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1855 Words
LEONARDO NARRANDO Eram seis e meia da manhã e eu já estava de pé. Abri a janela e olhei para fora, para a vista que eu tinha do morro. Do meu morro. Não sei se isso era uma coisa boa ou se eu era a causa dos problemas da sociedade. Mas eu cuidava bem do que era meu e isso ninguém podia negar. A comunidade tinha suas regalias e a proteção do meu exército. Se ele estava de acordo ou não com as leis do país, isso já não era problema meu e sim de quem inventou as regras do jogo sem me consultar antes. Andei pelo meu quarto espaçoso e deixei as roupas pelo caminho. Uma coisa eu tinha que admitir, minha jornada até ali me garantiu muito conforto, para mim e minha soberana. A dona Ivonete, a única que podia dirigir a palavra a mim sem precisar de respeito, já que foi ela quem me trouxe ao mundo. Dona Nete, como era conhecida por todo mundo, era quase a padroeira do Batô e não tinha uma alma viva naquele lugar que não reverenciava minha mãe. Até porque, quem não fizesse sabia que teria de se ver comigo. – DONA NETE? – Eu chamei minha mãe da porta do meu quarto antes de entrar no chuveiro. – Que foi garoto!? – Ela gritou de volta. Uma mulher que chama o filho de trinta e sete anos de "garoto" só pode ter muita moral no mundo. – Evita sair hoje porque os "caras" estão lá na entrada fazendo ronda. – Eu não quero nem saber! Eu vou ver a Francisca sim! Ela vai operar amanhã e quando um velho vai para o hospital a gente nunca sabe se volta. – Você nunca vai me dar ouvidos? – Se o destino quisesse que eu te desse ouvidos teria feito eu sair do seu saco e não você sair da minha barriga. – Ela me deu o dedo do meio e ainda acrescentou: – Vai logo tomar teu banho porque quem gosta de ver p***o murcho é urologista. – Dona Ivonete... Você tem sorte de ter o poder de mandar em mim, ou eu já teria cortado sua língua! – Eu resmunguei antes de fechar a porta sem dar a chance de ela arremessar um objeto em mim, que dessa vez era o copo do liquidificador. Quarta-feira era dia de sentar e fazer as contas dos lucros da semana anterior, mas naquela quarta as coisas estavam um tanto diferentes, por assim dizer. Pelo que Sérgio me disse no rádio, um pastor havia se mudado para a comunidade para assumir o lugar do último pastor que eu expulsei. Nada contra a religião em si, mas eu jamais admitiria na minha comunidade um homem que fazia test-drive nas fiéis pra saber se elas eram puras de verdade. Ele ainda deu sorte de sair com vida, já que os noivos das garotas queriam capar ele antes de passar a régua. Nada contra a justiça com as próprias mãos também, mas eu não posso deixar todo mundo fazer o que quiser ou então isso aqui vira uma carnificina. E, como um bom rei, eu preciso dominar meus súditos e fazer com que eles me obedeçam, seja por respeito, ou por medo. O tal pastor tinha chegado fazia duas semanas e já estava me causando problemas. Os números baixaram consideravelmente em comparação com as semanas anteriores. Aquilo não era aceitável se eu quisesse manter o controle e o padrão de vida da comunidade, já que era eu que ajudava a reformar a casa da galera e a deixar a comunidade mais organizada. – A gente tem que meter o terror nesse pastorzinho. Esse cuzão tá fazendo a gente ter um p1ta prejuízo. – Sérgio jogou o caderno em cima da mesa do escritório. – Fala baixo e para de xingar dentro da casa da minha mãe. Já mandei você respeitar minha velha. – Eu tô puto! Tu quer que eu diga o quê? GLÓRIAS GLÓRIAS ALELUIAS, VAMOS TODOS PRO CÉU AGORA! – Sérgio levantou as mãos para o alto. – Esse cara vai f***r a gente com essa ideia de pedir perdão pelos pecados e virar missionário. Tu acredita que o Marmitinha pediu demissão porque vai virar pastor numa igreja no ACRE? Marmitinha era o filho de uma vizinha que recebeu esse apelido por vender marmitas para o meu pessoal e pra toda a comunidade. Eu respirei fundo já que entedia a frustração do meu braço direito. Eu não tinha paciência para ficar ameaçando ninguém pra seguir as regras da facção, e era justamente por isso que eu tinha meu esquadrão especial. Porém aquela era uma situação diferente. Pelo que eu entendi o cara era boa gente e estava tentando fazer o bem, era uma pena que o "bem" dele interferia diretamente nos meus negócios. Então, como um bom soberano, eu iria até ele pessoalmente explicar as regras do jogo e mostrar a ele quem dava as cartas ali. – Chama o Fura Olho e o Netinho. A gente vai bater na rua Laurinha daqui a trinta minutos. Levantei e fui direto para o meu aparador. Coloquei duas bolas de gelo no copo e fiz questão de derramar uma boa quantidade de Macallan Sherry Oak Cask, um perfeito uísque de dezoito anos que impregnava na minha língua com um maravilhoso sabor de tabaco, chocolate, baunilha e pimenta. Eu, com certeza, precisaria de álcool circulando no meu sangue, pois eu ia me encontrar com um pastor e tinha certeza de que não sairia de lá sem uns bons versículos bíblicos para bagunçar minha mente. Por isso Macallan era perfeito para me deixar disposto a ouvir sem mandar ele guardar aquela ladainha para quem acreditava. Ao contrário do que muita gente pensa, a minha vida e do meu bando começava cedo. E eu gostava bastante de surpreender as pessoas logo no raiar do dia, para que vissem que eu nunca durmo, meus olhos estão sempre por toda a comunidade. Cheguei no portão da casa do pastor e achei interessante ele decidir ficar em uma casa simples e não na casa mais confortável que a igreja tinha na entrada da favela. Sérgio arrombou o portão e eu ouvi um grito dentro da casa. – Tem mulher na casa? – Perguntei. – Pelo que sei ele tem duas filhas. – Fura Olho disse. – Ninguém toca nelas ou eu faço questão de comer na p1rrada. – Olhei sério e fiz sinal com a cabeça para que Netinho e os outros entrassem. Deixei que eles passassem a minha frente e estalei os dedos e o pescoço para começar o show. Entrei na sala ainda com caixas de mudança e poucos móveis e dei de cara com um velho de cabelo quase todo cinza, de óculos e vestindo pijamas de gente velha. Ele estava coma as mãos tremendo e com um olhar aterrorizado, mas diferente do que eu imaginei, ele não baixou a cabeça e nem desviou os olhos de mim. – No que posso ajudar, senhor Rei? – A voz dele mostrava que ele temia o que poderia acontecer, porém, o que chamou a minha atenção foi que, ainda assim, tinha um tom de doçura esquisito. – É um prazer finalmente conhecer o nosso novo homem de Deus – Juntei as mãos em sinal de prece. – Só que... Temos um problema aqui, pastor. – Eu andei até um dos sofás e me sentei colocando a mão no braço do móvel. – Você está sendo muito homem de Deus para o meu gosto. Nada contra seu estilo de vida, mas suas cruzadas religiosas estão interferindo diretamente nos meus negócios. – Eu sinto muito por estar causando problemas. Tudo o que tenho feito é pregar a Palavra e ensinar os moradores a orar e ler a Bíblia. – Você pode falar com os moradores, isso não me incomoda, pelo contrário, um pouco de fé pode ajudar muita gente aqui. O que eu não admito é que você ande por aí tentando converter meu pessoal e fazer eles se mudarem para o Acre. Eu estava prestes a dizer os termos para que ele entendesse até onde podia ir na minha comunidade, quando eu ouvi aquela voz soando atrás dele. Aquele som estalou nos meus ouvidos como uma adaga no peito. – Nós não convertemos ninguém! – Você é corajosa pra falar isso enquanto se esconde atrás de um homem. Por que não se mostra corajosa o suficiente para dizer isso na minha cara? – Estiquei os braços no encosto do sofá mostrando poder. O que eu não sabia era que eu não estava preparado para a visão que viria a seguir. O pastor tentou impedi-la mas não conseguiu segurar a filha. A garota parou na frente do pai, como se estivesse disposta a levar um tiro por ele, no entanto, quem levou um tiro foi eu. Ela era a coisa mais linda e angelical que eu já tinha visto em toda a minha vida. Branca como porcelana, o cabelo cheio caindo até a cintura. Os lábios em formato de coração diminuíram em 10% a minha sanidade. Mas aqueles olhos, aqueles malditos olhos de duas cores me levaram pra lona em um perfeito nocaute. Eu cerrei o maxilar, incomodado com a sensação no peito e em outras partes não tão nobres do corpo. Olhei para Sérgio mas ele parecia paralisado por outro motivo que eu não conseguia enxergar. – Vocês vieram para cá por vontade própria, então dançarão conforme a minha música. Eu não quero ver vocês perto dos meus homens ou teremos problemas. Certo, pastor? – Farei o possível para não interferir nos seus negócios e cumprir a vontade de Deus independente de tudo. – Diga ao seu Deus que eu cheguei no Batô antes dele. Pra mandar aqui, só passando por cima de mim. – Levantei e comecei a caminhar para fora da casa quando eu ouvi aquela voz outra vez. – Eu vou orar por você. – O anjo de olhos bicolores disse. – Ah... ore por você, anjo. Se orar por mim, eu vou aparecer nos seus sonhos, e te garanto que a última coisa que faremos é ler a Bíblia. – Sorri com o canto dos lábios e saí sem esperar por uma resposta. Sérgio demorou alguns segundos a mais para deixar a casa, mas quando saiu eu pude notar o semblante assombrado, como se ele tivesse visto o capeta naquela casa. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que ficou confuso com a minha abordagem, já que aquele não era o jeito como fazíamos as coisas por ali. Eu expliquei que tinha planos futuros para aquela família e que em breve ele entenderia o porquê da minha benevolência. Sim, tenho certeza de que Sérgio entenderia minha jogada quando ele me visse casando com aquela bruxa de olhos hipnotizantes. A filha daquele pastor seria minha ruína em algum momento da minha vida, entretanto, eu não almejava viver por muito tempo mesmo. Portanto, ela seria minha a qualquer custo, e eu estava preparado para pagar um alto preço para fazer dela a minha rainha.
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