ISABEL NARRANDO
Nascida e criada em Campo Grande, zona Oeste do Rio, ter que me mudar aos vinte e cinco anos era um pouco desconfortável para mim. Eu já tinha minha vida estabelecida ali, um emprego que eu gostava, uma boa igreja para frequentar e amigos legais. Mas meu pai recebeu o chamado de pastorear uma igreja dentro de uma comunidade em Jacarepaguá. Graças a essa proposta, a vida da nossa família mudaria por completo. Não que eu recriminasse meu pai por isso, eu sabia que era o certo a fazer, levar a Palavra aos necessitados, era só que... Eu temia por Rute. Minha irmã tinha apenas dezoito anos e estava estudando para ser missionária, eu não queria que nada atrapalhasse o sonho dela.
Caminhei até a sala de estar para ver se meu pai, o Pr. José Vieira, precisava de ajuda em algo mais, caso contrário eu iria para cama tentar descansar. Eu trabalhava como enfermeira na clínica da família Souza Lima e, por mais que os horários fossem flexíveis, tinha dias que eu chegava em casa moída graças ao grande fluxo de pacientes por lá.
– Pai, precisa de alguma coisa? Minha irmã terminou de encaixotar as coisas do quarto dela e já foi até dormir. – Encostei no arco da porta e cruzei os braços.
– Não minha filha, pode ir deitar. Eu só vou terminar de embalar esses porta-retratos aqui e também vou me deitar.
Dei um beijo na testa do meu pai e sai da sala. Muitos daqueles retratos eram da minha mãe, que faleceu de câncer quando Rute tinha cinco anos. Ter visto minha irmã crescer sem minha mãe foi uma das coisas que me motivou a fazer enfermagem. Eu queria dar apoio e ajudar outras mães a se curarem para que não precisassem partir e deixar seus filhos para trás.
Eu caminhei até meu quarto e fechei a porta quando entrei. Nossa casa tinha um tamanho confortável para uma família pequena como a nossa, e meu pai já tinha fechado contrato de locação para alugar a casa e gerar uma renda extra para nós, já que ele viveria exclusivamente do salário pastoral. Eu ainda não sabia como era a nova casa, mas sabia que seria menor que a nossa e mais simples. Não esperava uma casa luxuosa nem muito menos gigante. Só queria um bom lugar para viver com a minha família e, querendo ou não, a favela do Bateau Mouche, ou como todos chamavam, Batô, não era um lugar tranquilo e seguro. Meu pai estava firme na decisão de pregar para os mais pobres, para os bandidos e os usuários então criou todo um projeto social para melhorar a igreja e evangelizar a todos.
– Isabel, ainda está acordada? – Meu pai bateu suavemente na porta.
– Sim, papai. Pode entrar.
Ele entrou no quarto segurando uma foto junto ao peito. Papai já não era mais tão jovem e eu já via os filhos prateados no cabelo, barba e sobrancelhas junto com as rugas. Ele parecia emocionado e pediu licença para sentar na minha cama ao meu lado.
– Achei esse retrato da sua mãe e queria que você visse. Não sei se alguma vez já mostrei a você ou a sua irmã, mas acho que a partir de agora deveria ficar exposto na nossa nova casa.
Eu peguei a foto e sorri quando vi o que era. Minha mãe estava vestida de noiva dançando na chuva junto com meu pai vestido de noivo. Aquela foto tinha sido tirada na festa de bodas de prata deles, um ano antes dela partir para Deus. Eles estavam abraçados e ambos sorriam como se aquela fosse sua primeira dança. Os dois casaram aos dezoito anos e desde então nunca mais se desgrudaram. O amor que meus pais sentiam um pelo outro era digno de um livro de romance. Eu nunca vi um casal tão apaixonado um pelo outro mesmo depois de 26 anos de casamento e duas filhas. Quando ela se foi, eu pensei que perderia meu pai logo em seguida para a depressão, mas ele foi forte. Aguentou tudo por minha irmã e eu e foi o nosso pilar para que pudéssemos seguir em frente. Esse era um dos motivos que me faziam acreditar que meu pai era a melhor pessoa para decidir nosso futuro naquele momento. Eu o abracei e sequei as lágrimas que molhavam o rosto pálido e cansado.
– Mamãe teria orgulho de você agora. Rute e eu somos muito gratas por ter um pai como você. Vai dar tudo certo e a gente vai viver em paz lá.
A manhã seguinte chegou sem muitas delongas e, logo cedo, já estávamos os três de pé carregando caixas para o caminhão. Meu pai avisou ao motorista que ele precisaria se identificar assim que chegasse na entrada da favela, na Rua Cabo da Esperança. O tráfico lá era intenso e qualquer pessoa de fora precisava se identificar ou corria o risco de ser atacado pelos soldados do crime, como eles se denominavam.
Seguimos a longa viagem de Jardim Bela Vista para a Praça Seca. Não foi uma viagem fácil e eu notava meu pai e minha irmã orando no trem para que tudo desse certo. Presenciar aquela demonstração de fé, mesmo que silenciosa, me deu uma reconfortante sensação de paz. Eu cantarolava mentalmente uma música do grupo Hillsong Worship quando meu celular vibrou e me tirou dos meus pensamentos. Abri um largo sorriso quando vi o e-mail da minha ex-chefe me avisando que eu tinha sido aceita na UPA 24H próxima ao meu novo lar. Contei para minha família e meu pai deu graças a Deus por eu estar empregada. Assim a gente poderia garantir que Rute seguisse com seu sonho de ir para o seminário no Sul do país para ser missionária.
– Pai, como você vai fazer para conseguir conversar com os traficantes da região e conseguir a permissão deles pra pregar por lá? – Rute recostou a cabeça no ombro dele.
– Ainda não sei, minha querida. Deus vai me ajudar a encontrar uma saída. – Ele acariciou os cabelos loiros da minha irmã.
Existia uma grande diferença entre Rute e eu. Minha irmã era a cópia da nossa mãe, loira de olhos azuis. Enquanto isso, eu era a cara do meu pai, com meus cabelos castanhos. A única diferença entre ele e eu era que meu pai nasceu com olhos verdes, já eu nasci com um olho verde e o outro castanho. Nos dias atuais ter heterocromia não era mais um tabu tão forte. Mas eu já estava acostumada a ser encarada na rua e ouvir piadas sobre isso. Inclusive, sofri muito bullying na escola, sendo chamada de bruxa, alien, assombração etc. Por causa disso, e por meus pais cansarem de me ver chorando por não ter amigos e ser excluída de tudo, chegaram à conclusão de que era melhor eu usar uma lente castanha para esconder o olho verde.
– Papai, você já vai assumir seu posto nesse domingo? – Questionei.
– Sim, eu pretendo conversar com o secretário da congregação e já serei empossado neste domingo.
– O que vai fazer a respeito do tal “Rei” que comanda a área?
– Nada, minha filha. Deus está no controle.
Eu acreditava que Deus estava no controle, mas não conseguia deixar de me preocupar com o que poderia estar à espreita por trás do tal Rei.