jeans velho e começou a me acompanhar como de costume. – Eu não rezo. Não sou católica. O que está fazendo? ­– Parei e o encarei, sentindo minhas bochechas corarem e agradecendo a Deus por o dia ainda não estar muito claro. – Por favor, pare de me seguir. Eu não devo nada ao senhor. – Você deve ter um ego muito inflado para achar que eu estou te seguindo como um cachorrinho atrás do dono. – Ele se aproximou e abaixou a cabeça para me olhar nos olhos. – Eu já estava aqui quando você dobrou a esquina. O problema é que você é tão medrosa que não notou nada ao seu redor. Me aproximei porque você parecia ter visto uma assombração, então quis me certificar de que ninguém mexeu contigo. – Ah... me desculpe. Eu não quis ser grossa. – Ele me desarmou e eu fiquei constrangida por não notar que estava tão desesperada. – Eu não conheço esse lugar. Tudo aqui é novo e ainda estou tentando me acostumar. – Por que você não deixa de ser insuportavelmente teimosa e aceita minha companhia até o trabalho? – De novo, da mesma forma como no outro dia, ele pendeu a cabeça para o lado fazendo com que uma mecha do cabelo castanho claro caísse no rosto. Eu fiquei nervosa com aquele pedido, ainda mais por estar frente a frente com ele. O homem mais diabolicamente lindo que eu já vira em toda minha vida. Aqueles olhos sombrios, o cabelo em mechas rebeldes espalhadas pela cabeça. Isso sem falar em todas aquelas tatuagens pelo corpo. Nunca vi um homem com tantas pessoalmente. Os braços dele bem como o pescoço e a clavícula, eram cobertos pelos mais diversos desenhos e palavras soltas que se poderia imaginar. Entretanto, o que me chamou atenção foi a tatuagem na clavícula esquerda, próxima ao peitoral bem definido. “He’s The Windstorm” Eu não sabia muito de inglês, mas pela noção que eu tinha, parei para tentar entender o porquê alguém escreveria “Ele é o vendaval” no próprio corpo. Quem seria esse “ele”? Por que alguém seria considerado tão destrutivo? – Se incomoda em voltar para o presente, Anjo? – A voz dele soou baixa, porém firme. – Ahm... Você pode me acompanhar pela Carneiro e a Juiz Silva, mas depois disso eu sigo sozinha. E antes disso também. Pode ser, Rei? – Supliquei em silêncio para que ele aceitasse as coisas dessa forma sem retrucar. – Você realmente não quer ser vista ao meu lado? Eu sou tão repugnante assim? – Ele franziu o cenho e deu um passo para mais perto de mim. – Eu sou tão asqueroso que não mereço andar lado a lado com um anjo? – Não sou um anjo, pare de ofender os servos de Deus comparando eles com uma mera criatura do Pai. – Eu respondi. Ele poderia dizer o que quisesse, mas não brincaria com a minha fé. – Não é a sua própria Bíblia que diz que, uma vez adotados, somos filhos dEle? Pelo que me consta, os filhos do senhor da terra são mais importantes do que seus servos. Me espantei por ele saber tanto sobre a minha religião, e ainda mais por ele falar sobre o assunto com tamanha propriedade, como se tivesse lido a Bíblia por completo e soubesse o que estava escrito em cada página. – Você sabe demais sobre nós para alguém que sequer tem fé. – Antes que ele jogasse outra piadinha ácida, continuei falando: – Não quero ser confundida com uma de suas mulheres. Nem muito menos ter a cabeça raspada ou o rosto cortado por “cobiçar” – fiz questão de fazer o sinal de aspas – ... algo de alguém. – Fique tranquila, Anjo, não tem ninguém aqui além de você. – Ele quase sussurrou as palavras. Eu estava prestes a pedir que ele explicasse o que quis dizer com aquilo, mas ele se adiantou e disse: – Se eu fosse você, pararia de ser tão paranoica e começaria a andar bem rápido. Você tem dez minutos antes do seu plantão começar. Eu olhei para o relógio no pulso e soltei um “sangue de Jesus tem poder! ” antes de começar a caminhar depressa. Com o canto dos olhos eu o vi balançando a cabeça como se estivesse me repreendendo. – Você vai ficar aí parado ou vai me escoltar? – Bati com o dedo no tampo do relógio. – O que meu Anjo mandar... – Ele caminhou tranquilamente ao meu lado sem dizer uma palavra. O injusto era que uma passada dele equivaliam a duas da minha. Eu não fazia ideia de onde estava me metendo, no entanto, não parecia ser tão r**m deixá-lo me acompanhar por parte do caminho se ele prometesse não se aproveitar de mim. E pela seriedade na fisionomia dele, Rei estava mais para um soldado guardando a rainha da Inglaterra do que um assediador.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD