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1452 Words
Acordei na manhã seguinte sentido uma dor latejante entre as pernas. Meu m****o pulsava com as imagens daquela mulher. Ela não saiu da minha cabeça nem por um segundo e eu sabia que minhas próximas palavras gravadas em papel seriam sobre ela. Não havia possibilidade de não ser. No dia anterior pedi a Netinho que descobrisse a rotina dela e que horas ela costumava sair de casa para ir trabalhar. Com pouco esforço descobri que Isabel era enfermeira na UPA e trabalhava de segunda à sexta das sete da manhã às seis da tarde. Sem nenhuma vergonha na cara, eu me levantei e fui tomar banho. Meu plano era acompanhá-la até o trabalho e conseguir ganhar sua confiança nesse meio tempo. Eu tinha certeza de que seria uma tarefa fácil, já que todas as mulheres caíam aos meus pés. Só que, algo dentro de mim esperava que ela fosse mais difícil do que isso, para que todo o jogo valesse a pena. Caminhei pelas ruas até chegar próximo a casa dela, quando Isabel saiu, me aproximei e a cumprimentei. Não esperava pelos olhos arregalados e a expressão de terror no rosto. Confesso que aquilo me feriu um pouco. O que me deixou mais confuso foi a cor dos olhos terem mudado para castanho, como se eu tivesse tido uma alucinação ao ter visto um deles verde anteriormente. – Por que essa cara de quem viu o demônio? – Deixei a cabeça pender para o lado e passei a mão nos cabelos rebeldes. – Me desculpa, eu não sabia que você me abordaria a essa hora. – A voz dela saiu baixa e repleta de medo. – Não estou aqui pra te abordar. Eu estava passando e te vi. Resolvi cumprimentar a nova moradora de uma forma menos acalorada. – Estiquei a mão para um aperto. – Obrigado pela gentileza, foi um prazer ver o senhor. – Ela curvou levemente a cabeça e me deu as costas seguindo seu caminho. Eu não perderia aquela oportunidade de forma alguma, então caminhei ao lado dela em silêncio por todo o percurso e a deixei perto do trabalho. Eu sabia que não seria fácil conquistar a confiança dela, mas eu não desistiria até que ela fosse minha. E ela viria até mim por vontade própria. Passaram alguns dias naquela mesma rotina. Eu a acompanhava até o trabalho e Isabel não dizia uma palavra sequer. O mesmo olhar de espanto me aguardava sempre às seis da manhã na rua Laurinha, e eu não conseguia deixar de buscar por ele ansiando que na manhã seguinte aquele pavor se amenizasse. Resolvi que na manhã seguinte começaria a fazer ela falar. – Bom dia, Anjo. – Sorri com o canto dos lábios e ofereci minha mão para ela apertar. Como de costume, ela desviou. Caminhamos lado a lado por alguns minutos até que eu cortei o silêncio e ela tomou um susto ao ouvir o som da minha voz. – Por que decidiu ser enfermeira? – Tenho vocação. – Foi tudo o que aquela voz doce e suave como mel expressou. – Seja mais específica. Eu tenho vocação para ser presidente e nem por isso governo o país. – Eu decidi ajudar o próximo da melhor forma que eu sei fazer. Não tenho vocação para ser missionária, muito menos evangelista. Então quero poder mostrar o amor de Deus através do cuidado. – Ela parecia tímida ao revelar isso, mas eu não estava nem aí. – Por que entrou na frente do seu pai naquele dia? – Olhei para baixo na direção dela, que era uns bons quinze centímetros mais baixa do que eu. – Você acusou meu pai de algo que ele não fez. – Ela disse, sucinta. – Não acho que acusei errado. Uma moto passou e eu, por instinto, a puxei para mim para que ela não fosse atingida. Isabel levantou a cabeça e eu me vi preso naqueles olhos outra vez. Franzi o cenho confuso e ela deve ter entendido minha expressão errado, pois se afastou de supetão e voltou a andar de cabeça baixa. – O que você fez com seus olhos? Tenho certeza de que um deles era verde. Ela parou como se tivesse congelada e então, rapidamente voltou a andar. Eu apressei o passo para acompanhar e segurei o braço dela para que ela parasse e me respondesse. Para a minha surpresa, quando eu a virei para mim, Isabel estava com o rosto vermelho e os olhos marejados. – Ei, tá tudo bem. Ninguém vai te matar por você ter olhos diferentes. Do jeito que você tá agindo parece até que eu te ofendi. – Eu estou atrasada. Por favor, solta meu braço e me deixa ir embora. E... Pare de ir até minha casa. – Ela olhou para baixo como se me olhar nos olhos fosse uma tortura. – O que fizeram com você para que tenha tanto medo de tudo? – Dei um passo para mais perto. – Eu não tenho medo de tudo. – Ela disse, com as mãos trêmulas. – Então, do que você tem medo, anjo? – Tentei suavizar minha voz grossa. – De você. – Ela olhou nos meus olhos e eu vi que ela estava desesperada para sair de perto de mim. Eu soltei o braço dela e caminhei na direção oposta sem olhar para trás. Sem parar para ver se ela estaria me vendo ir embora. Aquelas palavras trouxeram de volta memórias as quais eu não desejava relembrar. Dei às costas ao meu anjo para que ela não visse o vendaval com o qual meus olhos transbordavam. Aquela noite foi uma das mais difíceis que eu tive em muitos anos. Não consegui dormir e nem mesmo o uísque ajudou a relaxar. Eu sabia o que precisava fazer, só não estava disposto a me render àquela vontade. Passei umas boas horas na minha academia socando o saco de areia para tentar aliviar aquele tormento no peito. Tomei um banho congelante. Fumei um charuto. Nada conseguiu arrancar aquela agonia que Isabel havia despertado com duas simples palavras. Eu sabia o que precisaria fazer, então fui para meu escritório privado, aquele em que nem mesmo minha mãe entrava. Sentei-me na cadeira, peguei papel e caneta e deixei a tinta tocar a folha e marcá-la com a minha mente. "Sinto que vou me partir outra vez. Em tantos pedaços que não sei se conseguirei recolher. Eu já senti isso antes, a dor, a confusão e a solidão que vem logo após o tiro de misericórdia. Por que eu ainda estou aqui? Por que eu me recuso? Memórias, lembranças esquecíveis... Às vezes esqueço esse fato. Assim como um vendaval que passa e tempos depois se torna apenas mais um dentre muitos. Queria ser capaz de impedir o que virá. Se eu pudesse, será que desejaria poder desejar tudo outra vez? De alguma forma parece ser inevitável, o futuro que me assombra. Algumas vezes crio uma gota de esperança de que talvez exista uma saída, mas essa gota evapora no instante em que a realidade bate à porta. E ela sempre faz questão de bater. Sinto-me condenado por algo que não tive escolha. Não tive opinião, nem sequer qualquer direito. Vez após outra as sentenças foram dadas e eu apenas aceitei as algemas. Se foram destinadas a mim, por que machucam tanto? Se eu deveria me conformar, então o que é isso dentro de mim que causa estrondos e repele outros? Se somos em pares, então, por que Deus não criou o meu? Talvez a única coisa capaz de fazer par com a loucura seja a própria insanidade trazida pela solidão. Que grande amiga ela é! Assim como a dor, o ardor e a angústia. Parceiros à longo prazo, não me permitem sentir só. Pelo contrário, me visitam dia após dia para lembrar-me de que sempre estarão ali para mim, fincados no peito, enraizados na alma. Se existe beleza e valor na tristeza, então meu espírito é diamante lapidado de valor inestimável. Impenetrável, incurável, aparentemente delicado, porém forte e pesado. Por favor, faça com que essa pedra se torne em carne e sangue. Eu queria experimentar o silêncio. Queria saber como é estar em paz. Queria contar estrelas e desenhar a lua. Se eu puder fazer algo antes de partir, por favor, me deixem contar estrelas, para que em meu último momento de vida eu, finalmente, deixe de me sentir sozinho e pela primeira vez me sinta acolhido." Olhei para o que eu havia acabado de escrever e joguei a caneta na mesa. Cobri o rosto com ambas as mãos e suspirei. Isabel estava trazendo à tona coisas que eu não queria expor, nem mesmo para o papel, ou para mim mesmo.
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